Pandemia, violência e resistências nas favelas – Vidas Negras Importam?

Patrícia Lânes
Rio de Janeiro, 3 de Junho de 2020

Em 22 de maio de 2020, militantes de coletivos e movimentos de favela se reuniram na Cidade de Deus, Zona Oeste da cidade do Rio de Janeiro. Um dia antes, João Vitor Gomes da Rocha, 18 anos, foi morto durante uma ação policial no lugar, no mesmo momento em que uma organização local realizava entrega de cestas básicas. Dias antes (em 15 de maio), treze jovens haviam sido assassinados em outra operação policial, dessa vez no Complexo do Alemão. Naquele dia, soube da operação logo ao acordar; não pelo som do helicóptero voando baixo, nem por ver os blindados pela janela ou ouvir tiros. Soube de longe, do meu apartamento de classe média em um município vizinho. As notícias me chegavam pelas redes sociais, pelos perfis de pessoas de ações coletivas que conheci nos anos de trabalho de campo (2013-2015), quando as distâncias pareciam menores porque minhas idas ao Complexo eram mais frequentes. Desde aquela época, o aqui e o lá vêm sendo mediados pelas redes sociais e pela Internet móvel. A incorporação dessa dimensão de pesquisa e análise chegou através das pessoas que conheci que filmavam e noticiavam não apenas suas ações em tempo “mais ou menos” real (a depender da qualidade do acesso à Internet), mas também as arbitrariedades por parte de agentes públicos, sobretudo abusos de poder de policiais militares.

Acompanhava da janela do meu Instagram a organização local em diversas favelas para minimizar os efeitos da Covid-19 e a falta de resposta de gestores públicos. No Complexo do Alemão foi criado, em meados de março, um Gabinete de Crise. Formado pelos grupos Mulheres do Alemão em Ação, Coletivo Papo Reto e Voz das Comunidades, foi uma das estratégias realizadas para lidar com a pandemia e seus desdobramentos. Esses três grupos já participavam do Juntos pelo Alemão com outras organizações locais (Instituto Raízes em Movimento, Escola Quilombista Dandara de Palmares/ Ocupa Alemão e Educap – Espaço Democrático de União, Convivência, Aprendizagem e Prevenção). O Juntos pelo Alemão vinha se reunindo em diferentes momentos desde o final de 2013, quando as fortes chuvas fizeram muitas famílias perderem suas casas ou ter que abandoná-las às pressas devido ao grande risco de desabamento. A demora de resposta por parte de órgãos públicos e a insistência dos mesmos em saídas individuais e provisórias para a situação das pessoas desabrigadas levou a que um grupo de organizações e pessoas se reunissem para trabalhar em conjunto. Durante semanas, administraram coletivamente um abrigo, recebendo doações de roupas e comida, desenvolvendo atividades com as famílias e pressionando representantes do poder público.

Algumas dessas pessoas e organizações voltaram a agir em conjunto nesse novo momento crítico onde o estado, mais uma vez, não responde com a rapidez e intensidade esperadas. E quando informações desencontradas e contraditórias inundam o cotidiano seja por grupos de whatsapp seja na voz de autoridades públicas. Em março, essa rede de ações coletivas do Alemão se reconfigurou em torno da Covid-19 que impunha a necessidade de ficar em casa e novas formas de (con)viver em um contexto em que muitas pessoas (sobretudo as de setores populares) não podiam deixar de sair para trabalhar, outras não tinham água em casa todos os dias ou dinheiro para sabão e comida. A convocação foi feita por Camila Santos, moradora da Fazendinha e liderança da luta por moradia e do Mulheres do Alemão em Ação. Outras pessoas e ações coletivas entre as mobilizadas fizeram chamados para suas redes de fora e de dentro do Complexo: doações eram necessárias e urgentes.

Faixas foram feitas com os primeiros recursos recebidos e colocadas em lugares de grande movimento e circulação. Além disso, pequenos cartazes foram colados em postes, panfletos distribuídos e carros de som contratados para percorrer as 12 favelas do Complexo do Alemão, onde vivem cerca de 120 mil pessoas, com informações básicas sobre a importância de permanecer em casa (se possível), do uso de máscaras e higienização, além da necessidade daqueles(as) que tinham acesso à agua compartilharem com a vizinhança. Os pedidos de doações intensificaram-se e também o retorno em relação a elas, o que demandou uma organização ainda maior por parte do Gabinete, do Juntos e de outras organizações locais para cadastrar famílias e doações; separar, higienizar, organizar e distribuir produtos em cestas e kits.

Enquanto isso, fotos, vídeos e textos eram produzidos por elas e eles e compartilhados nas redes sociais, onde pessoas de diferentes lugares da cidade, do país e do mundo tinham acesso a essas imagens e informações. O Voz das Comunidades, por exemplo, possui mais de 60 mil seguidores no Instagram e Raul Santiago, um dos integrantes do coletivo Papo Reto, mais de 50 mil. Ambos são (re)conhecidos dentro e fora do Complexo do Alemão. As conexões e redes mobilizadas por eles, outras pessoas e grupos permitem que essas informações cheguem a muitos lugares dentro e fora das favelas do Complexo, dentro e fora dos movimentos sociais populares, dentro e fora de mídias comunitárias e comerciais.

Essas redes de solidariedade e formas de organização permitiram não apenas a mobilização de pessoas para doarem e de outras pessoas para se somarem ao trabalho de distribuição das doações, mas também no compartilhamento entre movimentos sociais de diferentes favelas. Uma parte das doações que chegam no Complexo do Alemão, por exemplo, pode ser distribuídas em Acari, revelando um reconhecimento de necessidades e urgências que ultrapassa a ideia de “local” ou de uma “comunidade” fechada em si mesma. As pessoas circulam pela cidade e pelas favelas da cidade, fazendo as doações circularem também. As informações circulam pela Internet. Redes de solidariedade são ampliadas. Formas de lidar com esse evento crítico são aprendidas, replicadas, adaptadas. As tecnologias criadas por movimentos sociais de uma favela também circulam e são experimentadas em outras. É o caso do painel com o número de pessoas contaminadas e mortas devido à Covid-19 pintado por grafiteiros do Complexo da Maré que logo ganhou versão no Complexo do Alemão. Ou, as contas para depósito de doações em dinheiro que passam a ser reunidas na mesma postagem e divulgadas coletivamente. Ou ainda, o uso das hashtags, que unificam ideias e demandas, revelando as informações que são organizadas por comunicadores(as) populares de diversas favelas e periferias e que se encontram em #Covid19nasPeriferias e #Covid19nasFavelas. Mas também em #JoãoPedroPresente. João Pedro Mattos Pinto, 14 anos, foi assassinado no dia 18 de maio no Salgueiro, em São Gonçalo, dentro de sua casa durante operação das polícias Militar, Civil e Federal. Ele foi atingido por um tiro de fuzil e levado de helicóptero. Sua família ficou sem notícias sobre o seu paradeiro até localizar seu corpo horas depois já sem vida no IML (Instituto Médico Legal) (I). Sua casa, onde foi morto, tinha 72 marcas de tiro.

Quando aquelas e aqueles militantes se reuniram no dia 22 de maio na Cidade de Deus para gritar por seus mortos, não faziam isso pela primeira vez. Não era a primeira vez que se encontravam na dor e na solidariedade. Aquelas e aqueles que estiveram juntos ali, que já estavam passando seus dias acionando parceiros externos para realização de doações, higienizando aquilo que era recebido, cadastrando famílias, percorrendo diferentes regiões das favelas onde vivem distribuindo cestas básicas e kits de higiene, pensando e realizando formas de comunicar para seus vizinhos o que acontecia e a necessidade das medidas a serem tomadas… essas pessoas pararam. Reuniram-se para falar mais uma vez das mortes causadas por essa outra violência estatal, dessa vez, nesse período de pandemia. Essa violência marcada pela crueldade, pelo racismo, pela falta de empatia, pela desumanização do outro. As ações policiais não pararam durante a quarentena. E, em maio, estavam ocorrendo também em momentos em que ativistas e voluntários percorriam as favelas fazendo doações. A nota pública escrita por elas e eles naquele dia, denuncia as operações policiais, a militarização dos territórios e as violações dos corpos:

Viemos por meio desta nota, mesmo ao limite de nosso esgotamento e forças, dizer que esta estratégia de morte não deve ser mais tolerada por nenhum morador ou moradora de favela, e que a sociedade de forma geral que também habita espaços de privilégio deve se levantar contra o estado racista que nos viola cotidianamente. (…) Não toleraremos mais nenhuma morte. A política de segurança do estado do Rio de Janeiro é um risco à vida física e à saúde, física e mental, de milhares de moradores e moradoras de favelas e periferias. Witzel, a culpa é sua! (II).

Assina a Frente Favelas na Luta. Naquele momento, George Floyd ainda não havia sido assassinado no EUA (III). Mas muitas pessoas já estavam gritando que não podiam respirar. Tanto lá, quanto aqui. Menos de dez dias depois (IV), voltaram a se encontrar fora da Internet e fora do contexto de doações. Dessa vez em maior número, com pessoas que apoiam a causa, com outros(as) ativistas, em conjuntura marcada pelas manifestações que aconteciam em diversas cidades dos Estados Unidos gritando mais uma vez que #BlackLivesMatter. Em inglês e em português, com ou sem hashtag: “Parem de nos matar!”, “Nossos mortos não serão esquecidos!”, “Nossas vidas importam!” e “As vidas nas favelas importam!”. O encontro Vidas Negras Importam no Rio de Janeiro foi convocado em caráter de urgência no último domingo de maio e reuniu dezenas de pessoas, em sua maioria mulheres e homens negros, em frente ao Palácio Guanabara, sede do governo do estado do Rio de Janeiro, o responsável pela política de segurança pública. Manifestantes de máscaras nos rostos buscavam manter espaço entre si. O tempo do ato foi limitado pelos(as) organizadores(as). Essas foram algumas das estratégias adotadas para que o protesto fosse realizado em meio à pandemia gerando menos risco de contágio. Aos que criticaram a opção pelo encontro presencial, a resposta foi precisa: “Saímos para as ruas porque eles estão vindo nos matar dentro de casa. (…) O recado que deixamos ontem nas ruas é de que não sairemos nunca delas enquanto nossas vidas forem alvos dessa necropolítica racista e genocida” (V).

(I) De acordo com dados do Instituto de Segurança Pública (ISP), ou seja, dados de órgão ligado ao governo do estado, foram 177 mortes “em decorrência de intervenções de agentes públicos, 43% a mais do que no mesmo mês no ano passado e o equivalente a uma morte a cada quatro horas.” A comparação tem como base dados referentes ao mês de abril e foram divulgados em reportagem de Júlia Barbon para o jornal Folha de São Paulo, em 26 de maio de 2020.

(II) Texto compartilhado por pessoas e ações coletivas de favelas do Rio de Janeiro em maio de 2020, grifos meus.

(III) Me refiro ao assassinato de George Floyd, homem negro, por sufocamento por um policial branco em Minneapolis, EUA, no dia 25 de maio de 2020. Enquanto era asfixiado, era possível ouvi-lo dizer “não consigo respirar”. O fato foi filmado e gerou grande comoção dentro e fora dos EUA, gerando manifestações e protestos intensos em diversas cidades do país e rearticulando denúncias e ações em torno da campanha/hashtag #BlackLivesMatter, em português #VidasNegrasImportam.

(IV) O ato aconteceu no domingo, dia 31 de maio de 2020, após dias de protestos e manifestações em diversas cidades estadunidenses.

(V) Frases de abertura e de fechamento de documento escrito pelos(as) organizadores(as) após o ato e divulgado na página “Favelas na Luta” no Instagram e em perfis de participantes do movimento nas redes sociais no dia 1º de junho de 2020.