O meio e o começo de tudo no quilombo Lagoas (PI)

Bernardo Curvelano Freire
São Raimundo Nonato, 1 de Junho de 2020

No dia 15 estive no quilombo Lagoas. Jornada de dia inteiro.
Quando já conversava com Cláudio Teófilo Marques na varanda de sua casa, na comunidade do Calango, no quilombo Lagoas, eu o informei que tinha rompido com a Secretaria de Planejamento do Estado do Piauí (SEPLAN). Tinha xingado pessoas, perdi a paciência. Meu compromisso hoje seria exclusivamente com o quilombo e nada mais. Qualquer negociação de que eu participasse teria o quilombo como horizonte de partida e de chegada. Claudio se mostrou tranquilo quanto a isto. Pude emendar que, ainda assim, Erasmo, o agente territorial, me procurou para me convidar para um Fórum Sócio-Econômico já pensando no pós-pandemia. Será a minha hora para dizer que, sem titulação do quilombo, piso de pagamento calculado pelo salário mínimo, eu nem sento pra conversar com esse povo. Cheguei a mencionar que o governo estaria preocupado com a recuperação econômica do estado, a região, após a pandemia. Rimos depois que Claudio fez a pergunta retórica do ano: “Recuperar o quê se não tem nada?”.

Voltar ao quilombo é a única coisa que me mantém em São Raimundo Nonato. E aqui, relatar a jornada do dia 15, é muito importante, pois fica muito claro como e por qual razão o quilombo pode ser e é refúgio. No dia 08 de janeiro deste ano fui a São João do Piauí. Eu já tinha passado meu aniversário sem meus filhos e esposa uma vez. Isso se repetiu neste ano quando, pelo menos, eu não estava sozinho. Além de dois alunos de quem fiquei muito próximo – Júlia Rolfsen e Rafael Queiroz -, estavam presentes amigos de João Pessoa, Kristerson Luna Freire e sua companheira, a Lu, de quem eu nunca perguntei o sobrenome. Sou amigo de Kristerson há quase dez anos e desde que mudei para o Piauí nos tornamos muito próximos. Muito mesmo. Enfim, nos visitamos, apesar dos 1800 km que percorremos para tal. No dia 08 de janeiro, fomos a São João do Piauí levar alguns presentes para Antonio Bispo dos Santos. O encontro de Nego Bispo com Kristerson me pereceu ser um momento de saúde, caso pudesse acontecer. E aconteceu, conduzido na base de trocas de receitas de fermentados. Eu perdi muita coisa do papo, pois estava cozinhando a pior galinhada que já fiz em minha vida, que tinha como principal qualidade matar hipertensos.

Mesmo sem estar o tempo todo por perto, pude ouvir uma das coisas mais importantes que já vi Nego Bispo conversar. Sobre a riqueza ser, antes de mais nada, a hospitalidade. E não a hospitalidade como uma forma abstrata, uma intensão, mas um cômodo, uma casa, um espaço de acolhimento. Na sua caminhada em que a contracolonialidade se transforma em um signo reconhecível nos pequenos gestos, nos espaços de convívio – é caldeirão, e não piscina – , o espaço do acolhimento é construído. Ter quartos para receber, ganchos para pendurar, pilastras para amarrar e, então, ajustar a cama, a rede, a cozinha para cercar-se de quem passa vindo a dispensar a estrutura dos hotéis. Tudo isso é, antes de mais nada, signo de riqueza. Daí a ênfase em dizer que as cidades opulentas são a expressão de uma pobreza inacreditável, quase que absoluta. E, durante a epidemia, o retorno para casa encontra nos quilombos da região a casa, a comida e o cuidado que a riqueza da hospitalidade parece saber oferecer como ninguém mais.

Ontem, dia 15 de maio, finalmente voltei a realizar atividades no quilombo Lagoas. Os mais de 62 mil hectares são, cada vez mais e em um espaço cada vez maior, uma paisagem de acolhimento, conversa, troca e, sempre que possível, de exercício de honestidade. Isso implica dizer que nem tudo são flores, nem todos são amigos e que a seca, quando vem, arrasa tão forte quanto cala fundo. Mas não desta vez. Busquei a viatura oficial no campus da UNIVASF por volta das 9 horas da manhã. Segui para a BR-020, a Juscelino Kubitschek, em direção a Campo Alegre de Lurdes. Ainda não tinha decidido por onde eu passaria, qual entrada tomaria, tampouco qual o trajeto. A única decisão tomada dizia respeito a avisar os parceiros de que estaria no território durante todo o dia.

É possível viajar por horas dentro o quilombo e não fazer aquilo que se considera necessário. É, enfim, um sistema algo labiríntico de curvas da qual sequer os moradores da região conseguem escapar. A cada curva vem uma trama com feições de lugar com seus segredos em que a orientação é sempre um desafio à parte, especialmente na velocidade do motor que rompe com o tempo em que a desorientação ainda tinha nome: leivosia, aleivosia, depende de quem diz. É, por fim, aquilo que quando você vai ver, já não está lá, como nos ensinou o mestre Claudio Teófilo Marques em um dos encontros do Colegiado de Antropologia, o nosso Canteiro. De carro, não dá tempo nem pra isso.

Assim que cheguei nos Currais, uma das entradas para o perímetro urbano do município de Bonfim, resolvi pegar a primeira entrada à esquerda que me levaria para a comunidade do São Vítor, passando pela Lagoa dos Meninos. Decidi conversar com Andrélino, também conhecido com Pindoxa, que é uma antiga liderança sindical, um dos fundadores do PT de São Raimundo Nonato e, também, aquele que vem produzindo o maior acervo comunitário de material arqueológico da região. A lagoa do São Vítor, antiga casa-grande da fazenda que serviu de matriz do espaço territorial do quilombo Lagoas, é um espaço arqueológico já consolidado por pesquisas diversas. Andrélino é, ainda, aquele que detém a maior coleção retirada da região quilombola.

Chego em São Vítor, que é a comunidade mais urbanizada do quilombo. É, desde sempre, foco de muitas controvérsias com relação à titulação. São de lá os principais opositores à titulação, todos quilombolas, mas também os únicos empresários que alcançaram alguma afluência financeira. Sua trajetória econômica, no entanto, não recebe aprovação de nenhum de seus parceiros do passado, especialmente no que diz respeito ao atravessamento na venda de mel. Esta mesma comunidade também foi foco de uma discussão relativa à emancipação de São Vítor como município, o que foi devidamente vetado na constituição do território quilombola, o que impediu a aparição de mais um clã político-partidário que não consegue decolar no cenário inóspito de São Raimundo Nonato. E foi em São Vítor que a mineradora SRN conseguiu sua base de apoio, diminuta e mal informada, mas existente.

Chegando na casa de Pindôxa, Elisa, sua esposa, me disse que ele estava na roça na mesma hora em que me chamava para entrar. Recusei entrar, disse que eu sou vetor desse vírus que está rondano e agradeci a gentileza. Mas, como preza a etiqueta, as cadeiras foram dispostas do lado de fora, buscando sombras próximas, mas afastadas. Sentamos, ambos, mascarados. Elisa queria saber como eu estava, como estavam as coisas em São Raimundo. Eu não tinha muito o que dizer. Mas como estamos bem, comendo bem, cuidando de nossa casa, dizer que estávamos bem não seria nem mentira, nem exagero. Fiz a mesma pergunta. Queria saber como é que estava o tráfego de gente por lá. Aos meus olhos, a vila me pareceu menos movimentada do que eu jamais vira. Frequentei esta região inúmeras vezes durante os anos de 2016-2018. A ausência de atividade escolar é seguramente um diluidor de movimento.

Convém guardar a noção de movimento diluído.
Pindôxa estava na roça. Como todos, na verdade. A chuvas foram na ordem de mil milímetros no último inverno aqui na região do São Vítor. Quem tinha boas manivas e sementes, ganharam a plantação e, a depender do tamanho e organização da morada ao redor das barragens, estavam organizando plantio de várzea – como estão fazendo na comunidade do Calango. Parte do vazio das comunidades não tem nada a ver com a pandemia. Tem a ver com a vida das roças. E isso tem tudo a ver com a pandemia que não tem nada a ver. Porque estão todos vivendo a vida pela qual lutaram durante os anos da seca.
Todos? Não. Mas todos.

Perguntei para Elisa se o posto de saúde estava funcionando, no que me respondeu que sim. Foi nessa conversa que soube que o agente de saúde que eu conhecia havia falecido em um acidente de moto, razão pela qual estamos com lei seca implementada neste fim de semana. O Piauí tem índices alarmantes de mortes no trânsito desde sempre e, agora, esta é uma questão epidemiológica na medida em que os acidentes e as brigas de bar concorrem com SARS Cov-2 pela atenção da Atenção Primária e além. Nossa superlotação tem sempre antecedentes que não se comunicam com a pandemia. No entanto, no São Vítor, não receberam nenhuma orientação mais clara sobre como se portar durante a pandemia da parte da secretaria da saúde. Não haviam pôsteres e tampouco instruções afixadas nas ruas. O secretario de saúde Jussival aposta, como tantas outras formas de deslumbramento, no poder absoluto da comunicação por Instagram, a ponto de não existirem relatórios municipais publicados desde o começo da pandemia. Existem boletins, nunca relatórios.

Se, após a pandemia, viermos a discutir a recuperação dos serviços de saúde, poderei repetir a risada que dei com Cláudio em minha cabeça sem com isso não sentir nenhuma dor na consciência.

Finalmente, quis saber sobre a chegada de pessoas que tivessem vindo de outros estados, especialmente de regiões onde a pandemia vem desafiando as diversas formas de vida, criando atritos efetivos, produzindo toda essa massa fanática homicida, enfim, acirrando a disputa fascista por espaços de controle da população na busca de ampliar os poderes de vida e de morte. Matando gente por ingerência, em suma. Elisa falou tranquilamente sobre as pessoas que chegaram. Umas quatro famílias que, assim que aqui pisaram os pés, foram encaminhadas para suas próprias casas, ou para casas desocupadas, onde cumpriram quarentena. Ali recebiam alimento na porta de suas casas até que o tempo de resguardo passasse. Mais algumas pessoas chegaram depois e o procedimento não somente é aplicado, mas soou algo óbvio de se fazer. Foi aí que Eronildo chegou na conversa, de sola e sorridente, perguntando sobre as mineradoras e afirmando, na lata, de que agora as pessoas vão dar valor ao território quilombola.

Aqui é importante fazer um aparte. Peço que o leitor não veja na palavra quilombo alguma coisa essencial, um elemento prístino africano depurado de todo e qualquer mal colonial. Pessoalmente, se escrevesse com essa afinação, eu estaria promovendo um desrespeito à hospitalidade quilombola. As coisas que são descritas aqui como parte da vida quilombola é algo mais aterrado. Não é uma brincadeira jocosa ou uma busca de mostrar erudição insuspeita, coisa que faço muito, ainda que saiba fazer muito mal. O quilombo aqui é uma participação jurídica em algo que constitui a malha de povos da caatinga que tantas agendas de pesquisa, ainda que urgentes e justificáveis em seu próprio tempo, ajudaram esconder, seja na forma do sertanejo, do retirante ou o fanático religioso – aqui estou lembrando somente as heranças pastorais messiânicas em suas diversas encarnações. O quilombo é, então, um recomeço de algo que nunca teve fim e que tem, aí sim, suas raízes africanas e, dados os registros de kalundu na vila do Moxa, hoje Oeiras, ainda no século XVII, seguramente bantu. Pronto. Fiz de novo.
Eronildo parecia estar com isso na garganta: agora sim. A primeira vez em que conversamos, estávamos na Lagoa da Firmeza, na Primeira Semana Cultural do Quilombo Lagoas, organizado por minha amiga e parceira Nayane, historiadora e residente o Baixão Fundo, área de influência da Cova da Tia. Desde então, ele chega junto sempre com meu nome na ponta a língua, adornado com seu chapéu de palha de aba larga e um sorriso tranquilo de quem sempre sabe do que está falando. Bom e seguro. E foi assim que ele atestou que todos aqueles que foram pra São Paulo, Brasília ou para onde tivessem ido, viram que em momentos como esse, da pandemia, sua segurança está em casa, na terra que parece desaparecer durante a seca. Ao menos para os que tem no dinheiro a sua maior ansiedade, o que não é uma regra no território.

No São Vítor a quarentena se parece com algo muito distinto. Os filhos da terra, hoje quilombolas reconhecidos, ainda que não titulados, vão à roça, voltam para casa, conversam a uma distância tranquila e vêem que ninguém mais veio da cidade e pouco têm para fazer em São Raimundo. É lá onde tantas pessoas, como eu, estão restritas por muros, e os decretos municipais que parecem ter pouco valor ou mesmo aplicabilidade sanitária. Sabendo que as comunidades rurais não têm nenhuma prioridade para gestão alguma em lugar nenhum, tudo o que lhes resta é fazer o que sempre fazem. A rotina que começa varrendo o terreiro emulando em cada grão varrido um dos mitos de Obaluaê, no caso, o mito de seu acolhimento. O quilombo, do jeito que ele é, a forma como ele está e toda sua dinâmica constitutiva lhe informa que se existe um lugar onde é possível esperar, este lugar é lá. Nenhum dos apuros oriundos da pandemia lhes são um desconhecidos. A morte por ceifa, as agências bancárias promovendo aglomerações criminosas, patrões abusivos, racismo. A bem da verdade, não ir para cidade, não precisar ir para a cidade, é uma forma de diluir o movimento, que implica em atrito. Com isso tudo nas mãos, sabendo que ali, o território quilombola e a comunidade, é lugar para voltar, é o patrimônio conquistado, ou lugar para acolher e ser acolhido, onde há espaço e, a partir deste ano, há água, comida, e tempo verde. Não seria exagero dizer que, hoje, o quilombo Lagoas é um santuário sanitário – o que pode mudar a qualquer momento. E isso nos lembra que quilombo é também território de luta.