Magufuli Baba Lao: O morgadio político tanzaniano e o enfrentamento à pandemia de covid-19

Felipe Bastos

Campinas, 02 de Março de 2021

Estabelecimentos comerciais na Tanzânia, de pequenas lojas a hotéis, são obrigados a deixar pendurados dois quadros em local alto e visível: um com a figura do primeiro presidente do país, o Professor [Mwalimu] Julius Nyerere, acompanhado da legenda Baba wa Taifa, “Pai da Nação” em suaíli; e imediatamente ao seu lado e do mesmo tamanho, um retrato do atual presidente, o “Honorável Doutor” [Mheshimiwa Daktari] John Pombe Joseph Magufuli. A disposição dos dois retratos evidencia visualmente a linhagem política responsável por conduzir os rumos do país desde sua independência em 1961. Ainda que o partido de todos os presidentes da República Unida da Tanzânia tenha guinado radicalmente desde a saída de Nyerere do poder, a quase onipresença destes retratos pelo país busca indicar que os varões que sucederam ao Baba wa Taifa se identificam com seu legado, detêm-no, e crucialmente, exigem-lhe obediência.
A permeabilidade da política tanzaniana no período pós-colonial ao vocabulário que expressa tipicamente relações de parentesco remonta a pelo menos a década de 1960, quando foi lançado o projeto de desenvolvimento socialista de Ujamaa – termo traduzido ao inglês pelo próprio Nyerere como “familyhood”, um substantivo sem tradução usual ao português.(I) Para o projeto de Ujamaa resultar na desejada modernização da economia e sociedade tanzanianas, estipulou-se uma retomada do igualitarismo das “sociedades tradicionais” africanas que povoavam o interior do país, bem como das relações de mutualidade que regiam o funcionamento das famílias estendidas antes do advento do colonialismo europeu. O processo de apropriação do idioma do parentesco para designar o ordenamento sociopolítico do país se deu firmemente sob a autoridade do partido de Nyerere, instituído enquanto partido-único em 1965 até a redemocratização instaurada a partir de 1992.
Uma iteração mais recente (e criativa) deste morgadio político tanzaniano encontra-se na música Baba Lao, lançada em 2019 por uma das maiores celebridades musicais do continente africano, o artista tanzaniano Diamond Platnumz. A música – que foi cantada em comícios nas eleições de 2020 que sagraram o segundo mandato do presidente Magufuli e virtualmente varreram a oposição do parlamento sob acusações de fraude eleitoral – foi remixada para fazer referência explícita à figura de Magufuli e outros membros de seu gabinete por meio da expressão baba lao – literalmente, “pai deles”, em suaíli. Nesse caso, o sentido da palavra baba desliza do campo semântico do significado de baba como “pai” para denotar “patrão” ou “mandachuva”, e reafirma a centralidade de Magufuli e do alto-escalão de seu partido no comando do país.
A correlação entre identidades políticas de caráter nacional com uma figura paterna mitificada não é de forma alguma uma exclusividade da Tanzânia pós-colonial. Um exemplo histórico eloquente se encontra na imagem de Mustafa Kemal, conhecido por Atatürk – literalmente “pai dos turcos”.(II) A questão aqui é que a transposição da metáfora referente ao primado da autoridade paterna sobre a família para o domínio da política estatal não se relaciona bem com a pluralidade inerente à sociedade civil, uma vez que metáforas de parentesco como o “pai da nação” naturalizam o exercício do poder e, além disso, veicula uma perigosa naturalização do autoritarismo.
Neste esteio, não é surpreendente que os avassaladores desafios de saúde pública trazidos pela pandemia tenham sido enfrentados por Magufuli com bravata.(III) Após um breve ensaio de fechamento de escolas, universidades e suspensão de eventos esportivos entre março e maio de 2020, Magufuli, o “mandachuva”, se despontou no combate à pandemia ao caracterizá-la como um fenômeno exclusivamente alheio à Tanzânia, e declarou tê-la vencido rapidamente sem ter que submeter o país a testes laboratoriais, lockdowns e as demais medidas sanitárias tomadas ao redor do mundo. Em lugar dessas medidas, Magufuli prescreveu a devoção religiosa enquanto seu ministério da saúde prescrevia o uso de beberagens e remédios “tradicionais”.(IV) Até mesmo as vacinas foram vilipendiadas por Magufuli. Como um pai que sabe o que é melhor para seus filhos, a vacina contra a Covid-19 foi recusada enquanto uma invenção ocidental sem comprovações nem de sua eficácia, nem da boa-fé daqueles que a fabricam e distribuem.(V)
O uso de máscaras também foi politizado. Na capital comercial do país, Dar es Salaam, é possível utilizá-las sem grandes sobressaltos nas regiões conhecidas informalmente por Uzunguni – literalmente “gringolândia” em suaíli – que correspondem aos bairros afluentes da cidade onde se concentram as moradias de estrangeiros brancos e os lugares que geralmente frequentam. Fora dessas zonas e sobretudo no interior do país, há relatos de pessoas assediadas por utilizarem máscaras em público e a céu aberto.
A situação, contudo, foi fortemente abalada com a morte do primeiro vice-presidente da Tanzânia em Zanzibar, Seif Sharif Hamad, em 17 de fevereiro de 2021, dias após ter sido o único político de alto-escalão do governo a ter divulgado publicamente seu diagnóstico positivo para Covid-19. Embora a causa mortis de Hamad não tenha sido oficialmente divulgada, seu falecimento somou-se à boataria criada com o adoecimento e/ou falecimento repentino de diversas figuras politicamente influentes do país na última semana,(VI) e forçou o governo da Tanzânia a rever seu posicionamento para admitir, ainda que relutantemente, que a pandemia ainda não acabou.(VII) A postura oficial do governo em fevereiro de 2021 permanece firme de que não há previsão para a aquisição de quaisquer vacinas, mas resta saber como o avanço da Covid-19 continuará a ser enfrentado pelos varões do partido, e quais tipos de desafios ainda serão apresentados à linhagem política que comanda o governo da Tanzânia pós-colonial.

(I) Vide a obra de Julius Nyerere Ujamaa: Essays on Socialism. Dar es Salaam: Oxford University Press, 1968.
(II) O raciocínio apresentado aqui foi instigado pela análise crítica de Carol Delaney acerca da operacionalização do idioma do parentesco com finalidades políticas na Turquia moderna. Vide: “Father State, Motherland and the Birth of Modern Turkey”, In: YANAGISAKO, Sylvia; DELANEY, Carol. Naturalizing Power: essays in feminist cultural analysis. Londres: Routledge, 2005, pp. 177 – 199.
(III) https://www.bbc.com/news/world-africa-54603689. Acesso em 24/02/2021.
(IV) https://www.thecitizen.co.tz/tanzania/news/-forget-about-covid-19-vaccines-says-minister-3277666. Acesso em 24/02/2021.
(V) https://www.bbc.com/news/world-africa-55900680; https://www.thecitizen.co.tz/tanzania/news/what-next-for-tanzania-after-president-magufuli-cautions-against-covid-19-vaccine–3271766. Acesso em 24/02/2021.
(VI) Vide: https://www.thecitizen.co.tz/tanzania/news/-death-robs-tanzania-of-10-prominent-citizens-3301076. Acesso em 24/02/2021.
(VII) https://www.thecitizen.co.tz/tanzania/news/tanzania-government-in-new-strategy-to-contain-covid-19-3300120; https://www.thecitizen.co.tz/tanzania/news/tanzania-s-ministry-of-health-now-urges-precaution-against-covid-19-3299084. Acesso em 24/02/2021.