De modelo a toda Terra? Acompanhando a pandemia através de cores no Rio Grande do Sul

Caetano Sordi
Porto Alegre, 17 de Junho de 2020

Da varanda do meu apartamento, localizado em um dos cruzamentos mais movimentados da capital gaúcha, observo uma cidade que, não obstante o crescimento do número de novos casos e óbitos por Covid-19, parece retornar ao seu ritmo habitual. Tenho estado confinado em casa desde que a autarquia em que atuo determinou o regime de teletrabalho, na penúltima semana de março. No início, era tudo silêncio. Agora, mesmo com uma profusão de máscaras na rua, o movimento aumentou, e a viatura da Guarda Municipal que nos primeiros dias de quarentena passava anunciando a gravidade do vírus (“o vírus é real, ele pode matar, proteja sua família”), já não circula mais. Em minha última ida ao supermercado, reparei que o gigantesco banner sobre a pandemia que cobria um dos frontões do Palácio Piratini já tinha sido retirado. Talvez como sintoma, talvez como prenúncio, do conflito ora armado entre o governador Eduardo Leite e os prefeitos da Serra Gaúcha, que considero metonímico das disputas travadas e ansiedades vividas em torno da covid-19 no país.

Da bandeira laranja, que significa “risco médio” no modelo de distanciamento controlado adotado pelo comitê estadual de gerenciamento da pandemia, os 49 municípios agrupados na região serrana passaram para a bandeira vermelha a partir de 15 de junho, indicativa de “risco alto” e, portanto, de recrudescimento das restrições ao funcionamento normal da economia. O modelo está baseado, segundo informa o site montado pelo governo do estado (I), no cruzamento entre onze indicadores de duas grandes variáveis: velocidade de propagação da pandemia e capacidade de atendimento do sistema de saúde em cada uma das 20 regiões de monitoramento, definidas a partir de cidades-referência que possuam leitos de UTI. Sob a nova classificação, a indústria da Serra passa a ter de operar com 50% de sua capacidade, e o comércio, 25%. Os prefeitos e empresários da região, especialmente os dos municípios localizados no cinturão industrial que vai de Caxias do Sul a Bento Gonçalves, não tardaram em manifestar seu descontentamento. Afinal de contas, o eixo ítalo-gaúcho “do trabalho e da fé” não pode parar.


Classificação das regiões de monitoramento para covid-19 no RS para a semana de 15 a 21 de junho de 2019. A Serra Gaúcha, assinalada em vermelho, à nordeste. Fonte: Governo do Estado do RS. (II)

Em Farroupilha, cidade de 70 mil habitantes localizada a meio caminho dos dois polos, o jornal O Pioneiro informa que o comércio funcionou normalmente na segunda-feira (15), apesar das restrições. Consultado, o prefeito afirmou que “nós não estamos descumprindo [o decreto estadual], estamos contestando, é diferente”. O de Vacaria, ameaçou acionar o Supremo Tribunal Federal. Segundo ele, o problema seria de outros municípios, como Bento e Caxias. O seu, por estar mais distante dos novos focos de contágio, deveria ser incluído em outra região de risco, a ser criada a partir do desmembramento da sub-região dos Campos de Cima de Serra. Já na sub-região das Hortênsias, o prefeito de Gramado afirmou que a cidade, bastante impactada pela queda no número de turistas desde o início da pandemia, “não fez nada para merecer” tal tratamento pelo governador. Inovando nos adjetivos, completou que o município seria “um dos mais bem apetrechados na questão de vigilância sanitária e protocolos” (III).

O mal-estar dos prefeitos da Serra é suprapartidário. Há filiados ao MDB, ao PP, ao PSDB e ao PDT entre os descontentes. Os graus de proximidade com o presidente Bolsonaro e sua percepção de risco sobre a pandemia também são variados. No entanto, cabe notar que a Serra Gaúcha foi um dos epicentros da onda conservadora que alçou o bolsonarismo ao Planalto em 2018. Na pequena Nova Pádua, o atual presidente chegou a fazer 92,96% dos 2.308 votos, seu melhor desempenho em todo o país. Em Flores da Cunha, Bolsonaro alcançou 87,89%. Nunca esquecerei do dia em que, circulando pelos corredores de um shopping de classe média alta em Caxias do Sul, pouco antes das eleições, deparei-me com um stand de tiro no qual era possível alvejar com munição airsoft bonecos caricaturais dos presidentes Lula, Dilma e Temer. À plena luz do dia, entre uma compra e outra.

O governador Eduardo Leite, por sua vez, desperta sentimentos mais ambíguos que Bolsonaro. Ex-prefeito de Pelotas, está associado a outra região do estado, o extremo-sul, vista por muitos habitantes da Serra como “menos europeia” e cronicamente decadente do ponto de vista econômico. Além disso, Leite impôs uma fragorosa derrota a José Ivo Sartori nas eleições de 2018. Ex-prefeito de Caxias por dois mandatos, Sartori, que chegou a ser presidente do DCE da Universidade local nos anos 1970 e era ligado à ala progressista da Igreja Católica, concorreu no segundo turno de 2018 em uma aliança informal com Bolsonaro, denominada “Sartonaro”. Nesta época, circulavam memes homofóbicos contra Leite nas redes virtuais de apoio a Sartori, muito atuantes nos municípios serranos. Quando a pandemia chegou ao Brasil, estas mesmas redes fizeram circular o vídeo falso de um sepultamento. Supostamente, de imigrante senegalês vitimado por Covid-19 em Caxias do Sul.

A partir de meados dos anos 2000, muitos senegaleses e haitianos migraram para a Serra Gaúcha em busca de trabalho, o que alterou substancialmente o panorama racial da região, calcado na branquitude. Um contingente expressivo destes imigrantes iniciou sua vida laboral no Brasil em frigoríficos, conhecidos por sua insalubridade e remuneração irrisória. Hoje, estas mesmas plantas de processamento de carne têm se destacado como os principais vetores da interiorização da Covid-19 no Rio Grande do Sul. Inclusive, a mudança da bandeira de risco da Serra gaúcha foi em grande parte motivada por um novo surto da doença identificado no distrito caxiense de Ana Rech, onde 27 trabalhadores de uma planta da JBS testaram positivo para o novo coronavírus (IV).

Frente ao novo status epidêmico da “Itália brasileira”, circula agora nos “zaps” da região uma carta aberta ao governador, supostamente atribuída ao presidente do Sindicato de Caxias do Sul, em que este escreve que “não necessitamos e não solicitamos sua intervensão [sic] no gerenciamento da saúde municipal”. Após acusar Leite de ser inexperiente e só ter governado “comunas menores” (Pelotas possui cerca de 2/3 dos habitantes de Caxias), a carta termina exortando o prefeito a não acatar a classificação feita pelo governo do Estado, que seria “multicolorida, inadequada, aleatória e fora da realidade”. Para tanto, evoca o Artigo primeiro da Constituição Federal: “todo poder emana do povo e em nome dele será exercido”.

O modelo de distanciamento controlado é vendido pelo governo do RS como uma história de sucesso no combate à pandemia. Em artigo publicado no site Project Syndicate, Leany Lemos, secretária estadual de planejamento, explica a construção do modelo para o público internacional nos seguintes termos: “os líderes gaúchos divisaram uma estratégia para conviver com o vírus baseada em indicadores-chave, na consulta a especialistas e processos implementáveis, com total transparência”. Sem modéstia, conclui dizendo que “há lições para governos de países mais ricos, que ainda não desenvolveram um plano deste tipo” (V). Com efeito, considerando-se o descalabro da resposta federal à pandemia, há inúmeros méritos a serem reconhecidos no modelo gaúcho. Acatar a visão de especialistas e apostar na evolução de indicadores para modular a abertura da economia foi, sem sombra de dúvida, uma escolha sensata. Todavia, não deixa de chamar a atenção o tom autocongratulatório com que a secretária explica o modelo, que ressoa o proverbial bairrismo gaúcho e um conhecido verso do hino rio-grandense, epítome de tudo isso: “sirvam nossas façanhas de modelo a toda Terra”. Será mesmo?

Vejamos: a revolta dos prefeitos da região serrana; a resistência de parte da sociedade em travar o ritmo de uma abertura, para todos os efeitos, já iniciada (“é difícil pôr o gênio de volta na garrafa”, disse uma comentarista de TV); o forte crescimento do número de casos e óbitos nas últimas horas; a constante revisão da metodologia empregada para a definição das bandeira de risco, que coloca em cheque a própria acurácia do modelo (normalmente, após as queixas de algum agente político ou econômico). Todos esses elementos sugerem que ainda é cedo para cantar vitória a respeito do modelo de distanciamento controlado. Em outros termos, é possível que o sistema gaúcho de bandeiras, de esperado “modelo a toda Terra”, tenha, na verdade, mais lacunas do que gostariam de admitir seus formuladores, seja no que tange à sua eficiência em conter a pandemia, seja no que diz respeito à sua capacidade de produzir coesão e aderência social em torno das suas recomendações.

Por fim, há outro aspecto do modelo de distanciamento controlado que vale a pena ressaltar. Desde o aparecimento do novo coronavírus, nos acostumamos a acompanhar o desenvolvimento da pandemia por meio de projeções em curva. Sua incessante reprodução na imprensa e nas redes sociais tem conferido um novo sentido ao vocabulário técnico e às representações gráficas da epidemiologia. Assim, “achatar a curva”, até então uma expressão puramente estatística, transformou-se em um imperativo ético e político, pelo qual procuramos microgerenciar o comprometimento de cada um no respeito à quarentena. O sistema de bandeiras implementado no Rio Grande do Sul faz com que, ao menos por aqui, também acompanhemos a propagação do vírus de forma geográfica, a partir de um código cromático que ressoa outra classificação de risco bastante familiar a uma parte da sociedade gaúcha. Qual seja, o de condições do mar para banhistas, que vai do verde ao preto, passando pelo amarelo e o vermelho, indicando maior ou menor risco de afogamento (recentemente, incluiu-se também o roxo, que indica a presença de águas-vivas).

Por vivermos em um estado cuja costa possui poucos acidentes geográficos, frequentamos praias demasiadamente expostas aos elementos, assoladas por ventos fortes, tempestades e correntes violentas. Em trinta anos como frequentador do litoral gaúcho, foram poucas as vezes em que me recordo de ter avistado uma bandeira que não a vermelha, ou a preta, içada sobre a cabana dos salva-vidas. Em suma, além de “achatar a curva”, os gaúchos têm se empenhado, nestes dias epidêmicos, em “mudar (ou manter) a bandeira” das suas regiões. Prefeitos e gestores têm sido cobrados com relação esse objetivo. Como no caso das condições marítimas, entretanto, sabemos que se trata de um trabalho que envolve dimensões que vão muito além da força de vontade e capacidade de controle ambiental de cada indivíduo. Receio, neste sentido – e na esteira de movimentos como a revolta dos prefeitos -, que o “novo normal” epidemiológico no RS repita a mesma sorte das bandeiras na beira da praia. Ou seja, que vivamos a partir de agora em zonas geográficas quase sempre laranjas ou vermelhas. E poucas vezes, quase nunca, amarelas.

(I) Disponível em: https://distanciamentocontrolado.rs.gov.br/. Acesso em 17/06/2019.
(II) Idem.
(III) Disponível em: http://pioneiro.clicrbs.com.br/rs/geral/cidades/noticia/2020/06/como-prefeituras-da-serra-reagiram-ao-anuncio-da-bandeira-vermelha-12526985.html. Acesso em 17/06/2019.
(IV) Disponível em:.http://pioneiro.clicrbs.com.br/rs/geral/noticia/2020/06/testes-de-coronavirus-em-funcionarios-da-jbs-ana-rech-em-caxias-comecam-na-tarde-desta-quarta-feira-12526728.html. Acesso em 17/06/2019.
(V) Disponível em: https://www.project-syndicate.org/commentary/brazil-rio-grande-do-sul-covid19-exit-strategy-lessons-by-ngaire-woods-and-leany-lemos-2020-05. Acesso em 17/06/2019.