CATOLICISMOS LATINOAMERICANOS EM TEMPOS DE PANDEMIA

Brenda Carranza
Campinas, 2 de Setembro de 2020

Na sexta-feira 28 de março de 2020 o Papa Francisco realiza uma oração de Indulgência Plenária. Ambientada na praça São Pedro, completamente vazia, num fim de tarde chuvoso o Papa orienta o espírito que a Igreja católica deverá assumir perante a pandemia de Covid-19. Numa belíssima celebração extraordinária, de estética impecável com cantos gregorianos, nuances na captação cinematográfica da luz, o som dos sinos, as pausas silenciosas da liturgia, tudo contribui para uma comovedora atmosfera de solenidade. A transmissão, em formato digital streaming, nos transporta ao Vaticano, onde ficamos ao do lado do Papa, escutamos sua palavra de incentivo a vivenciar a quarentena como uma oportunidade de fortalecer a fé, misericórdia, compaixão e compromisso com a vida.

Nos aproximamos com o Papa a duas imagens antiquíssimas: uma, o Crucifixo de São Marcelo, lembrança da epidemia que atingiu Roma em 1522, e, a outra, o ícone da Virgem Maria, trazido na época de Constantino (272-337 d.c). Conta a lenda que o crucifixo percorreu as ruas da cidade e seus devotos pediam para ele que a peste cessasse. Já os relatos populares rezam que a imagem da Virgem era invocada popularmente em tempos de desgraças e calamidades. Continuemos ao lado do Papa. Entramos com Francisco na majestosa Basílica, onde os presentes e telespectadores recebemos a bênção eucarística do Santíssimo Sacramento Urbi et Orbi. Silêncio e incenso elevam as preces do Papa pelas vítimas da Covid-19 e abençoa os fiéis católicos de todo o mundo. Você pode retomar essa cerimônia e se transportar no tempo e espaço com apenas um click (https://www.youtube.com/watch?v=tsdrpi8AkJs). Perceba como a tecnologia, tradição e invocação do passado se fundem numa sucessão de cenas que alinhavam a centralidade ritual e hierárquica do catolicismo universal.

Fonte: Vaticannews urbietorbi, março de 2020.

Ainda na Itália, treze dias antes da Urbi et Orbi, um sacerdote percorreu as ruas de Roma, carregando o Santíssimo Sacramento, abençoando moradores nas portas de suas casas e fiéis que paravam nas esquinas e nos comércios na expectativa do gesto sacerdotal (https://www.youtube.com/watch?v=vGlXnrtyhmE). A saída do Santíssimo Sacramento (hóstia consagrada que no catolicismo deve ficar preservada num lugar específico nas igrejas, denominado de sacrário) representa uma inversão extraordinária, pois é o sagrado que sai na busca do fiel e não o contrário, quando o fiel é quem busca no templo o sacrário para venerar o sagrado.

Deste lado do Atlântico, para respeitar o distanciamento social como medida de prevenção do novo coronavírus, outro sacerdote norte-americano oferece o sacramento da confissão estilo drive-thru, onde o confessionário será substituído pelo conforto do carro e o padre a um metro de distância escuta seus pecados (https://www.youtube.com/watch?v=TsonOwgU2Dg). De forma criativa, o padre inova a performance ritual do sacramento, corresponde as exigências de distanciamento dos fiéis e preserva o sigilo do ritual do sacramento em tempos de pandemia. Presenciamos as práticas do catolicismo tradicional na trilha da flexibilização.

Descendo para o México, o Arcebispo da província de Durango sobrevoa num helicóptero governamental a cidade. O clérigo reza e abençoa a cidade, num gesto de outorga divina de proteção: novamente, o Santíssimo Sacramento sai do seu recinto sacro e se aproxima aos cidadãos, desta vez fazendo o percurso pelo ar (https://www.youtube.com/watch?v=M8mIxN9ZQEY). No mesmo México, outro arcebispo, da província de Toluca, também sobrevoa a cidade e, além de portar o Santíssimo Sacramento, transporta uma imagem da Virgem Maria e uma relíquia do papa santo João Paulo II (https://www.youtube.com/watch?v=1Jbr_02qUbE). O mesmo gesto foi realizado por um sacerdote da Costa Rica que, num jatinho da força pública de segurança, percorreu grande parte do território nacional abençoando-o com Nossa Senhora de los Angeles. Isso, segundo ele para: “fortalecer as práticas sanitárias propostas pelo ministério de saúde e a fé dos católicos” (https://www.youtube.com/watch?v=iucWClFih6A). No mesmo gesto, em Guayaquil (Equador), a Virgem de Schoenstatt se aproximou “desde o céu” a todos os hospitais para visitar os doentes e receberem o conforto espiritual (https://www.youtube.com/watch?v=lYFTIS2R5AU). Já em Cochabamba (Bolívia), um sacerdote portou Táta Santiago, santo patrono da força aérea boliviana, e abençoou a cidade com água benta ( https://www.youtube.com/watch?v=3Qy2Gayptgw).
Virgens, santos, relíquias são amplamente mobilizadas ritualmente para que cidades, doentes, fiéis obtenham suas graças e algum significado aos sofrimentos trazido pela pandemia. Ao mesmo tempo, o próprio gesto ritual contém um duplo registro: de um lado, temos a aproximação dos portadores do sagrado (hierarquia) a seus fiéis, marcando sua presença institucional; de outro, confirmam a legitimidade das medidas sanitárias, sejam essas adotadas pelos governos e/ou sugeridas pela Organização Mundial da Saúde, num amalgama de interdependência e apoio mútuo entre religião e Estado/Organismos Internacionais.

Mas, se o sagrado vai ao encontro dos fiéis porque impedidos de ir até ele, também é verdade que clérigos e agentes de pastoral encontram a maneira de fazer chegar os fiéis ao templo. Como consequência da proibição de aglomerações, no Brasil, como em todos os países latino-americanos, os bancos das igrejas ficaram vazios e as portas foram fechadas. Porém, as igrejas católicas inovaram a maneira de fazer presente sua comunidade paroquial dentro dos templos. Um padre cantor, por exemplo, colocou milhares de fotografias de seus paroquianos nos bancos da igreja para compor uma comunidade virtual, e com ela realizou a missa dominical, transmitida on-line. Tal proposta começou a ser prática normal em muitas cidades latino-americanas.


Fonte: https://noticias.uol.com.br/cotidiano/ultimas-noticias/2020/03/20/

Entretanto, outras dinâmicas paroquiais surgiram. Na Colômbia, por exemplo, um grupos de leigos com experiência em meios de comunicação, normalizaram as missas on-line e passaram a realizar atendimentos virtuais e o monitoramento remoto das necessidades dos fiéis das paróquias. Seus canais yotube, facebook, twitter, instagram e whatsApp, constituiram-se nas redes de comunicação paroquial. Com isso, em tempos de pandemia, essa comunidade de leigos religiosos imprimiu um novo ritmo à vida comunitária católica, tanto nas grandes cidades quanto nos povoados nos quais tivessem acesso a internet (http://www.comunidadmariamediadora.com/page/). Será também por plataformas digitais que jovens realizam lives e se congregam para realizar atividades conjuntas. Assim, um grupo de jovens da Renovação Carismática Católica se articulou, por WhatsApp, para rezar todos juntos o rosário nas ruas de numa cidade brasileira, transmitir on-line e postar nas redes sociais, tudo em tempo real.


Fonte: Facebook Paróquia Cristo Rei, Cuiabá (MS/Brasil)

Desde o final da década dos anos noventa, a Igreja católica já vinha investido numa evangelização que incluía os meios de comunicação, a proliferação de padres cantores e grupos de leigos inaugurando novas formas de vida consagrada à igreja. Porém, a pandemia da Covid-19 obrigou o catolicismo dar o salto compulsório não apenas para as redes sociais, mas também para o ambiente digital como produtor de experiências religiosas e do sagrado.

Ao percorrermos nos tempos da Covid-19 a geografia católica, conseguimos capturar alguns momentos em que o catolicismo milenar se reinventa. Algumas vezes, nos surpreende ao percebermos como a pandemia do novo coronavírus vem forçando o catolicismo tradicional a entrar nas novas exigências da interatividade, comunicação midiática e relacionamento por redes sociais do século XXI. Outras vezes, parece inacreditável como práticas religiosas, outrora tidas como anacrônicas, emergem com vigor. Vemos então a reposição de um repertório simbólico sendo ativado por meio de práticas milenares que prometem a fiéis a proteção divina, ativando assim dispositivos de alívio e consolo perante o imponderável que uma peste ou pandemia possam trazer. Sabemos que tais dispositivos, por sua vez, desencadeiam resiliências sociais que fazem suportável o sofrimento humano em tempos prolongados em que fiéis e cidadãos são expostos a risco de vida, como a Covid-19 vem impondo.

É evidente que se o catolicismo encontra respostas à pandemia, a pandemia também o interpela e, por que não?, também à religião num sentido mais amplo. O historiador Matthew Rowley, estudando a epidemia de 1616, acometida em Nova Inglaterra (Massachusetts/USA) mostra a função social que a religião cumpre em tempos de crise extrema (I). Segundo o autor, uma epidemia obriga a vida religiosa a reformular seu arsenal teológico para interpretar o sentido último da doença. Já a hermenêutica da epidemia, realizada pelos eclesiásticos, abre um leque de inúmeras possibilidades para a compreensão do evento como desígnio divino, enquanto oportunidade de arrependimento dos fiéis, possibilidade de reconduzir moralmente suas vidas e fortalecer espiritualmente os grupos/igrejas perante as forças da natureza. Por isso, a peste tem uma função salvífica, se apresentará como um tempo de graça e de bênção. Outra função da religião será a de outorgar sentido ao sofrimento, fazer suportável a contingência do risco de morte, oferecer tecnologias para administrar a ansiedade da epidemia destrutiva e perturbadora. Nesse sentido, segundo Rowley, a função dos agentes religiosos será oferecer uma explicação etiológica da epidemia, uma cosmovisão religiosa da realidade que a organiza em função de uma finalidade divina (teleologia), e assim fortalecer as próprias instituições ao fornecer tecnologias de superação da adversidade e manter a coesão social.

Sem dúvida a Covid-19 questiona todas as práticas religiosas, não apenas as do catolicismo que, como vimos acima, abre seus repertórios milenares para dar suporte religioso a uma realidade social até agora não controlada pelos meios científicos. A função social do catolicismo, com a inovação de experiências religiosas, será a de disponibilizar seu arsenal simbólico, ora na inversão da aproximação do sagrado às ruas, cidades e fiéis, ora os fiéis encontrando esse sagrado nos ambientes tecnológicos comandados por clérigos e leigos. Certamente, os diversos catolicismos latino-americanos oferecem sentido e fazem suportável o sofrimento, ao mesmo tempo em que disponibilizam seus recursos simbólicos e religiosos para administrar a morte e a vida em tempos de pandemia.

(I) https://religionanddiplomacy.org.uk/2020/03/24/what-can-we-learn-about-religion-and-covid-19-from-the-pandemic-of-1616-an-interview-with-matthew-rowley/. Acesso 31. ago.2020.