“moCOVID, a luta continua”: o desenrolar da vida em contexto da pandemia na cidade de Maputo. – parte 1

Miguel Joaquim Justino Muhale
São Paulo, 22 de Julho de 2020

Lá se vão vinte 120 dias desde que aos 20 de Março o presidente moçambicano decretou o estado emergência devido à pandemia do Covid-19. Já na véspera, uma vez que pelo mundo afora assistia-se a colapsos de sistemas de saúde e mortes às centenas e depois aos milhares, houve quem perguntasse, por que as autoridades nacionais não abordavam o assunto? Bem, Moçambique é um Estado cuja soberania está em constante ameaça (nem me refiro aos ataques terroristas (I) na província na província de Cabo Delgado, insistentemente chamados de insurgentes pelo governo e pela imprensa). Decidir simplesmente impor restrições e inclusive fechar fronteiras, não é uma medida que nossas autoridades possam tomar de forma unilateral e autónoma, com veemência. Não produzimos nada. Nossa economia depende completamente das importações e nosso principal parceiro económico, a África do Sul, até então não tinha imposto medidas restritivas no seu território. Não seriam as autoridades moçambicanas a fechar unilateralmente as fronteiras com o nosso vizinho de onde vem a maior parte dos produtos consumidos e onde milhares de moçambicanos residem, trabalham ou fazem diversos negócios: o mukhero (II). Quando lá finalmente o fizeram, nós seguimos e, muito provavelmente, assim será na reabertura.
A condição de excepcionalidade, no início gerou muita preocupação, diversos extratos sociais, encaravam a pandemia com muita seriedade. Perante o encerramento das escolas, do comércio, suspensão de eventos desportivos, proibição de eventos de carácter social a partir de 50 pessoas etc, observou-se, em um primeiro momento, considerável adesão ao isolamento social, não obstante a propagação entre a juventude pelos celulares de teorias conspiratórias ou da ideia de que o vírus era coisa de gente rica e apenas atacava aos idosos. Os baixos índices de incidência, propagação e mortes pelo vírus, eram e continuam a ser acionados em contraposição à imposição das medidas restritivas, mesmo que a África do Sul, que para a região sul do país, mais do que nosso vizinho e principal parceiro económico, é quem nos aponta o horizonte, a nossa bússola, esteja assolada de forma mais drástica e tenha decretado o temível e incomplacente lockdown.
Nada disto impede os habituais txillings (III), embora haja proibição de aglomerações de mais de 20 pessoas para eventos particulares, “tomar cervejinhas e assar umas carninhas”, continua tão corriqueiro dentro das casas ou nos quintais, com total ignorância às recomendações oficiais, gerando-se por vezes denúncias e posteriores intervenções policiais que acabam com a farra, dispersam os convivas, exigindo-lhes antes um refresco (IV), sob o risco de levá-los à esquadra policial, o que não é uma boa ideia tendo em conta os abusos de poder e humilhações de que é famosa a corporação.
O sector público é o único que continua a operar, embora com redução no percentual de trabalhadores, que labutam alternadamente. Hoje, o que se diz é, “o funcionário da função pública é o menos afectado nesta pandemia, uma vez que continua recebendo seu salário”. Uma das consequências imediatas das restrições foi a inflação dos produtos de primeira necessidade, uma vez que os mukheristas estão impedidos de atravessar a fronteira, comprar e abastecer a capital. O que não era expectável foi a astronómica subida do preço do cimento da construção civil, uma vez que este produto é fabricado nacionalmente. Em um contexto onde a habitação é um dos principais problemas da população maioritária, a juventude, que luta a custo próprio para erguer habitação condigna, a alta do preço do cimento, tornou-se um dos principais reflexos de uma crise que se veio colar à outra: a económica.
Sendo que a ausência é o que pauta a actuação do Estado moçambicano e seu impacto no quotidiano das suas populações, estas desenvolveram diferentes formas de agenciamento que lhes permitissem lidar com as privações, escassez e diferentes catástrofes, naturais e sociais por que têm passado. Não é por acaso que, na cidade de Maputo, a imposição de medidas restritivas não tenha no primeiro momento causado pânico colectivo. Talvez porque as populações, maioritariamente no sector informal, resignadas a um poder público administrador de precariedades, tivessem maior confiança no que já tinham construído por si, seus próprios caminhos, suas redes de solidariedade, suas diferentes formas de economias “subterrâneas”, enfim, o famoso “desenrascar”, conhecido por todos moçambicanos e usado pela sua maioria na superação das agruras da vida.
O abalo dessa confiança, veio com a medida das autoridades municipais que, na véspera decidiram acabar com o comércio informal e ambulante na baixa da cidade de Maputo. De certa forma, essa iniciativa era esperada, pois na corrida eleitoral do ano passado a oposição afirmara para esses vendedores que, após a vitória da Frelimo, Comiche, presidente do município, os retiraria das ruas. O que não era de se esperar, é que este se aproveitasse do contexto atual para, sem qualquer conversação, sem qualquer alternativa, mandasse o aparato policial violentar os vendedores e confiscar suas mercadorias. Esta truculência não ficou sem resposta do lado dos comerciantes qu, revidaram arremessando paus e pedras e paralisando a zona baixa da cidade. A resistência abnegada e revolta dos vendedores informais foi a muito custo sufocada nos dias seguintes com o emprego de bombas de gás lacrimogénio, cães-de-guarda, balas de borracha e contingente policial reforçado. Hoje, a baixa de Maputo é irreconhecível, sem vida, tão vazia quanto Sommerschield. Aliás, encorajado com o sucesso dessa batalha, Comiche, audacioso, partiu à conquista de outros territórios no centro, oeste e leste da capital, levando sua política higienista para os mercados do Xipamanine, Estrela Vermelha e também para as mamanas vendedoras de bebidas, magumba (V) e frango assado na praia da Costa do Sol.
Se os reforçados contingentes policiais conseguiram impor a política municipal higienista na cidade, derrubando bancas e barracas no Museu, Estrela, Xipamanine e na Baixa, sem se dar ao trabalho de pensar como os milhares de comerciantes ganhariam a vida e sustentariam suas famílias em contextos de excepcionalidade, manifestando zero de empatia, o que se observa hoje é uma reação ou efeito de tal política: começam a surgir nas periferias pequenos focos de venda informal, moradores que comercializam à porta de casa diferentes produtos. Há muita possibilidade de se tratar dos expulsos dos mercados já mencionados. É o nosso desenrascar. Os mais adultos dizem que foi assim que nasceram os dumba-nengue (VI) em Maputo.
Vejamos no que vai dar. A luta continua!

(I) Disponível em: https://cartamz.com/index.php/politica/item/5673-cabo-delgado-lionel-dyck-dono-dos-mercenarios-diz-que-a-guerra-contra-os-terroristas-esta-longe-de-ser-vencida acesso 21/07/2020
(II) Comerciantes do sector informal, em larga maioria mulheres que se dedicam à compra mercadorias no país vizinho e a revende-los no comércio informal. Seus produtos são a principal fonte de abastecimento do mercado informal e, portanto, do país.
(III) Moçambicanismo que designa evento social de carácter festivo, badalado, geralmente acompanhado de álcool e música.
(IV)Outro moçambicanismo que significa suborno.
(V) Peixe típico, deveras consumido na capital.
(VI) Mercados informais que, devido a essa condição, no seu nascimento (na viragem do mono para o multipartidarismo), eram proibidos pela polícia que, em rusgas, confiscava as mercadorias e açoitava seus vendedores cuja esperança única era conseguir fugir, correr, de modo a salvar seus produtos e esquivar da truculência policial. Literalmente, Dumba Nengue significa “confiar no pé”, estar em prontidão de corrida.