Coronavírus: Um olhar sobre a percepção da comunidade local da Ilha de Moçambique

Beatriz Chalacuane
Ilha de Moçambique, 18 de Agosto de 2020

Já ouvíamos no destaque internacional sobre um vírus na China, isso virou tema de conversa em pequenos fóruns nas esquinas de uma instituição de ensino. Comentava-se: nesta globalização, não tarda sofrermos a consequência desse mal, esse tal vírus. Um problema no primeiro mundo, os terceiros sempre apanham por tabela. Então era altura de estarmos atentos nessas “lutas dos brancos”. Já vem a terceira guerra, na nossa terra, mal saímos dos nossos fardos internos, já vamos carregar outros… O mundo é dos ricos mesmo! Lembro de ter ouvido no mylove (I) o seguinte: “Deus não é burro, essa corona é doença de ricos, brancos, aqueles doutros países, nós moçambicanos já temos cólera, sida e malária”.

Com o andar do tempo, acompanhamos África testando positivo para a Covid19, para os moçambicanos o discurso nas nossas esquinas, como de costume, era que já havia chegado a Moçambique, mas o nosso governo escondia esse mal, devido a interesses políticos. Em jeito de profecia, tivemos casos em Moçambique, consequentemente, decretou-se o estado de emergência. O país recebeu apoio financeiro, o número de casos disparava, agora o discurso era contrário, o governo manipulava o número de casos positivos para justificar a quantia recebida, estávamos preocupados a atribuir culpa a alguém, nem sequer conhecíamos ninguém que desse mal padecesse! Após se decretar o estado de emergência e percebermos que a comunidade local da Ilha de Moçambique não parecia entender o que se estava a passar, parecia não ter havido nenhuma mudança no primeiro mês, tirando o facto de não termos turistas estrangeiros a passearem pelas ruas, decidimos fazer um trabalho de campo de modo a aferir essa percepção. Pelas belas e históricas ruas e bairros, alguns aspectos sobressaíam ao meu olhar e nas entrevistas das quais participei.

Todos restaurantes estavam fechados na primeira e segunda semana do estado de emergência, o que indicava interpretação defeituosa do decreto presidencial.

Senhor Momade, pescador, lutador nessa vida, ouviu por aí sobre o coronavírus, o maior significado desse período para ele é que não podia ir a mesquita. Sobre as medidas de prevenção e sintomas, afirmou que não podia dizer nada, pois nunca viu isso, quem podia dizer é o médico. Já senhor Abudo, doméstico, sem fonte de renda, questionou por qual razão o governo mandava ficar em casa, se não fornecia alimentos e máscaras, sendo que essa era a função do governo que mal cuidava do cidadão. Relativamente às medidas de prevenção, sabe quais são, mas não as cumpre por falta de recursos. Constatámos que para as mamanas dos mercados, as mamanas que tem as suas bancas em casa, não ficaram afectadas pela pandemia, pelo menos não na análise delas. Para nenhuma dessas pessoas tínhamos casos positivos em Moçambique. Mas não é por isso que as casas particulares viraram focos de convívio e de venda de bebidas alcoólicas, pois estas são frequentadas por pessoas mais informadas. A vida continuava neste pequeno pedaço de terra.

Bastava andar pelas ruas, para perceber que não havia consciência da gravidade da situação. Em mercados, aglomerados sem máscaras. Caso visse alguém com máscara, esta estava mal colocada, pois não ajudava na respiração.

Ainda me lembro que logo no primeiro dia do Estado de emergência, recebi dois funcionários do Conselho Municipal da Ilha de Moçambique, recolhiam informação sobre o uso de corrente elétrica. Ambos estavam sem máscara e sem nenhuma forma de desinfecção. Essa informação recolhiam em todas as casas e nalgum momento pediram para entrar na minha. Pensei: Que absurdo!!!

Três meses se foram, as medidas de prevenção eram amplamente divulgadas, a polícia local pressionava a população e finalmente notávamos melhorias… Cedo já se recolhe, máscaras são mais usadas, embora ainda encontremos muitos sem ela. Em todos os lugares vemos sabão e balde de água, mas ainda temos as nossas feiras de hortaliças cheias e sem respeitar o distanciamento. À nossa maneira vamos combatendo a Covid19.

(I) Meio de transporte precário constituído por carros caixa aberta.