A Covid-19 no corpo do mercado financeiro. Lições a partir de Luanda

Catarina Morawska
São Carlos, 13 de Julho de 2020

É curioso notar as metáforas de saúde que analistas econômicos mobilizam para falar sobre mercados financeiros ou sobre a economia global. O “contágio da crise financeira internacional”, os “ativos financeiros tóxicos”, o “colapso do comércio mundial”, uma “economia saudável”, uma “deflação crônica ou maligna”, uma “retomada econômica dolorosa”, a “sobrevivência de pequenos negócios”, os “sintomas da crise financeira”, a “injeção de recursos na economia”. Curioso porque ainda que o caráter pervasivo do mercado financeiro seja frequentemente reafirmado, não é tarefa fácil identificar o seu corpo no mundo. Quando estive em Luanda entre novembro e dezembro de 2019 para estudar a Bolsa de Valores e Derivativos de Angola (Bodiva), criada em 2014, eu me perguntava como descrever etnograficamente um mercado que não pode ser observado presencialmente em tempo real, a não ser a partir de um sistema informacional a que apenas os participantes têm acesso. (I) Qual é, afinal, o corpo do mercado financeiro em Angola, esse que agora sente e sofre com a Covid-19?

Ele certamente é muito diferente de um mercado de rua como o Mercado São Paulo, também em Luanda. Quando estive ali, a multidão de corpos exigia um constante movimento de desvio. De pessoas apressadas, de produtos dos mais variados espalhados sobre panos estendidos no chão, de zungueiras equilibrando suas bacias na cabeça, dos chamamentos de madrinha que pediam um olhar mais cuidadoso a um ou outro produto. Era evidente o corpo que aquele mercado assumia, com suas cores, seus sons, seus cheiros, seu calor. Muito diferente do mercado financeiro que, a muito custo, vim a conhecer naqueles dias.

Assim como uma etnografia de qualquer mercado de rua não pode prescindir da descrição de quem, onde, como e o quê se vende, compra, troca ou se promete negociar, também uma etnografia do mercado financeiro não pode deixar de fazê-lo. Quem, onde, o que, como se negocia títulos financeiros em um mercado de bolsa de valores, que, assim como o físico, supõe a presença de muitos vendedores e compradores negociando em tempo real? Não se trata de pergunta simples, e a resposta demanda uma descrição etnográfica mais detalhada. Fiquemos, por ora, com uma imagem caricatural na tentativa de desenhar algum corpo a esse mercado. Imagine-se pessoas investidas de uma estética corporativa, com seus ternos e jargões empresariais, posicionadas em lugares diferentes da cidade, dentro da sede de duas dezenas de bancos e duas sociedades corretoras. Em ambientes controlados com aparelhos de ar condicionado, elas olham para telas de computador, conectadas entre si pela plataforma de negociação SIMER.

Tela do sistema SIMER em que o trader pode inserir, modificar, cancelar e consultar as ordens no Sistema de Negociação. A funcionalidade exibida é a consulta de ordens (de compra ou venda) de acordo com seus detalhes. Fonte: “Manual de Utilizador Simer (TWS) Negociação”, Instrução Bodiva 1/2016, p. 10.

Mas tal caricatura, se insinua um corpo, só o faz ao se imaginar um ciborgue, um conjunto máquina-homem de traders e SIMER, que forma uma espécie de autômato – um dispositivo de processamento de informação – que, neste caso, efetiva a troca de diferentes modalidades de títulos da dívida pública e, simultaneamente, produz imagens de si. Sua versão imagética, composta por dados e estatísticas produzidas a partir do sistema de negociações, torna-se a expressão máxima da forma que o corpo do mercado toma. Este sim é o mercado referido pelos analistas, esse que agora sente e sofre com a Covid-19. Trata-se de um ente descorporificado senciente, que adoece, apresenta sintomas, deve ser diagnosticado e demanda cuidados com injeções e remédios.

Nesse sentido, nota-se desde o começo da pandemia da Covid-19 que os governos nacionais têm dedicado tanta atenção aos efeitos do vírus em corpos humanos quanto nos mercados financeiros – e frequentemente até mais nos últimos. De um lado, como mostrou Jaqueline Santos (2020), o governo angolano anunciou medidas na área de saúde e barrou a movimentação de pessoas para diminuir o ritmo do contágio da Covid-19, causando perplexidade e caos entre uma grande parte das zungueiras, moto-taxis e todos os que, para ganhar a vida ou fazer biscates, dependem da presença de seus corpos na rua. Políticas de transferência de renda – como o auxílio emergencial implementado no Brasil a contragosto da equipe econômica do governo, aparentemente mais preocupada com a “doença” do déficit fiscal do que com a iminência da fome – são impraticáveis em Angola tendo em vista o que a comunidade financeira angolana chama de uma baixíssima “taxa de bancarizacão”. Com apenas 30% da população com acesso a serviços bancários, não há como operacionalizar a transferência de renda em escala nacional. Sem qualquer “auxílio financeiro emergencial”, as medidas de quarentena impostas agressivamente pelas forças de segurança, sobretudo em Luanda, não são sequer uma opção a ser considerada, soando apenas como mais uma imposição arbitrária do “sistema” (Schubert, 2017).

De outro lado, o governo tem vertido esforços consideráveis em conter os efeitos devastadores da Covid-19 na saúde da economia. No período pré-pandemia, havia um empenho da comunidade financeira de Luanda – bancos, empresas, imprensa e órgãos públicos – em comunicar a quem estivesse interessado, antropóloga ou investidores estrangeiros, que o mercado era saudável, isto é, que se conformava com os padrões institucionais e regulatórios esperados em mercados financeiros. A própria criação da Bodiva em 2014 servia como um sinalizador do estado angolano para a comunidade financeira internacional, representada por órgãos como o Banco Mundial e Fundo Monetário Internacional (FMI), de que havia esforços em adotar o chamado “modelo de crescimento orientado pelo setor privado” [private-sector-led growth model]. A Bodiva cumpria, portanto, um importante papel na própria dinâmica comunicativa do mercado (Holmes, 2014).
Mesmo durante a pandemia, tal esforço comunicativo se manteve como uma maneira de atrair capital estrangeiro para um mercado considerado de risco. Não à toa no começo de julho de 2020, o programa “Business Angola”, patrocinado pelo governo angolano e dirigido ao público europeu, teve como convidado o presidente da Agência de Investimento Privado e Promoção das Exportações de Angola (AIPEX), que afirmou:

Estou muito orgulhoso do que foi feito em Angola durante a crise [da Covid-19], mas também estou muito orgulhoso do que está a acontecer nos últimos dois anos em termos de pôr de novo Angola nos carris. Há uma sensação de esperança. Com o trabalho duro, honestidade e esforço para livrar o país da corrupção e mobilizar-nos pelo desenvolvimento, que não são apenas tarefas do governo, mas do país. (…) O setor privado, os investidores precisam vir ao nosso país e ver efectivamente que não somos apenas uma terra de oportunidades, mas que também estamos a trabalhar muito para ajustar as instituições e a forma como trabalhamos aos padrões de referência para projetos e investimentos no país e na economia (grifos adicionados). (II)

Mesmo com todo o esforço em implementar reformas estruturais e comunicar junto a investidores que Angola teria se tornado um ambiente atrativo para negócios, a associação entre saúde e mercado que povoa atualmente as manchetes anuncia um cenário catastrófico para as chamadas “economias emergentes”. Chamo a atenção a duas notícias que dizem muito sobre como os efeitos econômicos da Covid-19 parecem incontornáveis, ou ao menos difíceis de deter pelos remédios normalmente receitados pelos órgãos financeiros internacionais. A primeira intitula-se “O colapso petrolífero. Impactos em África”, que alerta que a queda do preço do petróleo – consequência da baixa demanda do produto com o lockdown global – atingirá “drasticamente países cuja estabilidade política e social está intimamente ligada à produção petrolífera”.(III) Este, evidentemente, é o caso de Angola, caracterizado por Christine Messiant (2008) como uma “oleocracia”. Segundo o analista do jornal, “o petróleo contribui para cerca de um terço do PIB angolano. Logo, o colapso nos preços vai manter este país em crescimento negativo num futuro próximo – condições bem longe do crescimento anual de quase dois dígitos que Angola registava na primeira década do milénio”.

A outra notícia tem origem na Agência Bloomberg e intitula-se “Disparada do dólar é próxima dor de cabeça para economia global”.(IV) Alerta-se ali para o aumento da compra de dólares no mercado de câmbio e a consequente desvalorização de todas as principais moedas de mercados emergentes em relação à moeda norte-americana, “desde 20 de janeiro, quando informações sobre o surto de covid-19 na Ásia começaram a preocupar os mercados”. O principal jornal econômico de Angola já em abril alertava que “Kwanza não pára de cair e chega a Abril com queda de 11%”. (V)A desvalorização do Kwanza é outro forte golpe em uma economia que depende da importação da maior parte dos insumos e produtos consumidos. Para manter as metáforas de saúde, note-se como um mercado (dos autômatos) contamina o outro (das ruas). Uma preocupação com a notícia do surto da Covid-19 desencadeia um movimento nos mercados cambiais ao redor do mundo, o que acaba desvalorizando o Kwanza e afetando os preços dos produtos e a dinâmica de troca em mercados de rua como o Mercado São Paulo.

Ressalto a fala de um “estrategista sênior” em Singapura na notícia da Bloomberg acima mencionada: “Os ativos de mercados emergentes continuarão desafiados, já que investidores se afastam de ativos relativamente arriscados e mantêm um viés a favor de portos seguros”. Angola não é sequer alternativa porque está fora do escopo do que se considera um porto seguro. Mas até os portos seguros podem sofrer revezes, daí a surpresa com a boa performance dos mercados financeiros norte-americanos no atual contexto atual da pandemia. Como entender a tranquilidade dos investidores perante a notícia de que os Estados Unidos estariam diante do maior índice de desemprego desde a crise de 1929? O jornalista Michael Steinberger fez essa pergunta a vários “gurus” do mercado norte americano, e as respostas variaram muito:6 o mercado é largamente movido por um número pequeno de empresas, como Amazon, Google, Facebook, que sairão mais fortes da pandemia; mais de 90% do valor das ações dependem de rendimentos esperados para mais de um ano no futuro, e portanto, os investidores tomam suas decisões tendo por base um ou dois anos à frente, quando se espera que a crise tenha passado; com o Federal Reserve injetando trilhões de dólares na economia e com as taxas de juro baixas, os investidores “não têm outras alternativas a não ser o mercado de ações”. O uso da palavra “mercado” no singular chama a atenção nessas respostas. Pois a confiança no “mercado”, como ente descorporificado singular, só existe em relação a certos mercados particulares – os autômatos que formam o corpo desses portos seguros.

Se há algo que a Covid-19 repetidamente nos mostrou é como a pandemia não afeta todos os corpos de maneira igual. E se há algo que pode nos ensinar é a parar de falar sobre o mercado financeiro global como um corpo único. A Covid-19 não afetou o mercado financeiro norte-americano como vem afetando mercados financeiros em economias emergentes como Angola. Em vez de insistirmos em análises que, produzidas por críticos situados no norte geopolítico, explicam por a + b como “o mercado financeiro sobrevive a crises”, é preciso fazer uma crítica a partir de mercados particulares situados em posições marginais no atual capitalismo financeiro. A antropologia, equipada que é com ferramentas para descrever como efetivamente funcionam mercados, seja dos autômatos em espaços controlados, seja da multidão nas ruas, tem um papel importante em mostrar a conexão entre os dois, em especial como entes descorporificados sencientes podem ter efeitos devastadores em mundos que ainda têm cores, sons, cheiros e calor.

HOLMES, Douglas. Economy of Words. Communicative Imperatives in Central Banks. Chicago: the University of Chicago Press, 2014.
MESSIANT, Christine. L Angola postcolonial: 2. Sociologie politique d’une oléocratie. Paris: Karthala, 2008.
SANTOS, Jaqueline. Em Angola, o estado de emergência é uma constante. Campinas: Centro de Estudos de Migrações internacionais, 2020. Disponível em: https://cemiunicamp.com.br/observatorio-no-25/
SCHUBERT, Jon. Working the System. A political ethnography of the New Angola. Ithaca; London: Cornell University Press, 2017.

(I) A pesquisa foi financiada pela Fundação de Amparo à Pesquisa de São Paulo (Processo Fapesp 2017/06642-5) como parte de um projeto mais amplo coordenado por Iracema Dulley intitulado “Processos de constituição de sujeitos em contextos africanos: diferenciações, iterações, interseccionalidades”.
(II) Cf. Acesso 12 de julho de 2020.
(III) Cf. Acesso 12 de julho de 2020.
(IV) Cf. Acesso 12 de julho de 2020.
(V) Acesso 01 de maio de 2020.
(VI) Cf. Acesso 26 de maio de 2020.