Beating the Pandemic

Victor Hugo Cossa da Silva

Campinas, 1 de Novembro de 2020

Há algum tempo venho tentando escrever esse artigo, os temas que buscava haviam se silenciado durante a quarentena, Rilès e Younès, os artistas que movem minha pesquisa, permaneciam isolados em seus estúdios. A produção de ambos não parou, suas músicas não sofreram alterações, seu rap não rimava sobre o Covid, então me vi perdido sem saber por onde procurar. O que achar para falar sobre a cena do rap franco-argelino durante a pandemia? 

 Logo passei para uma busca no cenário nacional, foram algumas tentativas mas nada me parecia certo, alguma espécie de bloqueio na escrita me vencia em toda tentativa, os temas pareciam não se encaixar ou não pareciam ser suficiente para desenvolver um artigo. Então busquei ler os artigos e publicações de outros colegas no observatório, em uma tentativa de buscar algum tipo de inspiração ou modelo para essa tarefa que permanecia turva na minha cabeça.

Talvez essa fosse uma das consequências do confinamento e os desenrolares da minha própria quarentena, cobrando seu preço na minha produtividade. Mas ao ler os artigos de minha co-orientadora Jaqueline Santos, acho que uma pequena faísca iniciou um novo processo para pensar o tema deste artigo. Algo mais pessoal mas ainda conectado com minha temática de pesquisa da cultura Hiphop, pois de fato a música era algo que ainda era recorrente nesse isolamento, fosse para o bem ou mal a música sempre estava presente.

Mais importante que isso, eu vinha prestigiando a música de um amigo próximo, que havia buscado preencher sua quarentena praticando algo que já perseguia previamente. A produção de Beats, fosse no ritmo do Hiphop ou Tecno,  meu amigo Gabriel Piuselli passou a maior parte da quarentena se ocupando em aprender e aprimorar sua música. E aquilo que antes me parecia somente uma ocupação de seu tempo na quarentena foi se tornando algo cada vez mais presente em nossas chamadas virtuais, passando madrugadas produzindo beats de temáticas diferentes.

A produção musical já havia passado pela vida de Gabriel desde meados de 2014, retornando com força total na metade de 2019 em diante, se tornando uma  prática constante durante a quarentena. No isolamento,e Gabriel Piuselli tem se alternado entre trabalho, disciplinas da universidade e seu software de produção musical. Mesmo que ele não esteja necessariamente criando algo, o software permanece aberto. Dessa forma, Gabriel permanece ocupado com sua música, seja buscando novos plugins para serem usados em suas próximas músicas ou tutoriais para aprimorar sua produção.

Esse hobbie se torna coletivo quando estamos em conferência e trocamos ideias entre amigos, buscando diferentes referências e acompanhando, de perto, a construção de uma nova batida. As produções realizadas por Gabriel são feitas em cinco horas ou até dias, conectando nossa atenção com a sua criatividade para focarmos nossas mentes em algo que não as más notícias e a melancolia da pandemia.

Assim segue a nossa pandemia. Quando terminados, os Beats são colocados online e dessa forma podemos ouvir a música criada entre nós, prolongando o alívio proporcionado por ela mesmo longe das conferências. Já foi cogitada uma produção completa entre nós, realizando rimas em cima das batidas, mas talvez seja algo para depois da pandemia, quando pudermos nos reunir e, então, produzir essa música unidos.

 Essa espécie de hobbie coletivo tem sido, de certa forma, enriquecedora. Pude aprender mais diretamente sobre os diversos tipos de batidas por trás da cultura Hiphop e, sobretudo, um tipo clássico de Beat utilizado pelos rappers da costa oeste dos Estados Unidos (West Coast Style) e as batidas do atual Trap Rap. Mesmo que anteriormente eu possuísse uma concepção mais leiga sobre esses diferentes tipos de Beat, ao assistir e participar de sua produção, apreendi alguns pontos técnicos sobre sua produção musical.

 O Beat em que tive maior participação junto a Gabriel foi seu “Bahia West Coast”, onde buscamos influências clássicas dos rappers e beats californianos como Snoop Dogg, 2pac e Ice Cube. Foi impressionante encontrar uma atividade onde era possível relacionar aquilo que crescemos ouvindo, junto a uma atividade animadora e pontualmente relacionada às leituras e reflexões que tenho feito sobre este universo que me fascina: o Hiphop. 

Links para os beats:

https://soundcloud.com/gabriel-piuselli/bahia-west-cost

https://soundcloud.com/gabriel-piuselli/mein-herz-brennt