O que acontece a um centro de arte em tempos de crise sanitária?
Como pensar a programação artística no “mundo pós-pandemia”?

Sophie Kaplan
Rennes, 1 de Julho de 2020

Na França, com a chegada do Covid-19, houve um confinamento total a partir de 16 de março de 2020, e um desconfinamento progressivo a partir de 11 de maio. No dia 1 de julho, data em que escrevo esse texto, o número de mortos pela Covid-19 na França era de 29.843, e de 511.851 no mundo. Vivemos desde o início da crise com o anúncio quotidiano do número de mortos, ao mesmo tempo real e sobre-mediatizado, como uma espada de Dâmocles sobre nossas cabeças. Atualmente as medidas sanitárias na França se flexibilizaram, mas o medo de uma segunda onda persiste.

A crise sanitária e suas consequências econômicas, sociais, políticas e íntimas me conduziram a refletir ainda mais sobre os valores, as crenças e as armadilhas não apenas do “sistema mundo”, mas também do mundo da arte em que atuo. Esses questionamentos influenciam minha maneira de imaginar o “depois” no centro de arte que administro, com tudo que esse esforço de projeção (de um futuro que, de uma certa maneira, aqui, já começou) contém de utopias.

Em março de 2020, quando tivemos que fechar o centro de arte e ficar em casa, estávamos montando uma exposição do pintor maliano Amadou Sanogo, que seria inaugurada no primeiro dia da primavera. Amadou Sanogo chegou de Bamako em 8 de março. Na semana de 9 a 13 de março, realizou oficinas em uma escola primária num bairro popular de Rennes e também pintou duas das telas da exposição. A situação era estranha: a rápida disseminação do Covid-19 ocupava todas as conversas e muitas eram as incertezas. Para Amadou Sanogo, muito mais acostumado que os europeus a situações de grandes crises sanitárias, nossas reações e nossos medos pareciam surpreendentes. Ele fez, aliás, desse espanto diante do nosso comportamento, o tema das pinturas realizadas em Rennes.

Amadou Sanogo, Minhas observações da situação da chegada do Coronavirus em Rennes (Março, 2020)
162 × 150 cm, acrílico sobre tela
Cortesia do artista e da galeria MAGNIN-A, Paris
Fotografia da obra: Benoît Mauras
Produção: La Criée centro de arte contemporânea, Rennes

Terminamos a montagem da exposição muito mais rápido do que previsto e conseguimos um lugar em um dos últimos voos em direção de Bamako, em 19 de março, para que Amadou Sanogo pudesse voltar para casa. Na sequência, tudo realmente parou. As visitas individuais e em grupo foram canceladas. Também foram cancelados ou adiados todos os outros projetos do centro: eventos, residências, projetos educacionais, etc. Teve início, então, um período de dois meses sem nenhuma interação física com o público.

O que acontece com uma exposição que não é visitada? O que acontece com os mediadores que não podem mais receber grupos? Com um responsável de montagem que não tem mais uma exposição para preparar ou para montar? Entre funcionários do centro, nos revezávamos para ir até local regularmente e verificar que tudo estava bem. Cuidamos, então, das obras adormecidas, mantidas longe dos olhares do público. Ficamos comovidos em encontrá-las, sorrimos para elas. Tomamos a medida de sua fisicalidade. E afirmo aqui com veemência: nada substitui o contato real com as obras, nossa relação com a arte não pode ser unicamente platônica (ou virtual, o que, a meu ver, significa a mesma coisa). Eu já sabia disso. Mas experimentar fisicamente a distância (e a presença) é outra coisa. E os visitantes, que começaram a voltar desde 26 de maio, não nos contradizem.

Amadou Sanogo, vista da exposição De paroles en paraboles, on se sert, La Criée centro de arte contemporâneo, 2020
Cortesia do artista e da galeria MAGNIN-A, Paris
Fotografia de Benoît Mauras
Produção: La Criée centro de arte contemporânea, Rennes

Tudo parou então. E ao mesmo tempo tudo continuou.
Passado o momento inicial de sideração e de reorganização no modo ‘teletrabalho’, o período de confinamento e o de desconfinamento progressivo foram períodos ativos para a equipe do centro.

Parte de nosso trabalho “confinado” consistiu em gerenciar a crise e suas conseqüências e, em particular, pensar em outras maneiras de dar corpo aos projetos que estavam em andamento, alternativas que foram definidas em conjunto com os artistas e parceiros.

Outra parte do trabalho consistiu em aproveitar o tempo liberado pela crise para examinar as obras do nosso acervo: classificá-las, mas também pensar em maneiras de colocá-las em valor. Percebemos, assim, que esse trabalho, essencial para a memória do centro de arte, merecia que lhe dedicássemos mais tempo. De fato, nosso acervo começa a ser considerável e ficou mais claro para nós que ele deve ser melhor explorado.

Finalmente, outra parte, essencial, do trabalho consistiu em refletir sobre as implicações dessa crise global sem precedentes. O que a crise fez e fará conosco? Como agir e reagir diante dela? Participamos de muitas trocas nas redes profissionais. Na d. c. a., uma rede nacional de centros de arte públicos, por exemplo, vários fóruns de discussão foram criados para trocar informações e refletir em conjunto sobre novos caminhos. As trocas eram, portanto, sobre práticas e políticas. Entre os temas discutidos: outras formas de vínculo com o público, o decrescimento ou desaceleração das atividades nos centros de arte, uma nova ecologia da arte nesse período de crise socioeconômica.

No La Criée, para mim e para toda a equipe, o período veio confirmar alguns pontos que já pensávamos, mas que agora acreditamos ser essencial implantar o quanto antes: afirmar outra relação com o tempo, com a sobre-produção, com a sociedade da comunicação; reafirmar a durabilidade em oposição ao efêmero; o qualitativo face ao quantitativo.

Trata-se, portanto, de uma tomada de posição profissional e de “cidadã global”, cujas linhas principais são as seguintes: continuar as parcerias com artistas e colaborares em projetos de longo prazo; diminuir o ritmo dos projetos; reduzir, assim, nosso impacto ambiental, sem diminuir nosso apoio aos artistas, remunerando mais, por exemplo, o tempo de pesquisa; pensar em projetos que respeitem o meio ambiente em uma articulação entre local e global que não seja, no entanto, sinônimo de fechamento sobre si; fazer melhor uso dos recursos gerados pelos projetos, cuidando da acessibilidade e buscando dar maior visibilidade ao acervo.