Os Tempos de Salvador

Bruna Triana e Lucas Amaral de Oliveira
Salvador, 26 de Maio de 2020

Salvador parece estar em suspensão. Há cerca de dois meses, após o registro oficial de três casos, a prefeitura anunciou os primeiros decretos para tentar reduzir a propagação do novo coronavírus na capital baiana. Nas duas semanas subsequentes, outras medidas foram adotadas, pelos poderes públicos municipal e estadual – à revelia do governo federal –, determinando o fechamento de bares, restaurantes, comércios, shoppings, casas de shows, academias, templos e praias. Aos poucos, a cidade entrou em quarentena, da qual ainda não saiu.

A pandemia impôs à rotina um tempo excepcional. Desde então, rigorosamente, às seis da tarde, quando o sol esmaece no horizonte da nossa janela, a vizinha do andar de cima toca uma versão operística da canção “Ave Maria”. No início, o aparato sonoro chamou a atenção, à medida que ressoava, com uma potência desmedida, o repetitivo refrão para a vizinhança de uma das principais avenidas da Barra – bairro majoritariamente branco e de classe média. No primeiro dia, o “ato” nos surpreendeu: teria a vizinha colocado o som naquela altura “sem querer”? Ou ela queria apenas desviar as atenções do panelaço que, em breve, romperia pelo bairro? Ou seria, ainda, uma tentativa de imitar os vídeos que nos chegavam pelas redes sociais de pessoas cantando pelas sacadas europeias?

Nas primeiras duas semanas, questionamos a assunção da moradora de acreditar que todos ali se sentiriam confortáveis ouvindo o tenor italiano a glorificar a virgem imaculada. Em uma cidade em que as religiões de matriz africana são tão presentes, não seria no mínimo arrogante esperar que uma composição representativa para o imaginário cristão fosse aprovada por todos os ouvidos de uma vizinhança em isolamento? Haveria sentido nessa crença de que a oração à Maria seria bem acolhida por todos? Haveria ali uma expectativa de que a melodia pudesse ser capaz de provocar solidariedade ou comunhão entre os isolados que, vez ou outra, surgiam nas janelas? De início, observamos uma curiosidade tímida daquela gente que se atrevia a aparecer; mas logo vieram as palmas, às vezes frouxas, outras vezes mais entusiásticas, sempre a depender dos afazeres e humores dos transeuntes das janelas, varandas e sacadas. Alguns dias atrás, soubemos que o “ato” tem sido frequente em outros bairros da cidade (I), sobretudo os mais privilegiados.

Submetidos a um confinamento estrito, no começo, o “ato” nos causava incômodo. Hoje, ele já integra nossas rotinas: tornou-se medida temporal. Se um de nós pergunta, por exemplo, “vamos jantar?”, o outro já responde: “mas ainda nem tocou a Ave Maria”. As marcações do relógio, aos poucos, foram se esvaindo de sentido. E ousaríamos dizer que essa insólita lógica temporal não é uma especificidade aqui de casa, já que a súplica à Maria continua atravessando paredes, ouvidos e rotinas, religiosamente. Não se trata apenas de subjetividades que têm sido abaladas pelas imposições do momento; o próprio tempo, digamos assim, se remodelou em Salvador, revelando, de forma mais nítida, ser plural, contingente e relacional.
Vivemos em Salvador há menos de um ano. Mas não vivemos apenas em uma cidade. Vivemos nos tempos que a habitam. O tempo excepcional que hoje nos constrange não é a mesma temporalidade da Salvador que, no ano passado, nos acolheu. Quando mudamos para cá, notamos que uma das marcações comuns do tempo era o calendário festivo da cidade, internacionalmente conhecida como a “capital nacional da cultura afro-brasileira” e a “cidade mais negra fora da África”. Festas de Santo e de Largo prestavam homenagens a divindades católicas e aos Orixás: Santa Bárbara e Iansã, Senhor do Bomfim e Oxalá, Iemanjá, São João, entre outros.

As festas do Bomfim e de Iemanjá, que acompanhamos no início do ano, marcam esse tempo extraordinário, aglomerando multidões e mobilizando milhares de fiéis nas procissões quilométricas, em promessas, ritos e oferendas. Nessas ocasiões, o tempo ordinário parece ser suspendido com celebrações, encontros e fés, música, bebida, convivialidade e euforia. Um tempo modulado pelo sagrado. Nossa primeira impressão foi a de estar em uma “festa-cortejo-memória” em tudo diversa àquelas procissões cristãs que vivenciamos na infância e que, ao menos em nossas lembranças, pareciam sempre tristes e monótonas – nas quais a oração “Ave Maria” ressoava como trilha sonora.

Por sua vez, no tempo ordinário, o sol parecia demarcar os ritmos. Antes das cinco da manhã, era comum observar a movimentação ao longo da orla: de um lado, pessoas (majoritariamente brancas) correndo, caminhando ou nadando no mar antes do trabalho; de outro, pessoas (majoritariamente negras) saindo às pressas dos ônibus lotados, vindos desde os muitos bairros que integram as regiões metropolitanas do Miolo e do Subúrbio Ferroviário, arrumando as barracas, descendo as cadeiras e sombreiros para dar início à jornada laboral da “economia da praia” que tanto movimenta uma cidade como Salvador. Já o pôr do sol delimitava o happy hour de muitos bairros – mais privilegiados –, bem como o fim do expediente de um grande número de trabalhadores informais que vivem dessa economia.

Os tempos ordinário e extraordinário se cruzavam nos compassos da produção e reprodução do social, do trabalho e da festa. Isto é, tempo ordinário e tempo extraordinário se combinavam em alguns momentos, ainda de forma desigual: enquanto milhões dançavam atrás dos trios elétricos no carnaval, famílias inteiras acampavam durante dias a fio nas calçadas e ruas, com barracas de cerveja que abasteciam os foliões – afinal, a “economia do carnaval” pode garantir o sustento de famílias por meses. Salvador é uma cidade em que a intensa circulação de pessoas e a economia informal são fundamentais. Assim, mesmo que contingentes, os tempos por aqui são tempos desiguais.

Todavia, tanto o ordinário quanto o extraordinário da vida social estão, de alguma forma, suspensos, em decorrência da excepcionalidade imposta pela pandemia. O São João já foi oficialmente cancelado, e o carnaval de Salvador do próximo ano está ameaçado, conforme já informaram os governos estadual e municipal (II). A gestão dessa excepcionalidade fez acirrar as desigualdades sociorraciais, elevando ainda mais os altos índices de segregação urbana de uma das cidades mais desiguais e densamente populosas da América Latina. O descaso do governo federal, sobretudo em sua demora para pagar um auxilio emergencial de valor mínimo – mas que pode salvar vidas –, exacerba a situação de vulnerabilidade a que essas pessoas estão historicamente submetidas. Soma-se a isso a chuva, que castiga a cidade há mais de um mês.

Muito já foi dito sobre como o contexto de paralização pesa sobre grupos sociais mais vulnerabilizados, trabalhadores informais, subempregados e desempregados. A população que dependia da praia e das festas para sobreviver, por exemplo, se vê submetida ao paradoxo do isolamento: a necessidade vital de respeitar os protocolos de segurança e, ao mesmo tempo, sua impossibilidade material. Afinal, há aqueles que podem (e devem) se isolar, mas há aqueles subalternizados pela economia do tempo ordinário, para os quais o confinamento não é uma “opção” viável. Com os protocolos de isolamento, as interdições de praias e o encolhimento de espaços públicos, muitos precisam achar outras brechas para sobreviver.

Já faz dois meses em que estamos nesta suspensão desigual de tempos. Sob as restrições impostas por um isolamento irregular – tendo em vista o aumento recente da movimentação pelas ruas –, aqui na Barra, nossos fins-de-dia têm sido ocupados pela “Ave Maria”, tão dramática quanto altissonante. O pôr do sol, por sua vez, parece uma lembrança remota, hoje transfigurado pelas súplicas à uma virgem imaculada e a um céu que desaba uma chuva insistente, arrastando casas, desmoronando morros e lavando à força as ruas esvaziadas da cidade. Mais uma vez, os tempos mostram suas formas parciais de atingir e afetar a população, geográfica, social, econômica e racialmente. Assim, podemos dizer que os tempos ordinário e extraordinário da produção e reprodução do social acirraram desigualdades, tanto em suas medidas como em seus riscos: de um lado, os mais vulnerabilizados veem suas condições se agravando; de outro, os riscos às suas vidas aumentam à medida que procuram saídas para sobreviver à excepcionalidade do presente.

O tempo não é só parâmetro de medida ou variável independente, mas também uma construção social e cultural. Isso nos faz lembrar de Antonio Candido, que refletiu sobre o tempo como a “matéria imaterial” com a qual tecemos e transformamos nossas vidas, e não como uma medida de produção de valor: “Uma das coisas mais sinistras da história da civilização ocidental é o famoso dito atribuído a Benjamim Franklin, ‘tempo é dinheiro’. Isso é uma monstruosidade. Tempo não é dinheiro. Tempo é o tecido da nossa vida […]. Portanto, eu tenho direito a este tempo; este tempo pertence a meus afetos, é […] para conviver com meus amigos, para ler Machado de Assis: isso é o tempo. E justamente a luta pela instrução do trabalhador é a luta pela conquista do tempo como universo de realização própria. A luta pela justiça social começa por uma reivindicação do tempo: ‘eu quero aproveitar o meu tempo de forma que eu me humanize’” (III).

Os tempos são plurais, contingentes e relativos, ou seja, são quadros a partir dos quais as mudanças ocorrem. O tempo submetido ao viés da mercadoria, classificador e superprodutor, divide os poucos, que têm muito tempo, da maioria, que vende seu tempo por muito pouco. Assim, tempo é mais que sua estrutura rítmica, mensuradora de afazeres, sinalizadora de normalidades ordinárias e extraordinárias da vida social. Paradoxalmente, a desigualdade dos tempos e sua contingência em relação às imposições históricas deixam entrever que, neste contexto de isolamento, o tempo perdeu algumas de suas medidas, enquanto exacerbou outras.

Trancados em casa, diariamente à espera da próxima “Ave Maria”, continuamos a testemunhar uma cidade em suspensão. Nesse ínterim, fica uma sensação de insegurança junto à certeza de que os tempos jamais serão os mesmos. O ordinário e o extraordinário que tecem as nossas vidas certamente terão de encarar a iminência da exceção, sempre à espreita, seja no próximo surto epidemiológico, crise ecológica, estado de emergência ou calamidade pública. E, diante das desigualdades dos tempos de Salvador, talvez nos reste um paradoxo incômodo: de um lado, a crença de que não há pedido de salvação ou misericórdia à santa nenhuma que nos ajude neste momento, ou, de outro, de que uma das saídas possíveis seja justamente pedir intervenção e misericórdia divinas.

Praia do Porto da Barra, março de 2020. Foto: Lucas Amaral de Oliveira.

(I) Disponível em: https://glo.bo/2AT0F2s. Acesso em: 20/05/2020.
(II) Disponível em: https://bit.ly/2AMVZLm. Acesso em: 20/05/2020.
(III) Disponível em: https://bit.ly/36ons1M. Acesso em: 20/05/2020.