A COVID – 19 E O FUTEBOL

Emiliano João
Campinas, 13 de Agosto de 2020

Já se passaram quase 6 meses desde que caiu a fixa do mundo, estávamos diante de uma pandemia e não de uma epidemia (como se pensava). Este anúncio, por parte da OMS, fez com que a vida não mais fosse encarada da mesma forma, o “novo normal” se constituiu no novo linguajar popular, mudanças na rotina, quer pessoal quanto profissional, se fizeram mais do que necessárias: a quarentena era mais do que obrigatória, relegando as instituições civis, políticas, religiosas, econômicas etc à um segundo plano em relação a subsistência e manutenção da vida. Entretanto, houve quem preferiu viver em uma realidade paralela (niilismo), primando por suas liberdades (sobretudo econômica), criaram a ilusão de um mundo seguro.
Por meio desta ilusão, cria-se antagonismos, conflitos sociais e diversas teorias conspiratórias, a fim de deslegitimar a obrigatoriedade da quarentena que se impunha. Legitima-se, deste modo, o caos e consequentemente o Estado Necropolítico. O “debate” economia vs vida toma a pauta do dia, se espalhando muito rapidamente nas mais variadas instituições e nos diversos cantos do globo. Aliás, a velocidade vertiginosa da informação/desinformação, é algo constitutivo deste mundo globalizado, que, conforme o sociólogo Zigmunt Bauman, ela (a globalização) se insere na ordem do dia, trazendo felicidade e segurança para alguns, e infelicidade e insegurança para outros.

Infelizmente, num contexto como o brasileiro, no qual a minoria se mantém com base no auto-sacrifício da maioria, a infelicidade e a insegurança acabam por assolar mais os menos privilegiados dos projetos governamentais do Estado, do que a elite geralmente privilegiada. Deves estar a se perguntar: o que tudo isso tem a ver com o futebol? Mas para lá da caricata e desdenhosa expressão do presidente Bolsonaro para quem “no meu caso particular, pelo meu histórico de atleta, caso fosse contaminado pelo vírus, não precisaria me preocupar”, a Covid-19 obrigou também a ganancia dos mandatários do desporto mundial a se renderem face a ela, afinal o desporto não se encontra alienado a realidade social em que o mesmo se desenvolve.

Foi diante deste cenário de insegurança generalizada na Europa, nos então agora há pouco epicentros da pandemia (Itália, Espanha, Inglaterra etc), que os organismos nacionais do futebol decidiram por paralisar suas ligas, no que foram seguidos pelos dois organismos maiores do futebol: FIFA e UEFA. Em um primeiro momento a decisão era por cancelar por cancelarem de forma temporária as competições desportivas até que “o novo normal” chegasse; entretanto, não o fizeram sem que vozes contrárias se manifestassem, acabando por serem vozes vencidas à medida que os casos por Covid-19 assolavam inclusive os próprios jogadores.

O futebol em Portugal foi paralisado quando registrou-se trezentos e trinta e um casos; na Espanha, nove mil e quinhentos casos; na Itália, quando atingiu-se vinte e sete mil e novecentos e oitenta casos, dentre os quais, dois mil e cento e quarenta totalizavam o numero de mortos. O campeonato alemão parou na vigésima quinta rodada, o italiano na vigésima sexta, o inglês na vigésima nona; o francês na vigésima oitava; o espanhol na vigésima sétima e o português na vigésima quarta. Após quase três meses de interrupção, quando os casos diminuíram significativamente, o número de mortos se aproximasse a zero, deu-se o início do retorno. De todos esses, o alemão foi o primeiro a voltar, seguidos do português, espanhol, italiano e por último o inglês. Todos eles seguindo rigidamente as diretrizes da OMS. Na França e na Holanda foram mais radicais e decidiu-se pelo cancelamento dos seus campeonatos.

É bom se atentar para números ao pensarmos na volta do futebol no Brasil. Se a continuidade destes campeonatos já foi polêmica havendo mesmo jogadores que se recusaram a voltar aos treinos (arriscando-se inclusive às pesadas multas de rescisão contratual), no Brasil deveria gerar ainda mais espanto, pois, analisando friamente os números percebemos claramente que não houve condições para que os estaduais voltassem, muito menos o brasileirão. Quando os primeiros casos de Covid-19 começaram no Brasil, o campeonato brasileiro ainda não havia se iniciado, disputava-se apenas os estaduais. No entanto, volvidos longos meses de interrupção (cinco meses para ser preciso), ainda sem conseguirem controlar a pandemia, com recorde de novos casos da doença e com mortalidade elevada, os estados, em conjunto com a CBF, decidiram por retomar os campeonatos. Os estaduais, numa primeira fase e, por fim, o brasileirão.

Que o Brasil é celeiro de craques mundiais isso é óbvio; que é o país da beleza estética futebolística é ainda mais óbvio; que é o país do futebol, configurando-se numa verdadeira paixão nacional, não restam sombras de dúvidas. Não é em vão que o antropólogo Roberto da Mata destaca o futebol como um dos fenômenos que faz do Brasil, Brasil. Assim, o futebol, no contexto brasileiro, não só move paixões, como também a maquinaria econômica brasileira, e, por que não dizer?, a política. O mercado do futebol movimenta anualmente grande somas de recursos e influenciam diversos setores da economia brasileira, o que, no contexto atual, significa influenciar ao mesmo tempo a conjuntura política.

A Copa do Brasil de 2014, deixou essa tríade: paixão, economia e política muito evidente. Entretanto, isso não é uma prerrogativa do Brasil, aproveitar-se de um fenômeno que move paixão, levando-nos a euforia e a êxtase, para maquiar as mazelas políticas e econômicas. Na copa da França de 1998 ou na sul-africana de 2010, seguiu-se a essa mesma lógica. A bem da verdade que, se fizermos um salto na história, observaremos que essa é uma práxis do “príncipe” que se sente em ruína. É uma espécie da velha política do “pão e circo” aplicada na Roma Antiga que provia diversão ao povo com o intuito de desviar a sua atenção de questões relevantes que pudessem gerar revoltas populares.

Ao voltarmos para o contexto atual, essa premissa se justifica com a imagem que o Brasil passou ao mundo na noite de sábado 08/08/2020, quando foi retomado o campeonato de futebol nacional e se disputava, ao mesmo tempo, a final do estadual paulista entre Palmeiras vs Corinthians. Neste mesmo dia foi possível observar bares lotados, jantares presidenciais e o seguimento de pautas, como se de tempos normais se tratasse. No entanto, ao contrario do que a imagem transmitia, o Brasil atingia na mesma noite o seu recorde de casos de mortes por Covid-19, a marca de cem mil mortes vítimas do novo coronavírus.

Um dia mais tarde, o jogo entre Goiás e São Paulo seria cancelado estando já todos jogadores em campo em fase de aquecimento, pelo fato de que dez jogadores do Goiás testaram positivo. Vale a pena corrermos esse risco por conta deste desposto apaixonante chamado futebol? Enquanto futebolistas, vale a pena colocar em riscos seus familiares devido a ganância da grande indústria mercadológica chamada futebol? Enquanto torcedor, vale a pena tantos festejos em um tempos claramente marcados pela tristeza, dor e luto? São algumas perguntas que podemos nos fazer.

Embora, esteja mais do que claro para nós que a insensibilidade generalizada diante dessas mortes faz parte de um projeto deliberado de construção da indiferença que se nutre da negligência, da subnotificação, da confusão a fim de implementar um projeto político de características fascistas, não podemos simplesmente colocar tais números na conta presidencial (apesar da grande parcela de culpa desta liderança). Pois, pelas enchentes em mercados, parques, praias, etc. percebemos uma culpa repartida permeada pela lógica errônea: antes a morte dos outros do que perder a minha liberdade. Esquecendo-se, com isso, aquilo que o sociólogo Zigmunt Bauman em Comunidade: a busca por segurança no mundo atual, já advertira: na busca por liberdade abrimos necessariamente mão não só da nossa segurança como da dos demais.

Assim, é hora de todos refletirmos até que ponto não estamos sendo de alguma forma cooperadores para o aumento vertiginoso de tais números. Estamos vivendo tempos de lutos e não de sorrisos. Ignorar isso é também atentar a vida humana. Portanto, diante deste estado generalizado de indiferença é necessário arranjar mecanismos de lutas. Aliás, nesta luta por resistência face o estado suicidário, o primeiro passo em vista destes elevadíssimos números de mortes, consiste em deixar de encara-los como sendo meros números estatísticos e retrata-los como mortes humanas de vó e vô, pais, filho(a)s, irmão(a)s, amigo(a)s etc. E se quisermos ir mais além, pinta-los, de maneira a observamos quem mais está sendo afetado por esta pandemia seletiva.