“Roupa suja lava-se em casa”: a Covid-19 e os rumores sobre a cura na Namíbia

Emiliano João
Campinas, 17 de Junho de 2020

O presente texto vem no entorno de percebermos a dinâmica da pandemia no contexto namibiano. Apesar da Namíbia apresentar-se como um dos países com menos casos da Covid-19 a nível da África Austral, vale a pena analisarmos o desenrolar de tal fenômeno, no contexto namibiano.

Assim como nos demais contextos, a Namíbia também adotou medidas de isolamento social. Começando com o lockdown, instalado a partir do dia 27 de março. Como forma de contenção do vírus as fronteiras e os voos internacionais foram fechadas. Embora não seja a região com mais casos confirmados – são 36 até o presente momento (17/06), sendo 19 recuperados e nenhum caso de morte – os namibianos adotaram as medidas rígidas para não atingirem números que não conseguiriam controlar.

A nível nacional pode-se viajar, mas as fronteiras estão fechadas; a circulação de bens, não de pessoas, continua. Máscaras são obrigatórias em todos locais sob risco multa de 2.000 Rands, o equivalente a 150,00 USD. Houve ainda uma distribuição maciça de álcool em gel Conforme nos descreve Aristide, amigo residente na Namíbia, “era possível encontrar álcool em gel em todos lugares. Poderia até sentir-se escassez de luvas, mas não de máscaras nem de álcool em gel”. Só por estas referências já vislumbramos algumas particularidades da dinâmica da pandemia em solo namibiano, diferenciando-se em relação aos demais solos africanos como, por exemplo, a vizinha Angola.

Atualmente a Namíbia encontra-se na fase 2 do estado de emergência. A vida tem seguido seu curso diante do novo normal: as pessoas já estão menos apreensivas, os serviços já voltaram, as fronteiras foram reabertas a nível nacional, alguns serviços estão a funcionar de forma limitada. O uso das máscaras passou a ser obrigatório, as lojas têm limite no número de acesso de pessoas e a previsão de termino do estado de emergência é agosto. Entretanto, esta diminuição na apreensão das pessoas não pode ser confundida com relaxamento. Sobre este isso, Aristide me contava: “há dias fui numa loja e acabei espirrando sem querer: as pessoas saíram correndo…quando observaram que estava de máscara, começaram a rir”. Isso reflete a consciência e a grande preocupação das pessoas mesmo diante do baixo número de casos.

Vale salientar, contudo, que o estado de emergência foi marcado pela desconfiança e pela crença de que os dados fornecidos pelo Estado não eram verídicos, e desconfiança aumenta ainda mais pela demora na apuração das análises. A ideia do estrangeirismo do vírus tem, de certa forma, reavivado a temática da xenofobia. Vale lembrar aqui que o primeiro caso a ser registrado foi de um casal alemão, seguido de alguns casos de namibianos que residiam na Inglaterra e outros provenientes da África do Sul. Com estas referências, tudo foi suspenso. Trata-se de de um contexto próximo ao da vizinha África do Sul, onde a questão da xenofobia é recorrente. Na Namíbia era impossível que a temática não viesse a tona.

É como se a pandemia revelasse os aspectos penosos de cada pais e se expressasse nos conflitos locais. Informado pelo contexto brasileiro, onde vivo, perguntei a Aristide sobre a possível racialização da pandemia na Namíbia – afinal trata-se de um país com uma significativa minoria branca. Com uma risada, Aristide me respondeu: “aqui não teve muito essa discussão porque o branco domina a economia e o negro a política”. Nesse contexto, a população foi beneficiada com um recurso proveniente do Estado de 750 Rands (50 USD) para sobrevivência. Foram ainda salvaguardados os salários das empregadas domésticas no período que ficariam sem trabalhar, precisando apenas de registrar-se no Ministério da Justiça para terem seus direitos resguardados.

O debate em torno da “economia” versus “vida” ganhou certa proporção na Namíbia quando da proibição da venda de bebida alcoólica, o que provocou protestos. Manifestei surpresa do que parecia um fato meio caricato, e Aristide disse: “Foi proibida a venda de bebidas alcoólicas porque acredita-se que aonde tem bebidas alcoólicas tem aglomeração e propagação do vírus […] Aqui bebe-se muito! Para teres uma noção, o normal é beber pelo menos um litro e a tendência é abraçarem-se, já que ninguém bebe sozinho”. Disto, desprende-se que a disputa não é precisamente a “economia” versus “vida”, mas antes possibilidade da vida comunitária e da reprodução de um ambiente festivo.

Mas é no campo das práticas terapêuticas que o contexto namibiano tem comprovado que os saberes locais não podem ser negligenciados nem menosprezados. Em conversa com um amigo sobre a tensão entre as medicinas ocidental e tradicional, escutei o seguinte: “Os médicos cá estão todos engajados em descobrir medicamentos, há rumores de já têm uma cura, que tem sido usada nas pessoas curadas, fruto da junção de saberes: curandeiros e médicos formais. Mas não foi ainda divulgado oficialmente, por não estar patenteada”. Indagando do porquê deste sigilo, já que é algo que poderia beneficiar a população, meu interlocutor me respondeu: “é como a violência, ao não passar na televisão, temos a sensação que não existe”. E insistiu no silêncio, pois, segundo disse, “roupa suja lava-se em casa”, deve-se evitar a divulgação massiva ou precipitada as coisas.