Desconfinar a ação coletiva

João França
Barcelona, 23 de Agosto de 2020

Com a declaração do estado de alarme decretado pelo governo espanhol no dia 14 de março de 2020, boa parte das famílias ameaçadas de despejo de suas casas tiveram um alívio. Mas não durou muito. Em meio ao relaxamento das medidas de isolamento, os tribunais voltaram à carga. E também a Plataforma de Afetados pela Hipoteca (PAH), que na quinta-feira, 18 de junho, pela primeira vez, desde o início do confinamento, convocou uma concentração contra um despejo no bairro de Collblanc de Hospitalet, cidade vizinha a Barcelona.

Ao me aproximar do local, já dava para ouvir o barulho —megafone, cantoria e palavras de ordem—, mas isso é o habitual nas ações da PAH. A surpresa foi chegar na esquina da rua Llobregat, onde moram Liliana e sua família, e ver a quantidade de gente reunida.

A plataforma começou a lutar pelo direito à moradia em 2009, como resposta à crise das hipotecas na Espanha, em meio à crise financeira global. Delia, uma das veteranas da PAH de Barcelona, há muitos anos não via tanta gente parando um despejo. À diferença dos primeiros anos, depois do movimento 15-M, quando as ações da PAH eram ponto de encontro de muitas indignações, agora são muitos os coletivos que atuam para evitar a expulsão de famílias em vários lugares da cidade ao mesmo tempo. Mas naquela quinta-feira, aquele era o único despejo a parar, e reuniu gente de vários coletivos em defesa da moradia. A concentração conseguiu adiar o despejo de Liliana até setembro, tempo que ela e a Plataforma terão pra arranjar uma solução para o seu caso.

A estratégia da PAH para impedir os despejos é simples: reunir gente suficiente na porta da casa para impedir que os oficiais de justiça executem a ordem. Um dos principais medos do movimento com a pandemia era que as pessoas não estivessem mais dispostas a pôr o corpo para parar uma expulsão, como fazem há anos. Pelo visto na rua da Liliana, não só estavam dispostas, como tinham muita vontade de sair pra rua e defender o direito à moradia. O difícil foi manter as distâncias no meio dessa luta.

Durante o confinamento na Espanha, fiz algumas entrevistas e debates online. No dia 2 de abril entrevistei Lucía Delgado, portavoz da PAH, que me contou como estavam passando o confinamento com a efervescência dos grupos de Telegram: “Somos humanos, somos passionais e gostamos de nos relacionar, e é importante. Além do mais, nas nossas assembléias gostamos de nos tocar, então imagine! Não poder encostar no outro, isso é uma loucura, e aí rola muito emoji, muitos vídeos…” (I). Seria possível parar despejos, ou mais ainda, seria possível a PAH, sem essa proximidade?

Semanas depois, apresentei um debate virtual (II) com algumas das pessoas protagonistas do livro Retrats de la Barcelona comunitària (Retratos da Barcelona comunitária) (III) que publiquei ano passado. Nele, Amparo Iturriaga, da associação de vizinhança do bairro de Roquetes, estava muito irritada porque a prefeitura não autorizou a associação a retomar o espaço em que fazem as oficinas de costura, cozinha e bricolagem do projeto Més amb menys (Mais com menos) por conta das restrições sanitárias. As oficinas nasceram há alguns anos como um pretexto para criar redes e saúde no bairro. Segundo Amparo, são “projetos de acompanhamento, de estar em contato com as pessoas”, e retomá-los é fundamental para que as pessoas recuperem a autoestima.

“Nessas instalações públicas as pessoas não vão só fazer ginástica ou aprender inglês, se faz muito mais que isso, é uma questão de se relacionar, compartilhar, se ajudar… em resumo, de não nos sentirmos sozinhas, de sentir que somos importantes para alguém e que nos têm em consideração, e teremos que batalhar por isso”, disse Amparo. Delia, que na tentativa de despejo da Liliana lembrava concentrações anteriores, me contava semanas antes que “a melhor coisa da PAH é a proximidade, o fato de valorizar a pessoa como ela é, com todas suas coisas, porque somos muito diferentes”.

Nacho Quadras participou no mesmo debate que Amparo. Ele forma parte da Radio Nikosia, um programa de rádio autogestionado por pessoas com diagnósticos de sofrimento mental. Para Nacho, o confinamento reafirma a necessidade do contato com as pessoas e poder fazer coisas que nos realizem. “Muitos de nós ficamos doentes porque nos faltou isso”, disse. “Saúde é se encontrar um com o outro e se realizar como pessoa. Isso é saúde”.

Agora que se fala de distância física —e chamam de distância social—, parar o despejo de Liliana foi uma explosão de proximidade social. Não podemos negar a necessidade de nos proteger e proteger as pessoas que nos rodeiam perante o vírus, mas não pode ser renunciando a essa proximidade. O desafio, como me disse a escritora Brigitte Vasallo, é “como vamos recuperar o encontro físico fazendo que seja um espaço de segurança para todo o mundo, que é um tema que sempre sobrevoa, mas especialmente nestes momentos”.

Nacho disse que esta pandemia deixou mais evidente como os valores do neoliberalismo e do individualismo são insustentáveis. Mas se queremos construir um mundo melhor, um mundo onde valha a pena viver, só poderemos conseguir com a proximidade social. Com muita gente junta em uma esquina para que Liliana e seus filhos não acabem na rua. Junta e com a alegria e a energia das ativistas Najat e Malika, que passaram a manhã inteira sem soltar o microfone nem o ritmo, cantando aquilo que a PAH sempre diz que “não se entende: gente sem casa e casas sem gente” (IV).

(I) A entrevista está disponível neste link: https://youtu.be/INFfN7CpS9c
(II) O debate está disponível neste link: https://youtu.be/8Lqv02Ycqu0
(III) O livro, em catalão, está disponível neste link: https://ajuntament.barcelona.cat/barcelonallibres/ca/publicacions/retrats-de-la-barcelona-comunitaria-0
(IV) É possível escutá-las neste vídeo da concentração diante da casa de Liliana: https://twitter.com/jotaemi/status/1273572135521452033