Pandemia na Alemanha: aspargos, Merkel e mais

Camila Kintzel
Berlim, 9 de Junho de 2020

Moramos em Berlim há quase seis anos agora. Somos uma família 100% brasileira de três pessoas (pai, mãe e filho de 12 anos). O filho fala alemão no dia a dia da escola e dos amigos, mesmo estudando em uma escola bilingue português-alemão. Os pais só usam o alemão para burocracias, compras e aleatoriedades. No trabalho, inglês e português, o mesmo com os amigos. Em casa, só português. Entendemos alemão para notícias e o dia a dia, não somos “os germânicos”. Isso é importante para indicarmos que temos um olhar estrangeiro sobre a pandemia aqui.

Com a chegada da doença, ficamos de olho nas notícias. Aqui não tivemos lockdown como na Espanha ou na Itália. O governo pediu isolamento, fechou estabelecimentos comerciais, repartições e escolas, mas podíamos sair à rua sem controle de policiais, desde que em grupos pequenos. 

Muitos nunca deixaram de sair às ruas, na verdade, em especial para caminhadas e outros esportes. Nós, sim. Ficamos realmente em casa, saindo apenas para supermercado e fomos duas vezes ao correio para coisas fundamentais de burocracia. Sim, os três em casa, 24 horas por dia, 7 dias por semana – saindo uma vez por semana. Ainda assim, meu filho ficou em casa mesmo nos dias de supermercado.
Sou profissional autônoma (redatora) e pude de cara solicitar a ajuda do governo para esse tipo de categoria. Foram 5.000 euros depositados na minha conta em uma semana. A organização e capacidade de dar suporte aos profissionais foi impressionante. Agora preciso declarar o recurso e o governo chegará a uma conclusão se devo devolvê-lo como empréstimo ou se esse dinheiro será considerado uma doação da pandemia. Isso ainda não está completamente claro para mim, mas ficará em breve. Cartas sempre chegam aqui, para absolutamente todos os assuntos. Então, não há com o que se preocupar em termos de comunicação.

Meu marido tinha terminado seu contrato de trabalho em novembro passado em uma empresa alemã e estava começando um curso de formação para recolocação, sempre subsidiado pelo governo. O curso tornou-se online e, hoje, ele passa 8 horas por dia conectado em um bootcamp de desenvolvedores web. Começa a haver uma discussão se os alunos devem começar a ir presencialmente às aulas no último mês do curso, mas ainda não há consenso.

Na escola do meu filho não tivemos aulas online. Foram 4 ou 5 tentativas, bem como foram enviados muitos materiais de pesquisa e pedidos de realização de trabalhos. Ele produziu bastante no começo e, desde do fim de maio, as aulas estão voltando. Ele tem ido duas vezes por semana para a escola e a turma é dividida em duas. Os 21 alunos na classe dele foram divididos por critérios linguísticos. Os alunos cuja língua materna é o português estão em uma classe (11) e os alunos cuja língua materna é alemão, estão em outra (10). Por uma escolha da professora titular, meu filho acabou na sala de língua materna alemã. O esquema segue o das das escolas bilingues daqui.
As aulas terminam no dia 25 de junho para as férias de verão e final do ano letivo. A impressão que os pais dos grupos que participamos têm é de que o governo está tentando manter um certo ar de normalidade para as crianças, não vai prejudicar nenhuma. O vestibular daqui está ocorrendo “normalmente”.

Nas compras, o mais trivial do cotidiano, foram muitas emoções. Nos primeiros dias sumiram o fermento biológico, farinha de trigo, leite, água mineral, papel higiênico, álcool gel, macarrão, molho de tomate e alguns enlatados. 

É importante dizer que aqui as pessoas não fazem compras para semana ou para o mês, não é o hábito. Todo mundo meio vai ao supermercado todo dia, compra o necessário do dia e pronto. Deve ter – especulação educada – relação com o fato de subir com as compras pela escada, às vezes muitos andares (prédios antigos, a maioria sem elevador). Aqui são quatro andares. Também com carregar compras a pé, já que carro é meio artigo desnecessário na cidade.

Decidimos optar por ter compras para 15 dias em casa. A explicação é simples: somos imigrantes, sem família aqui. Caso um de nós (ou os três) caia doente, precisaremos nos manter os 14 dias em casa. Não vamos conseguir manter distanciamento do doente em um apartamento com apenas um banheiro. Com isso, estamos sempre prontos para poder ficar sem sair por duas semanas. Isso fez com que as primeiras compras fossem bastante pesadas, o congelador e o armário ganhassem novas configurações e estocássemos o básico para esse período. 

Após 80 dias, o abastecimento dos mercados voltou à quase normalidade. Ainda sofremos da falta de fermento e as verduras e frutas não aparecem em tanta variedade. A temporada de aspargos, no entanto, foi preservada a custa da importação de trabalhadores romenos aprovada pelo governo alemão para a temporada de colheita.

A sazonalidade das culturas locais é assunto sério na vida alemã e, talvez, a temporada de aspargos seja realmente um divisor de água nessa mania. Os restaurantes só servem aspargos, eles são vendidos em supermercados, quitandas e também nas ruas. As revistas e TVs falam das mil receitas que podem ser feitas com aspargos. Tirando uma pessoa nesta casa, a menor, a cultura alemã de aspargos é muito reverenciada aqui. Meu filho prefere a morte a compactuar com esse traço cultural. 

Nas notícias, muito se falou do governo abrindo uma exceção no fechamento de fronteiras para os trabalhadores do leste europeu que vêm à Alemanha nesta época para a colheita de aspargos, morangos e outras frutas. Criou-se também uma lista de alemães voluntários para ajudar nas colheitas, mas com a abertura os mesmos trabalhadores de todos os anos voltaram.

Agora as restrições começaram a ser relaxadas. As lojas e restaurantes já estão abertos, assim como salões de beleza e até academias de ginástica. Ainda não voltamos a estes estabelecimentos, mas já começamos a sair um pouco mais. O tempo começa a ficar mais quente, o que é a principal razão para qualquer pessoa que mora no Norte da Europa começar a se mover. São apenas quatro meses por ano de temperaturas amenas, é fundamental tomar um pouco de sol para aguentar a nova onda de frio, que já começa em outubro.
Estamos ainda bastante curiosos para ver o que vai acontecer quando as aulas acabarem. Os alemães são um dos motores das férias na Europa. Com a economia mais forte e salários mais altos, são eles que ocupam grande parte dos hotéis e apartamentos de férias na Grécia, Croácia, Itália, Espanha e Portugal. É impactante ver publicidade sobre férias em retiros idílicos em locais mais isolados. Mas isso ainda precisa ser visto. Vi o movimento de três ou quatro casais começando o deslocamento interno, nas viagens para cidades menores. Turismo é algo realmente muito importante na cultura alemã. O Wanderung, que significa algo como o ato de vagar, é fundamental na identidade local. Assim, dos longos passeios por florestas ou paisagens ao turismo quase profissional em qualquer oportunidade, estamos curiosos com os impactos da Covid-19 nesse hábito. Ainda é cedo para dizer o que vai acontecer, já que a temporada começa mesmo em julho e vai até agosto.

Como imigrantes (apesar de eu e meu filhos termos a cidadania, ainda somos imigrantes), a impossibilidade de ir ao Brasil foi o mais complicado em termos emocionais. Isso junto com o medo de que algo passasse às nossas mães, as duas sozinhas na faixa dos 70 anos no Brasil (em Jundiaí e Curitiba), além de minha avó de 95 anos, ainda viva e lúcida. Esses foram os principais motivos de estresse aqui. Na verdade, com a situação no Brasil como ainda está, esse continua sendo um foco de estresse. Falamos diariamente com nossas mães, uma novidade, já que antes os contatos eram apenas semanais. Nisso, a pandemia ajudou na comunicação. Suprimos um pouco do efeito do contato social, que elas perderam. Assim, viramos o “alguém para conversar” e também para organizar compras online e dar assessoria em tecnologia. 

Meu filho sentiu falta dos colegas, mas tem uma vida online ativa e, sinceramente, foi zero motivo de irritação durante esse período. Parece que os pais alemães com filhos estavam reclamando bastante pela quantidade das matérias. Ah, vale dizer que as escolas de educação infantil (até 11 anos) mantiveram uma classe aberta para os filhos dos empregados essenciais, como médicos, policiais e trabalhadores dos mercados.

Aqui fizemos exercícios em casa para diminuir a quantidade de energia disponível  e, com os dois pais presentes, ele manteve alimentação saudável, séries e jogos e livros como assuntos familiares.  Com quase 13 anos, seu nível de atividade que depende dos pais é bem baixo, ao que nossa sanidade mais do que agradece. 

Não desenvolvemos nenhum hobby especial nem montamos qualquer quebra-cabeça, mas criamos hábitos novos, como assistir a uma série em família antes do jantar, se desafiar a fazer pratos mais complexos nos finais de semana. 

A primeira saída dos três sem motivo real foi no último domingo. Fomos andando até um parque próximo e nos metemos na floresta. Foi um passeio de cerca de três horas, com máscaras e todo distanciamento social possível. Começamos, bem devagar, a pensar em ter algumas interações, em especial ao ar livre e que não demandem transporte público.

Como brasileira, passar por esse processo longe de casa tem sido bastante surpreendente. Obviamente não são flores, é claro que a Alemanha acumula mais de uma culpa histórica, além dos anos de colonialismo e exploração de mercados mais frágeis, sem ilusões. Ao mesmo tempo, existe uma clareza na comunicação e uma abordagem humanizada para as decisões governamentais que chocam quem nunca havia passado por isso. Somos privilegiados por ver em primeira mão como um país lida bem, com responsabilidade, com uma pandemia global. Espero que possamos aprender essas lições para usarmos também no Brasil no futuro. Fico também  contente de poder dividir minimamente isso com vocês.

Vielen Dank!