El bestià e memórias da quarentena em Barcelona

Jordi Grau
Barcelona, 29 de Maio de 2020

I mentre em dedicava a la gran revolució amb els coloms va venir el que va venir, com una cosa que havia de ser molt curta.
Mercè Rodoreda. La Plaça del Dimant

No dia 14 de março, e como todos na Catalunha, me tranquei. Tenho 58 anos e moro num quarto andar de um antigo prédio do bairro de Gràcia em Barcelona, muito perto da Plaça del Dimant, imortalizada no romande de Mercè Rodoreda. É muito difícil viver em Gràcia sem tematizar a onipresença das pombas e há, inclusive, grupos de pessoas que pregam o seu extermínio: classificam-nas como ratos alados e responsbilizam-nas por doenças e sujeira. No meu caso, e desde pequeno, sempre fui simpático às pombas: ia com minha avó e minha mãe alimentá-las nas praças na cidade – uma alegria. Quando cheguei à adolescência, e já num momento em que os autores e autoras catalãs passavam, ainda que timidamente, a fazer parte das leituras obrigadórias na escola, as pombas me encantaram ainda mais, pois pensava em Natàlia, la colometa de La Plaça del Diamant. Nesta quarentena, Natàlia voltou a minha memória, pois uma das carterísticas centrais do romance é a descrição da sensação de afogamento da personagem nos piores dias da Guerra Civil numa Barcelona assediada pelos franquistas e bombardeada pelos italianos. Sem conseguir olhar para o futuro, sem um passado extraordinário, e pautando seus dias mais duros pela expectativa de conseguir ou não alimentar seus filhos, Natàlia encontrava suas pombas no telhado de seu pequeno edifício de Gràcia, onde havia um pombal.

No meu prédio não há um pombal, mas do quarto andar, numa pequena varanda de um apartamento minúsculo, passei parte dos meus dias de quarentena olhando para o azul do céu de Barcelona, para as pombas e gaivotas. Após as primeiras semanas, quando os dias passaram a ser pautados pelas idas ao super-mercado, por cantar e dançar o Duo Dinámico com seu Resistiré (que brega!) e por bater palmas para o pessoal da saúde na sacada, tudo começou a ficar mais triste e entendiante, e já não aguentava mais seguir os debates sobre a pandemia. Parecia que um travesseiro se aproximava da minha cara para me afogar, ou se aproximava da cara daqueles que foram classificados de “grupos de risco”, em especial minha mãe, minha única familiar gente, ainda viva e que vive só em outro pequeno apartamento no bairro de Guinardó. Não podia vê-la, apenas falar com ela por telefone e garantir que os seus vizinhos de escada lhe levassem as compras e os remédios necessários.

Mas não vivo só. Comigo mora Gripau, um pequeno cão bastante pelado que tem exatamente a cara de um sapo. Há muito Gripau é minha família. A intensidade de minha relação com ele ficou mais evidente durante a quarentena, pois já não havia os períodos em que ele ficava só, quando eu ia ao cinema ou saía com meus amigos e amigas, e muito menos momentos de impaciência de minha parte quando, entre uma coisa e outra, tinha que levá-lo para passear e fazer xixi e cocô. Na verdade, sair para que ele pudesse fazer xixi e cocô se transformou numa salvação quando os termos da quarentena ficaram claros para todos nós, e uma das únicas saídas permitidas era justamente para levar os cães para passear. As saídas com Gripau foram momentos únicos, e lhe serei eternamente grato. Mais de uma vez minha mãe me disse por telefone, “pelo menos você tem o Gripau… oxalá eu pudesse levar o canário para passear!”. Falar do canário é sempre uma forma de lembrar que, se um dia ela não atender o telefone, pode estar morta e eu devo me fazer cargo do canário. Há anos minha mãe tem um canário – por mais que insista que é maldade manter o passarinho dentro de uma gaiola. Sempre que morre um, ela consegue outro igual e lhe dá o mesmo nome, Café, embora ele seja amarelo. Se chama Café justamente porque é amarelo, como a seleção de futebol brasileira, da qual tem boa lembrança em 1982. E o café vem na Guiné, na Colômbia ou do Brasil. Minha mãe diz ainda que gosta de ter um canário pois ele a lembra de que está viva. Durante a quarentena ficou com inveja porque eu tinha a companhia de Gripau e, por causa dele, podia garantir um pouco mais de tempo na rua. No final da conversa diária por telefone, e de me fazer sentir culpado pela própria pandemia, suspirava e dizia: “Ah! Sorte sua que você tem Gripau…. eu não posso levar o Café para passear…”.

Gripau tem cerca de 10 anos, veio ainda pequeno viver comigo, em plena crise econômica iniciada em 2008. Mais de um amigo me disse que estava louco. Um cachorro! Em plena crise! Bom, pagava uma hipoteca pequena, havia conseguido manter o emprego com um corte salarial mais do que tremendo e achei que podia ter um cão, ainda mais um que me fazia tanta graça por sua cara de sapo. Ao longo destes dez anos não poucos vizinhos reclamaram de Gripau pois, no início, ele chorava quando eu saia para trabalhar ou para a balada e, sempre, latia quando eu voltava. As velhas que moravam no mesmo prédio olhavam com uma cara medonha quando eu descia os quatro lances de escada – não há crianças na escada e, além das velhas medonhas, Gripau provocava graça num casal de alemães do andar de baixo e indiferença de uns modernos locais (mas não de Gràcia) que conosco compartilhavam a escada. Na Catalunha nos acostumamos com as caras medonhas das velhas que reclamam o tempo todo de seus vizinhos. Me preocupa às vezes se minha mãe faz uma cara medonha para os seus.

Gripau foi durante todos estes anos, assim como todos os cães de Barcelona, objeto de múltiplos debates. É verdade que nas últimas décadas passear por Barcelona em alguns bairros implicava na possibilidade de topar com um sueco pelado ao mesmo tempo que era necessário olhar para o chão o tempo todo, dada a quantidade de cocôs de cães por todas as calçadas. Verdadeiros projeto de reeducação e urbanidade foram feitos no sentido de impedir a nudez dos nórdicos nas ruas e ensinar os companheiros dos cães a recolherem seus dejetos quando saíam para passear. Não poucas vezes tentei escamotear esta obrigação e me fiz de tonto, o que me custou umas quantas broncas e bate-bocas, uma briga com um guarda municipal e uma multa. Além, evidentemente, de caras feias para o coitado de Gripau, responsabilizado pessoalmente pelo cheiro das ruelas de Gràcia quando é evidente que o fedor era consequência dos bêbados que, sem conseguir ou desejar chegar num lugar adequado, mijavam pela rua mesmo. Pobre Gripau.

Mas durante a pandemia tudo mudou, e Gripau passou a ser super valorizado entre meus vizinhos de escada. Já não importava sua cara de sapo: virou um cão querido por quase todos (não pelas velhas medonhas). O casal de alemães passou a pedir todos os dias para sair para passear com Gripau, o que o deixava muito feliz. Os jovens modernos do andar de cima não o deixaram tão animado, afinal sempre haviam tratado Gripau como se ele fosse um pimentão, ou seja, com profunda indiferença. Era evidente para Gripau que eles queriam se aproveitar dele como uma espécie de salvo-conduto para bater perna.

No início Gripau estava muito animado mas, na medida em que a quarentena avançava, começou a ficar cansado de tanto subir e descer escadas e passear comigo, com o casal de alemães, com os modernos do andar de cima e com outros que surgiram do nada. O ruído da coleira não era tão animador, e não só pelo cansaço. Gripau começou a ficar francamente desconfiado. Evidentemente ele estava sendo usado por pessoas que nunca lhe haviam dado a menor intenção.

Além de minha mãe, muitos amigos que nunca gostaram de Gripau passaram a manifestar a inveja da sua companhia nos vários aperitivos virtuais. Amigos e amigas que quando vinham em casa reclamavam do cheiro de Gripau ou chegaram a ser inclusive ríspidos com ele (não sem serem duramente repreendidos por mim) diziam que gostariam de ter “um Gripau”. Foi necessário dizer uma e outra vez que Gripau só há um, aquele que me acompanha há dez anos e teve um comportamento impecável durante a quarentena, pautando o meu cotidiano muito mais do que o Duo Dinámico e, sobretudo, povoando meu dia de afeto. As relações com os seres conscientes se davam pela janela, à distância, ou virtualmente. Gripau ficou ao meu lado e foi ficando mais claro que nunca que sempre, e desde pequeninho, havia estado ao meu lado.

Mas passear com Gripau durante a quarentena foi também uma aventura. Ambos tivemos que redescobrir uma cidade esvaziada. Ir da Plaça del Diamant à Avinguda Diagonal era descobrir fantasmas nos quais nunca me havia fixado. Era impossível não pensar nas imagens que guardamos numa memória estranha de momentos que não vivemos. A Barcelona dos toques de recolher da Guerra Civil passou a aparecer fragmentariamente em minha cabeça. Claro, fragmentos. É certo que durante a Guerra Civil as pessoas cantavam, mas o resistir de então não tinha nada a ver com o “Resistiré” do Duo Dinámico.

Contudo, outra ansiedade passou a me perseguir: a possibilidade de me encontrar com javalis. Vídeos na internet mostravam javalís destemidos passeando pela Diagonal durante a quarentena, e sabíamos que eles eram personagens frequentes em alguns subúrbios de Barcelona nas últimas décadas – frequentes mas tímidos. Agora, encontrá-los nas avenidas centrais, e com uma atitude bastante abusada, seria uma imagem marcante deste cenário distópico da pandemia (quando chegariam os lobos?). Mas nunca encontrei nenhum. Ainda bem: Gripau teria ficado louco e, se fosse ao encontro do javali (Gripau não noção de seu verdadeiro tamanho) certamente teria sido partido em dois, algo, para mim, mais trágico do que a própria pandemia.

Assim, a pandemia só foi suportável e com momentos prazeirosos graças a Gripau. Sem ele, eu não seria eu, seria outra pessoa. Assim como Barcelona sem os pombos e sem as gaivotas seria outra cidade – é mais fácil imaginá-la sem turistas (como está agora). A quarentena acabou e todos vão saindo das suas tocas. Meus vizinhos já não têm interesse em Gripau.