Então, pronto, tirou a festa da rua – Cachoeira (BA) na pandemia

Ana Clara Amorim e Maíra Vale
Cachoeira e São Carlos, 10 de Julho de 2020

Cachoeira é uma cidade antiga do Recôncavo Baiano cheia de histórias. Marcada por diversas festas ao longo do ano, povoa suas praças sempre com música e muita gente. A comemoração do aniversário da cidade, no 13 de março, chegou com a rápida resposta do governo da Bahia à Pandemia do Coronavírus no Brasil. Depois da festa, escolas foram fechadas, medidas restritivas de deslocamento tomadas e março foi anunciado com isolamento social. Era tempo de tirar o povo da rua.
A prefeitura de Cachoeira foi também decretando suas medidas. Como disse Marlene dos Santos, moradora da Faceira, “aqui em Cachoeira, essa cidade histórica, o prefeito está sendo uma pessoa excelente. Ele está se preocupando muito com a população, mas o povo que não se ajuda”. A figura do prefeito é rapidamente acionada, assim, para falar do combate à pandemia. Este combate é visto na antecipação de feriados, nas barreiras sanitárias pelas entradas da cidade, no uso obrigatório de máscaras, no toque de recolher, na mudança de horário do comércio – que passou a fechar às 13h, com exceção dos serviços essenciais – e da feira:

Outra coisa, o começo, até o meio, até eu mesmo disse: ‘eu vou para o rádio, porque tá demais’. Você chegava na fila, na fila de um banco, só encontrava 4, 5, 6 e olhe lá, de máscara. O restante, cadê? Nada. E eu disse, ‘não, como é que pode?” Aí o pessoal começou a reclamar, começou a levar até o prefeito aquilo que estava acontecendo, que não poderia estar acontecendo. Se era lei para um, era para todos. Aí então o prefeito decretou que se encontrasse alguém na rua sem a máscara, iria pagar multa.

Esta centralização positiva na figura do prefeito representa um quadro do pensamento de uma população que luta diariamente pela sua sobrevivência. As entrelinhas em detalhes dessas ações administrativas de controle da pandemia não aparecem aos olhos desse público. Sob a lógica de que há de se “ver” para “crer”, portanto, as barreiras sanitárias, restrições de circulação, boletins diários com os números dos casos, decretos proibitivos e reguladores já representam um volume de ações que aparecem aos “olhos do povo” como o poder da eficiência administrativa municipal. Mas há também quem possua uma visão mais crítica da situação, questionando publicamente as intervenções administrativas e uso dos recursos advindos do decreto do estado de calamidade:

Gente, tenho evitado me manifestar nos grupos para não confundir meu interesse na adoção de medidas de combate ao Coronavirus pela gestão do município de Cachoeira, com questões político-partidárias, mas inevitavelmente tenho que fazer alguns questionamentos:
O município já recebeu recursos para medidas de combate ao Covid19, mas até agora pouca ou nenhuma medida concreta foi adotada.
(…) Quanto o município efetivamente recebeu até agora para ações de combate ao Coronavirus, pois dados preliminares apontam mais de 3 milhões?
(…) Quais medidas foram adotadas na sede e zona rural.
(…) Quanto foi gasto nestas medidas?
(…) Quando chegarão os testes rápidos para a população?
(Vereador Pedro Rui) (I)

Ficamos com a dúvida de onde está todo investimento recebido pelo município, já que o que se visualiza de ação não tem sido suficiente. São grandes feitos, mas as cestas básicas anunciadas pela prefeitura ainda não chegaram para a população, não há hospital de campanha e o único hospital da cidade não recebe Covid-19. Para os casos de coronavírus é preciso atravessar a barreira sanitária e a ponte para chegar ao hospital da cidade-irmã, São Félix. Não basta, assim, governar por decreto. É obrigação do poder público garantir os recursos para que as pessoas cumpram a quarentena assegurando a essas uma renda mensal mínima que garanta o distanciamento social. A mesma lógica que coloca na figura de um político o efeito positivo de medidas básicas aparece nas conversas sobre o auxílio emergencial. A despeito da luta de diversos movimentos sociais para que fosse decretada a renda básica, contraditoriamente, ela é associada diretamente ao executivo, que o liberou apenas sob pressão mas ganha os “louros” finais pela execução orçamentária.
Junto com os decretos, a quarentena no país se alongou ao tempo de alcançar as próximas festas da cidade.
Maio foi deixando o cotidiano da cidade com amendoim, milho, licor, fogos e fogueiras à venda pelas ruas, apesar das medidas ainda mantidas pela prefeitura. Já estamos em clima de São João, alguns diziam na cidade. Apesar da doença que se alastrava, foi tempo de muita chuva e teve fartura de amendoim, milho, cana, laranja. Tudo barato!, disse o feirante Joelson Oliveira. Mesmo com os produtos juninos à venda e em bom preço, restava a dúvida com relação a uma das festas mais importantes do calendário anual de Cachoeira e do Nordeste, o esperado São João. Ainda em maio Joelson já lamentava:

O São João vai fazer falta porque é quando os familiares se juntam, se unem. O pessoal que mora fora, que tem aquele grande feriadão, que vem passar com a família no interior. Aquele forró, aquelas bandas, aquelas tradições de quadrilha. Essa parte folclórica que faz bem contato com a cultura da nossa cidade, da nossa terra.

O que a Pandemia fez foi tirar o São João da rua – disse Dona Marlene. Não se vê as ruas embandeiradas como todos os anos. Não há a programação de grandes shows na praça. Nem as estruturas da feira do porto à beira do Rio Paraguaçu sendo montadas. O clima de São João, no entanto, não se restringia a isso. A esperança em meio às restrições era de que, mesmo sem a festa na rua, o São João fosse possível como antigamente. Com fogueira, milho, amendoim e licor em família pelas diversas ruas de Cachoeira. Um São João dentro de casa, sendo casa não apenas a construção onde se vive, mas uma extensão da rua e do bairro onde se mora.

Diz que vai ser aquele São João antigo. Mas eu alcancei (…) esse São Joãozinho dentro de casa, na porta, sua mesinha, com a fogueira, todo mundo cantando: ‘a fogueira está queimando em homenagem a São João (…)’. E aí, ‘vamos pular fogueira para ser cumpade e cumade’, aí pulava. Eu mesma pulei tanta fogueira (…). Voltou tudo o que era antigamente. (…) Então, pronto, tirou a festa da rua. Que o povo ia para a rua, não fazia mais nada em casa. Mas agora o povo já está estocando coisa para o São João dentro em casa. (Marlene dos Santos)

E junho chegou com a trezena de Santo Antônio sendo transmitida pela rádio Olha a Pititinga. Não teve samba cheio de gente na capelinha do santo na rua que leva seu nome. Não teve a festa no dia 13. Mas teve reza e altar arrumado para renovar a fé do ano ao longo dos treze dias de homenagens.
Quando chegou o São João – o momento em que as pessoas pensaram que poderiam fazer a festa como antigamente, dentro de casa – bateu o pico da pandemia na cidade. Junho chegou também com o aumento de casos no município.
Ainda não era hora de fazer a festa dentro de casa. Mas as pessoas fizeram. A cidade estava cheia e engarrafada. Pessoas de fora alugaram casas e fizeram fogueiras.
Dispararam os números de casos.
Era para ser um São João de lockdown, mas o que Cachoeira viu foi seus moradores sendo contaminados. Em tempos de uma típica migração junina, o coranavírus deixou a capital, Salvador, em queda de casos e foi se interiorizando. A festa saiu da rua, mas foi para dentro das casas. E, para nossa tristeza, o corona foi junto.

(I) Texto extraído da página pessoal do Facebook de Pedro Rui, https://www.facebook.com/Pedro.Ruy.334, último acesso (10/07/2020)