Enguany, paciència: a pandemia e o mundo casteller em Tarragona

Laís Silva Braga

Campinas, 2 de novembro de 2020

Os castells, pirâmides humanas tradicionais da Catalunha, são, em sua essência, a aglomeração social no sentido mais literal da palavra. O distanciamento social recomendado pelos órgãos de saúde tornou inviáveis as apresentações de castells em 2020. Enquanto outras práticas culturais voltaram à ativa nos últimos meses, como o futebol por exemplo, o cenário da volta dos castells se mostra um pouco mais complexo. 

A construção da base e estrutura dos castells não é a única aglomeração envolvida nessa expressão cultural; o público, que lota uma praça no centro da cidade de Tarragona em pleno sol do meio-dia para prestigiar as apresentações, também é parte importante desse universo (ver imagem 1). Os apaixonados por castells permanecem mais de 4 horas em pé, no meio da multidão, para acompanhar as conquistas das equipes de sua cidade. Esse ano não tiveram a oportunidade de prestigiar nenhuma Diada Castellera ao vivo, apenas relembraram atuações de outros anos.

Agora, as lives e redes sociais são as ferramentas principais para viver, à distância, os castells. Desde março uma das principais plataformas de streaming de castells organizou diversas conversas online com os representantes de diversas equipes da Catalunha sobre como estavam lidando com a quarentena. Naquele período ainda se falava com bastante otimismo que as atividades voltariam a sua normalidade no segundo semestre. Um dos principais assuntos dessas transmissões era o Concurso de Castells, evento bienal previsto para outubro desse ano e uma das apresentações mais importantes do calendário casteller. As equipes se preparam e ensaiam o ano inteiro para levar à praça o melhor desempenho possível.  

Fiz uma breve aproximação etnográfica on-line deste mundo casteller entre os dias 23 e 24 de setembro, dia de Santa Tecla, a padroeira da cidade de Tarragona, um dos principais polos de castells da Catalunha. Trata-se de uma data central do mundo casteller, muito representativa e emblemática. Nestes dois dias acompanhei o perfil no Instagram de uma das equipes, a Colla Jove Xiquets de Tarragona (https://www.instagram.com/collajovetarragona/) e alguns perfis pessoais de outros castellers de diferentes equipes. Em ambos os casos as redes sociais foram preenchidas da hashtag #tbt (“throwback Thursday”, hashtag utilizada pelos usuários do Instagram para publicar fotos antigas e expressar sua nostalgia), com fotos e vídeos de apresentações de Santa Tecla dos anos anteriores. (ver imagem 2)

Para tentar suprir a falta dos castells nesse feriado municipal importantíssimo, a prefeitura colocou algumas fotos e cartazes na praça da prefeitura, local onde seria realizada uma das apresentações mais importantes de Tarragona (ver imagem 3). Além disso, as equipes da cidade também divulgaram produções audiovisuais relembrando suas histórias e a saudade que sentem dos castells, das praças lotadas, da adrenalina e toda a emoção desse universo. Especificamente nas postagens da Colla Jove de Tarragona havia um padrão nas legendas das fotos: “Enguany, paciència. Santa Tecla pot esperar!” (Tradução: Este ano, paciência. Santa Tecla pode esperar!). 

(Vídeo especial para Santa Tecla https://www.youtube.com/watch?v=Exzr-5u3EdQ; vídeo especial para o Concurso https://www.youtube.com/watch?v=QIaCq8Ud294

No dia 23 de setembro, dia da padroeira da cidade, a prefeitura de Tarragona posicionou 4 estandes com fotografias de castells de cada uma das equipes da cidade. No dia seguinte, o feriado de La Mercè, festa católica da Nossa Senhora da Misericórdia, a prefeitura também fez uma exposição simbólica. O dia de 24 de setembro também é famoso em Tarragona, é a celebração do pilar caminant  (https://www.youtube.com/watch?v=FE7p2ij_Gfg), uma estrutura de 4 andares que tem inicio diante da Catedral da cidade e caminha por 410 metros até chegar à prefeitura. Esse ano o pilar caminant não passou despercebido: ao longo desse trajeto, colocaram adesivos no chão das ruas de Tarragona com as cores das camisas das 4 equipes da cidade, simulando o trajeto que seria percorrido pela estrutura castellera num dia normal de festividade. (ver imagem 4) 

Apesar da pausa nos castells em 2020, não houve esquecimento. Eles são relembrados com saudade todos os dias de diversas formas. Seja nas redes sociais, em instalações simbólicas pela cidade ou até mesmo reassistindo às transmissões de apresentações passadas. Não é a primeira vez na história que os castells passam por essa pausa involuntária. As sensações obviamente não são as mesmas que aquelas que marcaram a Ditadura Franquista, quando em determinados períodos os castells foram proibidos; no entanto, a vontade e energia para voltar às atividades castelleras é a mesma.

Imagem 1

Imagem 2

Imagem 3

Imagem 4