Entre cacos de vidro e portas fechadas

Reflexões sobre a pandemia a partir de um Centro de Atenção Psicossocial Álcool e Drogas em Campinas / SP

 

João Balieiro Bardy

Campinas, 9 de Março de 2021

 
Os Centros de Atenção Psicossocial Álcool e Drogas (CAPS AD) são serviços públicos que compõem a Rede de Atenção Psicossocial (RAPS), atentando o cuidado a usuários de drogas dentro de um modelo de atenção da reabilitação psicossocial e redução de danos. Inserido no Sistema Único de Saúde (SUS) estes espaços funcionam de portas abertas (I) e de forma comunitária.
A atuação da equipe se funda sob uma ótica interdisciplinar e consiste primordialmente em oferecer um cuidado territorializado, ou seja, que não se encerre nas limitações geográficas do serviço e vise o aumento da qualidade de vida de pessoas em uso abusivo de substâncias, legalizadas (como o álcool) ou ilícitas (como a cocaína e o crack).
Apesar de ser um serviço de saúde essencial e manter seu funcionamento durante o período da pandemia, os CAPS AD não possuem caráter ambulatorial. São serviços, frequentemente localizados em casas alugadas ou cedidas pelo município, que atuam com uma equipe interdisciplinar composta por psicólogos, agentes de saúde, enfermeiros, técnicos de enfermagem, terapeutas ocupacionais, médicos clínicos e psiquiatras, além de outros profissionais que não atuam na atividade fim da instituição, como profissionais de limpeza, seguranças e trabalhadores administrativos. Assim, por mais que seja necessário nesses serviços um espaço destinado à enfermaria e que haja profissionais que possam realizar um pronto atendimento em casos de urgência, os CAPS AD não possuem estrutura para dar conta de todas as demandas clínicas que chegam às suas portas, dependendo de serviços parceiros como Centros de Saúde (CS) para realizar o cuidado dos usuários.
Oscilando entre governamentalidade (FOUCAULT, 2008) e cuidado, os CAPS AD atuam na redução do uso de substâncias dos seus usuários ao mesmo tempo em que procuram realizar a gestão da vida cotidiana de pessoas que se encontram entre fronteiras de legalidade e ilegalidade, abjeção e pobreza extrema, saúde e violência, a rua e muros institucionais.
Durante o período de pandemia, as consequências do isolamento social provocaram não só um aumento do abuso de substâncias, (II) como também profundas alterações no funcionamento destes serviços de saúde. O número de usuários que podem ocupar o espaço do serviço foi restringido, as portas que antes estavam sempre abertas para qualquer um que desejasse acessar o serviço fecharam-se e as demandas que chegam às equipes desses serviços cresceram.
O relato que se segue é um esforço inicial de dar contorno aos impactos da pandemia no funcionamento de um serviço de saúde não hospitalar. Em meio a uma crise sanitária cujo precedente comparável mais recente foi há cerca de um século (III) e cujos impactos ainda não podem ser mensurados uma série de dificuldades, formulamos as seguintes questões: como dar sentido ao processo da pandemia? como articular a rede de saúde para lidar com efeitos colaterais da pandemia? como efetivar um cuidado em um momento de desorganização simbólica, social e na esfera da administração pública?
 
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Iniciei o campo de minha pesquisa de mestrado em um Centro de Atenção Psicossocial Álcool e Drogas em Campinas-SP no dia 11 de janeiro de 2021 e é a partir dessas impressões iniciais do campo que redijo o relato a seguir. Durante estas duas semanas cumpri em torno de 40 horas semanais de campo, além das horas dedicadas a redação do diário de campo o qual utilizarei de alguns trechos na produção das minhas reflexões.
 
O impacto no funcionamento do serviço
Tive oportunidade de conhecer este mesmo CAPS AD em outras oportunidades quando ainda era aluno da graduação em Ciências Sociais na Unicamp e realizava uma pesquisa de iniciação científica sobre o tema (BARDY; RUI. 2019). Mesmo sem ter realizado uma imersão de longo prazo nos serviços na ocasião, uma rápida visita em período anterior ao início da pandemia deixa claro que a dinâmica deste serviço mudou drasticamente.
O primeiro sinal da mudança é perceptível já do lado de fora do CAPS AD. Atuando sob a premissa das portas abertas, o serviço era muito movimentado em minhas primeiras visitas, acolhendo sempre qualquer um que chegasse a suas portas. Contudo, por conta das medidas restritivas e dos protocolos pandêmicos, os sujeitos que antes ocupavam o espaço, ocupam agora as calçadas do lado de fora.
Todas as manhãs, quando chego ao serviço encontro entre 4 e 7 figuras que estão sempre ali. São usuários do serviço em situação de rua e que preferem não se distanciar muito por ser este um de seus poucos espaços de refúgio e cuidado. Quando chego à porta, alguns já estão acordados, ou não dormiram, e outros são perceptíveis apenas pelo volume que formam-se nos cobertores que enrolam seus corpos. Malas, corotes vazios, cacos de vidro e tubos de metal utilizados para consumir o crack compõem a imagem da calçada.
A entrada dos usuários é impedida pelos limites que se impõem na tentativa de evitar aglomerações no interior da casa. Mesmo assim, durante o dia estou sempre enchendo garrafas d’água e indo até o portão para conversar ou tentar resolver questões com eles.
Essa pequena amontoação de corpos que se dá na calçada do serviço tem causado uma série de desavenças com seus vizinhos imediatos, processo ao qual os profissionais são constantemente arrastados na tentativa de resolução dos conflitos entre os usuários e as viscinalidades. Um exemplo do qual tive notícia poucas semanas antes de minha entrada no campo me foi narrado pela gestora do serviço, Carla (IV) (terapeuta ocupacional):
 
[Carla] Me relatou inclusive que, por conta da pandemia, diversos moradores de rua migraram para mais perto do serviço e estavam acampando as portas do Antônio Orlando, o que gerava incômodo por parte de alguns moradores e comerciantes locais. Me disse também que um sujeito ligado à milícia e que é proprietário de um bar próximo ao local ateou fogo em um colchão na semana anterior a nossa conversa. (Diário de campo, 14/12/2020)
Para além disso, muito do funcionamento do serviço também mudou, em especial a articulação com outros serviços de saúde. Um dos processos fundamentais para efetivar um cuidado em rede (V) é a prática de matriciamento (FARIA et. Al. 2020). O matriciamento é uma prática que efetiva a relação entre os CAPS AD e a Atenção Básica de saúde, sendo fundamental no cuidado efetivo dos usuários, este que depende em grande medida de dois aspectos fundamentais: 1) o desejo por parte do usuário de interromper ou diminuir o uso; 2) a consolidação de um vínculo efetivo dos profissionais – tanto nos CAPS quanto na Atenção Básica – com os usuários. O apoio matricial consolida-se como importante fator especialmente no segundo aspecto.
A prática de apoio matricial faz com que profissionais da rede estreitem vínculos e, especialmente, fortalece o combate à “contrafissura”, conceito definido por Lancetti (2015) como um sintoma social que alimenta o desejo de ter aspectos relacionados ao uso de álcool e drogas resolvido de maneira simples e rápida. Isso é advindo, em grande medida, pela combinação de dois fatores: 1) o fracasso da guerra às drogas decorrente da política proibicionista, por um lado, e 2) de sua glamourização midiática, por outro. Nesse sentido, é através da relação matricial que profissionais que não atuam diretamente na clínica de álcool e outras drogas podem esmiuçar os casos clínicos, compreender as particularidades subjetivas de cada sujeito e atuar na reabilitação psicossocial dos usuários de drogas. Por mais que seja responsabilidade dos CAPS AD realizar o cuidado e a reabilitação psicossocial dos usuários, não raras vezes são eles a assumir responsabilidades clínicas dos CS. Isso se dá, em grande medida, porque os usuários deixam de acessar à Atenção Básica devido a discriminações que sofreram nos CS em experiências passadas.
Infelizmente, este trabalho de matriciamento sofreu um forte impacto durante a pandemia por conta das medidas de isolamento social. Marcão (enfermeiro) (VI) me explicou em conversa que a prática é fundamental para que o CAPS AD se articule com os 14 CS que atuam na região noroeste de Campinas. “Antes da pandemia, Marcão me disse que essas reuniões aconteciam quinzenalmente, mas com a pandemia não está tendo mais. ‘A, é ruim né?’” (Diário de Campo, 13/01/2021).
Essa interrupção abrupta de diálogo somada à preocupação primeira com a pandemia fez com que o CAPS AD acabasse sobrecarregado com demandas clínicas para as quais possuem pouco ou nenhum recurso para atender. Para além dos casos com suspeita de Covid-19 ou casos positivados que chegam à porta do serviço, não raras vezes encaminhados pelos CS da região, há também outros casos de doenças crônicas e agudas para os quais os CS recusam atendimento por conta de sua sobreposição com um quadro de uso abusivo de substâncias.
Durante meu período de atuação, houve uma alta de casos de tuberculose entre usuários que acessam um CS ligado ao CAPS AD. No total foram 7 e, quando um dos enfermeiros ligou para a ANVISA para conseguir orientações, descobriu que nenhum dos casos havia sido notificado pelo CS em questão. Quando descobriu essa subnotificação ficou indignado e me explicou em conversa:
 
“Eles (CS) encaminham estes casos para serem tratados no CAPS sendo que aqui não temos os equipamentos necessários para o cuidado adequado. Não tem como realizarem uma contagem de bacilos por exemplo!” Em conversa posterior me disse suspeitar de que os CS “entendem que estes casos não tem jeito, eles abandonam as pessoas pra não terem que lidar com a situação”. (Diário de Campo, 13/01/2021)
 
Combinando o desgaste por parte dos profissionais que encontram-se sobrecarregados com demandas clínicas, uma estrutura fragilizada e as tensões territoriais decorrentes do fechamento dos portões do serviço, a dinâmica no CAPS AD alterou-se profundamente durante o período de pandemia. Entre estes processos, a vida dos usuários que circulavam no serviço e tinham ali uma importante rede de cuidados também foi profundamente afetada.
 
O impacto na vida dos usuários
Na ausência de medicamentos e de uma vacina, a única medida profilática contra a Covid-19 foi o distanciamento social, o uso de máscaras e os hábitos de higiene, sendo o mais difundido o ato de lavar as mãos. Em meio a uma gestão pública e sanitária desastrosa que se recusou a reconhecer o real contexto da pandemia, diversos setores da sociedade se mobilizaram através do slogan “use máscara, fique em casa”. Ambas medidas foram inviáveis para população em circulação de rua, categoria que define parte substantiva dos usuários do serviço.
Para além dos impactos diretos da pandemia sobre esta população, as consequências do isolamento social foram devastadoras para a organização psíquica desses sujeitos.
Em meados de maio de 2020, realizei uma entrevista com um grande amigo de militância e profissional em um CAPS AD de Campinas sobre o funcionamento do serviço em tempos de pandemia.(VII) Na ocasião, Ed Carlos me relatou como o profundo impacto da pandemia para pessoas em situação de rua. Na ausência de informação, de uma hora para outra, o mundo mudou e não se sabia por que:
 
“Acho que é importante dizer que no começo os usuários sentiram muito essa mudança. Principalmente as pessoas que ficam em situação de rua, quando a gente ia conversar com eles de máscara eles se sentiam… excluídos de alguma forma, né? Porque eu imagino que eles estavam sentido todas as pessoas evitando mais eles do que o normal por conta do corona. Então menos pessoas abrindo o vidro do carro quando eles pediam alguma coisa, menos pessoas parando pra conversar com eles, as pessoas tentando manter mais distância, e eles na rua com pouco acesso à informação demoraram pra entender o que estava acontecendo.” (SAÚDE MENTAL, 2020).
 
Um dos efeitos mais graves do isolamento social para os usuários do CAPS AD que pude observar é a desorganização psíquica decorrente da ausência de mecanismos de simbolização necessários para dar contorno narrativo as situações que se sucedem. Essa desorganização em muitos casos se traduz em desorientação em tempo e espaço quando combinados com uso intenso de substâncias psicoativas (SPAs), e, apesar de ser este um sintoma que pode decorrer exclusivamente do uso abusivo de álcool e SPAs, a avaliação dos profissionais que acompanho frequentemente aponta esta desorganização como um sintoma que está agudizado no período de pandemia. Cito o caso de uma Visita Residencial (VR) (VIII) que realizei acompanhado de uma psicóloga e uma enfermeira da equipe à casa de dona Maria (IX), usuária de álcool com complicações hepáticas combinadas com um diagnóstico de Hepatite C.
 
“Há muito não se ouvia dela e novamente fomos até os confins do território para encontrar uma casa que foi dividida em 3 residências individuais que se localizavam em uma rua sem asfalto e com esgoto a céu aberto.
Entramos na casa de Maria e logo percebemos o forte cheiro de gás que impregnava o ambiente. Nos sentamos em sua sala e Carla (X) (psicóloga) puxou a conversa. Perguntou por que Maria não havia ido ao CAPS no dia planejado e perguntou de um calendário que haviam elaborado juntas há algum tempo onde a consulta estava marcada. Neste processo percebemos uma intensa desorganização da usuária, ela não conseguia nos dizer o dia do mês em que estávamos e mesmo com auxílio do calendário os dias se misturavam, quarta que vinha depois de domingo, dia 21 que se confundia com o dia 12… Maria parecia nem mesmo conseguir contar os dias do mês, não só pela falta de recursos que lhe permitissem simbolizar os numerais, mas também por uma intensa desorganização psíquica… o 0 parecia ser uma dificuldade, travando sempre no 19 e no 29 do mês.” (Diário de campo, 18 de janeiro de 2021).
 
Experiências como estas me revelaram como as questões crônicas ou agudas, singulares ou estruturais, foram esgarçadas duramente pela pandemia. Tanto o acesso a serviços de saúde quanto as formas de sociabilidades distintas daquelas que se formam através do uso, compartilhado ou não, de SPAs, foram francamente dificultadas.
 
Desemaranhando alguns fios
É difícil desenhar qualquer tipo de conclusão sobre as situações brevemente descritas para além das evidências materiais que se apresentam no cotidiano do serviço. O projeto de cuidado dos CAPS AD que depende de um acompanhamento psicossocial de longo prazo, de vínculos afetivos entre usuários, profissionais da saúde mental e outros serviços do SUS foi profundamente fragilizado pela pandemia. Agora que atingimos o pior momento da pandemia de SARS-COV-2 no Brasil, o funcionamento do serviço volta a se enrijecer.
A parca tentativa de retomada do funcionamento do serviço é mais uma vez interrompida, podendo ofertar para os usuários apenas leitos noturnos para casos de crise. O cuidado a comorbidades subjacentes ao uso abusivo de substâncias torna-se cada vez mais difícil de efetivar-se na medida em que os hospitais públicos são sufocados por casos de síndromes respiratórias graves. Os múltiplos caminhos burocráticos que os sujeitos percorrem na tentativa de obter documentos necessários para o acesso de algum benefício financeiro para se estabilizarem no contexto de crise econômica se fecham.
Entre cacos de vidro e portas fechadas os corpos que habitam o serviço, produtos de processos de abjeção, lutam para se sustentarem sobre os instáveis fios da vida em meio a um projeto de governo cujo lema é matar e deixar morrer.
 
 
Referências Bibliográficas
Faria, P. F. O., Ferigato, S. H., & Lussi, I. A. O. (2020). O apoio matricial na rede de atenção às pessoas com necessidades decorrentes do uso de álcool e outras drogas. Cadernos Brasileiros de Terapia Ocupacional. 28(3), 931-949. https://doi.org/10.4322/2526-8910.ctoAO1987
Foucault, Michel. Nascimento da biopolítica: curso dado no Collège de France (1978-1979). Martins Fontes, 2008.
Lancetti, A. (2015). Contrafissura e plasticidade psíquica. São Paulo: Hucitec.
 
Fontes da Imprensa
COLLUCI, Cláudia; FRANCO, Marcella. “Abuso de álcool e drogas tem alta na pandemia”. Folha de São Paulo, 24 de Maio de 2020. Disponível em <https://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2020/05/abuso-de-alcool-e-drogas-tem-alta-na-pandemia.shtml>. Último acesso 20/01/2021.
Saúde Mental. Locução de: TONIOL, R.; DE FARIA, E. C.; BARDY, J. Cientistas Sociais e o Coronavírus, 23 de julho de 2020. Podcast. Disponível em: https://anchor.fm/cienciassociaisecorona/episodes/Cincias-Sociais-e-Coronavirus—Sade-mental-eh503v. Acesso em: 27/01/2020.
(I) Categoria êmica
(II) Cf. “Abuso de álcool e drogas tem alta na pandemia”. Disponível em . Último acesso 20/01/2021.
(III) Refiro-me aqui à pandemia de gripe Espanhola que assolou o mundo entre os anos de 1918 e 1920.
(IV) Nome fictício
(V) Categoria êmica
(VI) Nome fictício
(VII) A entrevista completa foi publicada em formato de podcast pela iniciativa da ANPOCS “Cientistas sociais e o coronavírus” sob o título Saúde Mental e pode ser conferido na íntegra no link
(VIII) Visitas Residências são ações dos profissionais nos territórios. Para aqueles sujeitos com impeditivos de locomoção, sejam eles pela falta de dinheiro para pagar o transporte ou por dificuldades motoras, a equipe realiza uma visita residencial para realizar o cuidado onde o sujeito costumeiramente fica. No caso de moradores de rua há alguns pontos onde eles normalmente ficam, mas muitas vezes as visitas não são bem sucedidas por acontecerem sem a possibilidade de comunicação da equipe com os usuários do serviço.
(IX) Nome fictício
(X) Nome fictício