“Até 38 graus eu deixo entrar”: relatos da pandemia de Covid-19 em Belém (PA)

Luciana Almeida Wilm
Pedro Paulo de Miranda A. Soares
Belém do Pará, 28 de Agosto de 2020

Na semana em que o Brasil passa dos 117 mil mortos, a Covid-19 ainda parece estar longe de ir embora. Os casos da doença oscilam em todo o país e em alguns estados o nível de mortes e contaminados continua aumentando. Em outros, apesar dos números estarem em queda, isto não configura um controle efetivo da doença.

No estado do Pará, até o momento, 6.097 pessoas faleceram em decorrência do vírus e cerca de 193 mil casos foram registrados. Os meses de pico foram maio e junho. Em julho houve uma queda bem acentuada tanto no número de mortes quanto nos casos registrados. De acordo com os dados do consórcio dos veículos de imprensa, a quantidade de novos casos e mortes se mantém há mais de um mês em “estabilidade”, ou seja, não está aumentando, mas também não apresenta diminuição.

Desde o início do verão amazônico (I) (mesmo com o número ainda alto de mortes) foi iniciado o processo de abertura gradual dos serviços não só no Pará, mas também em toda a Região Norte. Atualmente, os estabelecimentos retomaram por completo seu funcionamento – ou quase. Restaurantes e bares permanecem com sua capacidade reduzida, as mesas nestes espaços estão mais espaçadas e existe uma constante lembrança, pelo menos durante o dia, de que existe uma fiscalização e que “procedimentos foram adotados”. Alguns desses procedimentos adotados figuram em uma mistura de mise en scène governamental enquanto outros apontam para um real medo de contaminação.

Em um famoso restaurante de peixe frito localizado em Belém, um espaço aberto, sem ar condicionado e com grandes ventiladores que giram na tentativa de minimizar o calor extremo, as mesas já não estão uma ao lado das outras de forma tão próxima e os garçons trabalham de máscaras. Um funcionário fica à porta medindo a temperatura de quem chega. Contudo, por causa do sol é muito difícil dizer se o cliente está com febre ou não. Ele me informa na porta que estou com 37 graus. Eu pergunto: “e agora?” Imagino que ele ri por trás da máscara e me responde: “Até 38 graus eu deixo entrar, se você anda um pouquinho nessa ‘lua’ chega aos 37 no couro em um quarteirão”.

No mês de agosto o trânsito de pessoas para as praias amazônicas já diminuiu. Afinal, o auge do verão aqui coincide com as férias escolares e é identificado como sendo no mês de julho. Desde o início de julho circulam pelas redes sociais inúmeros vídeos de praias lotadas, muitas aglomerações e uma certa confusão entre turistas e moradores locais que não esconderam seu incômodo com relação à quantidade de gente circulando sem os cuidados recomendados pela OMS. Festas nas praias e pouca fiscalização resumem bem o que aconteceu durante o auge do verão.

Como explicação para esse tipo de comportamento existem muitas possíveis teorias dadas pela população em geral, como o Pará já ter atingido a imunização de rebanho (afinal o auge dos casos aconteceu logo no início da pandemia). Outros preferem acreditar que, passado o período chuvoso, a possibilidade de contágio diminui bastante por diminuir também a quantidade de doenças virais que acometem a região. Existe também quem não acredita na existência da doença ou minimiza o seu poder de letalidade.

Neste momento, há quem espere um salto considerável de infectados formando uma possível “segunda onda” de pacientes com Covid-19 resultante das praias lotadas e das novas aglomerações em bares e restaurantes. Se durante o dia existe uma certa vigilância com relação ao uso de espaços fechados, durante a noite a animação de verão contagia os espaços noturnos e a cidade oscila entre ruas quase desertas e bares lotados com festas bem aglomeradas que pouco respeitam o distanciamento social ou o uso de máscaras.

As filas e o amontoado de pessoas também são costumeiros nos tradicionais passeios de fim de semana para as ilhas da Região Metropolitana de Belém. O espaço criado para a travessia de barco em Belém, a Praça Princesa Isabel, a cada fim de semana recebe um número maior de visitantes e chega em alguns momentos interromper a travessia por não ter vaga em mais nenhum dos muitos restaurantes abertos na Ilha do Combu, ilha que possui mais construções com este perfil.

É curioso presenciar filas apertadas de gente com máscaras (que nem sempre cobrem os rostos de maneira adequada) que chega até a portaria de embarque das lanchas onde o acesso é individual. Ali, antes do embarque, um funcionário dá duas borrifadas de álcool nas mãos de cada passageiro e faz a medição da temperatura. Os barcos que fazem esta travessia têm partido com a lotação máxima e as máscaras vão sendo guardadas o longo da travessia de 15 minutos até o outro lado.
Não posso afirmar sobre o cumprimento das restrições sanitárias nestes espaços, mas pelos vídeos compartilhados aos quais tive acesso, abraços, beijos, risos e falas sem máscaras fazem parte da diversão e aproveitamento do veraneio amazônico. Esta também é uma cena recorrente em outro espaço portuário da cidade, apontado pela classe média paraense como mais popular que, porém, funciona do mesmo modo, um trapiche bem aglomerado e barcos que fazem travessias para uma outra ilha chamada Cotijuba.

Apesar de Cotijuba ser bem maior e ter mais infraestrutura do que o Combu, ela não recebe a visita dos inúmeros modelos exclusivos de lanchas com festas particulares e privativas que fazem parte da paisagem de circulação do Combu. Por esse aspecto mais popular, o ponto alto da ilha periférica que fica mais próxima de um distrito de Belém (Icoaraci) do que do centro da cidade são as festas de brega com pequenas aparelhagens que embalam a animação de muitos casais dançantes. Filas, lugares lotados, pouca fiscalização, muito calor, som alto fazem parte do momento de lazer nos finais de semana de todas as classes sociais da cidade.

Este cenário de verão amazônico contrasta bastante com aquele de meados do mês de março, quando foi registrado o primeiro caso de Covid no Estado do Pará.

Registrado em Belém, no dia 18 de março, o primeiro infectado foi um homem de 37 anos com passagem pelo Rio de Janeiro. O início da pandemia, no entanto, coincidiu com outra grande crise presente anualmente – marés altas e chuvas incessantes.
Em 15 de março a Prefeitura e o Governo do Estado haviam decretado situação de emergência – um fato sem precedentes – por conta da intensidade das inundações e alagamentos ocorridos na capital e em algumas cidades do interior. Belém estava submersa. Em meio a uma pandemia global a cidade passava por um dos períodos mais críticos de sua história recente do ponto de vista sanitário e ambiental.

Apesar de dias cinzentos, chuvas intermináveis, trânsito caótico e as ruas alagadas afetarem a todos os habitantes da cidade, as áreas conhecidas como “baixadas” são sempre as mais afetadas pelas inundações. Como a própria denominação indica, as “baixadas” são as áreas de nível topográfico mais baixo da cidade, geralmente situadas em terrenos alagáveis e próximas a antigos cursos d’água chamados localmente de igarapés. Ao longo do tempo, sucessivas políticas públicas transformaram estes igarapés em esgotos a céu aberto. Logo, quando transbordam em função das grandes chuvas do inverno amazônico, as águas dos canais também levam o esgotamento sanitário da cidade por entre ruas e residências, sobretudo nas baixadas.
Nos primeiros dois meses da pandemia, alguns veículos de comunicação circularam reportagens sobre as relações entre a falta de saneamento e a contaminação pelo coronavírus. Em Belém foi possível observar esses dois elementos atuando em conjunto: durante o mês de abril, quando a doença realmente se disseminou pelo território nacional, inundações continuaram a ocorrer na cidade, porém sem a mesma atenção por parte da mídia de massas e da opinião pública, ambas voltadas para as problemáticas da pandemia. Nos dias 08 e 18 de abril, enquanto as autoridades negociavam as medidas de isolamento no Pará e muitos negavam a gravidade da pandemia, ocorreram novamente grandes inundações.

Um amigo relatou que no dia 08 as águas do Canal do Galo, no Bairro da Pedreira, transbordaram e ultrapassaram 1 metro de profundidade na rua, atingindo o assoalho da casa – cuidadosamente elevado em invernos anteriores para fugir das inundações. No dia 18, a água ultrapassou essa marca, prejudicando móveis e eletrodomésticos, a começar pela geladeira, que já estava erguida sobre um estrado. Para este morador e seus vizinhos, a angústia das incertezas sobre a Covid-19 e a melancolia do isolamento na quarentena se somaram à necessidade de conviver em um ambiente insalubre e destruído pelas águas da chuva e do esgoto.

Se por um lado, a situação de inundação provoca um isolamento forçado, o contrário também ocorre e coloca questões de ordem prática: como permanecer em isolamento em uma casa total ou parcialmente alagada? Como ficar em casa se as compras do mês foram destruídas pela água ou se não há como armazená-las porque a geladeira foi comprometida? Como manter as condições de higiene exaustivamente recomendadas – lavar as mãos, por exemplo – com uma pia submersa? Como se deslocar para atendimento médico – sobretudo os idosos – por uma rua alagada? Como se proteger de outras formas de contaminação, além do coronavírus?

As doenças de veiculação hídrica não deixaram de existir durante a pandemia de Covid-19. Parasitoses, diarréias, leptospirose e doenças de pele causadas pelo contato com águas contaminadas dos canais certamente continuaram a demandar atenção dos profissionais de saúde, agravando o problema da ausência de leitos e a situação de colapso dos sistemas públicos e privados de saúde.

Em maio, finalmente, o governo do Pará decretou o lockdown no estado, que durou do dia 06 ao 25 do mesmo mês, em meio a polêmicas envolvendo a presidência da república e governadores a respeito da necessidade de tais medidas. Embora aqueles serviços que foram considerados não essenciais estivessem fora de operação, era possível ver da janela que na rua o fluxo de carros não havia diminuído, inclusive fora do horário comercial e em altas horas da noite em dias de semana.
Mesmo com a circulação pela cidade sendo restrita pela regulamentação do lockdown e as punições com a possibilidade de multas muito noticiadas pela mídia, as pessoas continuavam a se deslocar para trabalhar, para ir à casa de parentes, para namorar ou para fazer suas compras. No período também foram registradas aglomerações em supermercados dos bairros nobres e nas feiras dos bairros populares.

Em junho teve início a reabertura gradual do comércio e dos serviços considerados não-essenciais. No dia 02, em uma reunião virtual sobre a revisão do plano diretor de Belém transmitida pelo youtube, um dos participantes questionou o prefeito sobre a prematuridade da reabertura dos serviços. O prefeito se justificou pela necessidade de assegurar a arrecadação de impostos do município, a qual havia sido sensivelmente afetada pela pandemia e pelas medidas de lockdown.
Se as contas da cidade preocupavam a prefeitura, houve também quem chamasse atenção para os números ainda alarmantes das infecções de Covid-19 no estado, sem sinal de diminuição ou estabilidade segundo, até aquele momento, o mais recente estudo realizado pelo Grupo de Trabalho da Universidade Federal do Pará sobre o novo coronavirus. O prefeito respondeu com críticas ao referido estudo, dizendo que se tratavam de números no estado do Pará como um todo e que os pesquisadores não conseguiram isolar a cidade de Belém no trabalho. Com a resposta, no entanto, o prefeito admitiu que estava reabrindo o comércio sem dados ou diagnósticos mais sérios sobre a situação da Covid-19 na cidade. A decisão da prefeitura levava em conta apenas o movimento nos hospitais.

Ainda sobre o tema da reunião virtual de 02 de junho de 2020, a cidade de Belém vem passando pela revisão do seu Plano Diretor desde 27 de junho de 2019. Após mudanças no quadro técnico da prefeitura para a condução do processo, a revisão do plano diretor finalmente recomeçaria no primeiro semestre de 2020, o que coincidiu com a pandemia. A participação popular é um requisito constitucional – na federação e no estado do Pará – para a revisão do plano diretor. Porém, mesmo com a impossibilidade de conduzir a revisão com metodologias participativas presenciais, a prefeitura e representantes do mercado imobiliário têm insistido em levar adiante o processo sem participação para concluí-lo antes do fim do ano, quando o atual prefeito deixará o cargo.

Em 15 de junho, o Ministério Público do Estado do Pará expediu uma recomendação para a suspensão da tramitação do projeto de lei de revisão do plano diretor de Belém em função da excepcionalidade da situação de pandemia. No mês anterior, o Ministério Público do Estado de Pernambuco havia emitido a mesma recomendação, conseguindo o adiamento da revisão do plano diretor de Recife e impedindo a gestão municipal e o mercado imobiliário de “passar a boiada” – para usar um termo que ganhou popularidade durante a pandemia.

Em resposta ao MPE/PA, a prefeitura de Belém emitiu uma nota justificando a necessidade de continuar o processo de revisão. Essa é uma questão que permanece inconclusa, da mesma forma que muitas outras permanecem e ainda permanecerão por um tempo sem definição por influência direta ou indireta da pandemia (e também das eleições que se tornam cada vez mais próximas).

É o caso das aulas presenciais nas escolas e universidades, por exemplo. Suspensas desde o dia 18 de março, sua primeira previsão de retorno era para a segunda quinzena de julho. Professores e autoridades sanitárias consideraram precipitado o retorno e houve adiamento. Ainda no fim do mês de julho representantes de escolas particulares protestaram pelo retorno das aulas presenciais. A notícia mais recente é que o prefeito pretende reabrir as escolas no dia 1º de setembro. Na Universidade Federal do Pará, atividades presenciais estão suspensas até o fim do ano. Porém, as aulas devem ser retomadas. A instituição aprovou o ERE (Ensino Remoto Emergencial), embora ainda não haja nenhuma nitidez sobre o que significa essa modalidade de ensino tanto para os alunos, quanto para os professores.

Depois de todos estes fatos narrados e apesar da retomada – em parte – da vida social, ainda existe estímulo para que as pessoas permaneçam em casa. De fato, ainda há reclusos. A pergunta bastante repetida nos meses mais agudos da pandemia ainda tem eco: tem gente que fica em casa?

A resposta parcial remete a um aspecto que deve ser lembrado: a vida virtual. Do trabalho em home office às tentativas de uma educação empurrada por EADs inventados às pressas, vemos algumas coisas voltarem ao cotidiano mesmo que de maneira virtual. Por exemplo, os jogos de futebol retornam ao entretenimento de quartas e domingos com estádios sem público. Também há as festas virtuais realizadas em lives ou em reuniões no Zoom organizadas por coletivos de Djs ou produtoras culturais. Esses eventos – que não cobram entrada, mas sim uma contribuição voluntária via depósito bancário – recebem um público considerável e apontam para um possível isolamento ainda resistente. De todas essas formas a vida cultural começa a movimentar novamente um mercado que precisa de investimentos constantes para continuar a existir.
Nos jogos do campeonato paraense de futebol, os torcedores, mesmo sem ir ao estádio, podem comprar ingressos e, assim, recebem uma homenagem: sua fotografia em tamanho real disposta na arquibancada. A diversão é ocupar dois lugares ao mesmo tempo, isto é, assistir ao jogo pela televisão para ver a imagem de si mesmo no estádio. É uma maneira criativa dos clubes para continuar contando com a ajuda financeira dos torcedores. As lives de shows funcionam da mesma maneira, popularizando o acesso às festas e espetáculos da cidade, principalmente pelo youtube ou instagram, regadas a muitas visualizações e menções de abraços por quem as conduz, uma maneira de lembrar ao público que a presença virtual e as contribuições voluntárias são muito importantes para estes artistas.

Ainda não sabemos quando haverá uma vacina eficaz para esta doença ou em que momento poderemos voltar às ruas sem o medo de contaminação. Se em alguns centros urbanos houve registro de diminuição ou decrescimento dos casos, o mesmo não se pode dizer com certeza das áreas rurais, sobretudo entre ribeirinhos, indígenas e quilombolas. Era este o público que no início de agosto ainda procurava o Hospital Abelardo Santos, principal referência para o tratamento de Covid-19 em Belém após o fechamento dos hospitais de campanha. No mesmo mês, o Hospital Abelardo Santos desativou suas estruturas para tratamento de Covid-19 e retornou ao atendimento “normal”.

A noção de “novo normal” – enquanto uma série de reconfigurações e adequações para seguirmos a vida neste momento – não se aplica em todos os contextos culturais, sociais e econômicos. Se o “novo normal” é uma ficção, também o é porque toda ideia de normalidade anterior à pandemia é igualmente impossível. Lembremos o óbvio: o vírus foi anterior à pandemia e sua disseminação se deu em conformidade com as condições “normais” das nossas sociedades.

(I) No estado do Pará – e nos trópicos úmidos – o ano é dividido popularmente em duas estações: verão e inverno. O verão começa em meados de maio e termina em meados novembro e o inverno é assim intitulado pela quantidade de chuvas que ocorrem entre os meses de novembro e maio.