Nesse ano, não tem São João

Lívia Froes
Senhor do Bonfim/BA, 18 de Maio de 2020

Eu vivo entre. E em situações “não pandêmicas”, a estrada é companheira constante. Há quatro anos, saí de uma capital para viver no interior da Bahia. Uma história longa e cheia de curvas me fez chegar numa rotina de idas e vindas por estradas interioranas. Moro em Senhor do Bonfim, sertão norte do estado, onde atuo como professora de Sociologia do Instituto Federal Baiano. Também moro na zona rural de Lençóis, lugar onde semeio, com meu companheiro, um refúgio do caos, um lugar para experimentar outro tempo.

No início do semestre letivo, as notícias relacionadas à Covid-19 pareciam distantes de nós. Meus alunos, a grande maioria jovens, comentavam: “Esse vírus não chega aqui não, dizem que ele não sobrevive ao calor, ele não vai aguentar a quentura do sertão!”, e ríamos. Uma parte de mim buscava, nessa brincadeira, um conforto, uma ilusão de que o vírus não ia percorrer tantos quilômetros. Chegar no sertão? Não. Muito longe, muito quente. Na inocência, iniciamos nosso ano. Tivemos apenas quatro semanas de aulas. No meio do mês de março, recebemos, da nossa instituição de ensino, a instrução normativa instituindo a suspensão das atividades presenciais como medida de proteção à transmissão pelo coronavírus.

Enquanto os números de infectados e mortos iam crescendo nas capitais e cidades maiores, esse interior em que habito permanecia sem casos confirmados.

Uma semana após a suspensão das aulas e antes do arrefecimento do isolamento social na região, eu e meu companheiro decidimos ir ao nosso refúgio, na zona rural de Lençóis, cuidar das plantas e talvez dar um tchau temporário. A distância entre um local e outro é de aproximadamente 350 km. Habituei-me a realizar o trajeto sozinha, dirigindo, ouvindo música, apreciando a paisagem da caatinga, planejando aulas em minha mente, ansiosa para rever o amor que regularmente permanecia mais tempo por lá, nossas plantas, o rio, a serra.

Dessa vez, não pararia nos locais onde habitualmente abasteço, lancho ou almoço. Eu pensava em cada pessoa que já me reconhecia, nesse percurso, e como eles acompanhavam e vivenciavam essa situação.

Chegamos no nosso refúgio. Ficamos três dias. Ajeitamos os canteiros iniciados semanas antes e recolhemos as ferramentas. Era muito estranho não ter a certeza, não poder planejar quando voltaríamos. Retornamos à estrada. Normalmente, quando viajamos juntos, eu e meu companheiro conversamos muito. É na estrada que muitas ideias me surgem, trocamos, rimos, planejamos, sonhamos. Mas dessa vez, o silêncio. O silêncio, a paisagem e os pensamentos. Uma suspensão das ideias, dos planejamentos, dos risos. Todo assunto que me surgia, e também a ele, era relacionado à Covid-19, aos decretos de isolamento social, se as rodoviárias já estavam fechadas, se iríamos passar por alguma barreira sanitária. Era melhor silenciar. Foi, nesse momento, na estrada, que eu senti, talvez pela primeira vez, o peso da tristeza e a angústia da quarentena, das incertezas, da preocupação com as pessoas queridas, do sofrimento de tantos desconhecidos.

Chegando próximo aos municípios que antecedem Senhor do Bonfim, vimos as entradas das cidades com grades de contenção, cavaletes, barreiras. Era uma segunda-feira com cara de domingo. Após a publicação de um dos primeiros decretos municipais relacionados ao isolamento social na cidade, passamos algumas semanas com a sensação de viver num eterno domingo.

Desde então, uma série de decretos vai instituindo e moldando o ritmo e o fluxo de circulação das pessoas em Senhor do Bonfim, em especial, pelo modesto centro comercial: “fecha comércio, exceto os mercados, farmácias e demais serviços essenciais”, “abre todo o comércio, apenas algumas horas do dia”, “suspende feira livre”, “retorna feira livre, com bancas afastadas e feirantes usando máscaras”, “abre todo o comércio, mas todo mundo de máscara”, “fecha o centro da cidade para passagem de carro”.

Diariamente, um boletim epidemiológico é divulgado nas redes sociais oficiais da prefeitura (I). Até o dia 13 de maio, esse boletim informava o número de: “notificados”, “descartados”, “confirmados” e “em monitoramento”. Na Terra do Bom Começo (trocadilho/slogan da prefeitura municipal), o primeiro caso confirmado foi registrado no boletim epidemiológico do dia 14 de maio. Desde então, o boletim ganhou novas categorias: “casos notificados – SWAB/LACEN (II)”, “casos descartados – SWAB/LACEN”, “casos positivos – SWAB/LACEN”, “casos notificados – teste rápido”, “casos descartados – teste rápido”, “casos positivos – teste rápido”, “monitoramento”.

Ano passado, nesse mesmo período, a decoração da cidade para o São João já havia iniciado. Senhor do Bonfim é amplamente conhecido pelos seus festejos juninos e pela Guerra de Espadas (III), festa que ainda não tive a oportunidade de presenciar. Mas nesse ano, na capital baiana do forró, não vai ter São João! (IV)

Enquanto professora, sigo em trabalho remoto. Além das reuniões de colegiado, de núcleos de estudos, de projeto de extensão, leituras e demais atribuições, usualmente invisibilizadas da prática docente, enviamos, semanalmente, sugestões de tarefas aos estudantes. Tais atividades não são computadas como aulas. Dessa forma, a carga horária será reposta quando retornarmos às atividades presenciais. Felizmente, em nossa instituição, tem sido possível resguardar nossos discentes das desigualdades decorrentes da implantação da educação à distância que desconsidera as reais condições de acesso à internet e computadores de boa parte da população brasileira. Sem mencionar os efeitos nefastos que a adoção da EAD, de forma despreparada e imediata, pode acarretar no processo de ensino e aprendizagem. Temos acompanhado os desafios que diversos professores e estudantes vêm enfrentando no magistério superior, em algumas redes estaduais de educação pública e também no setor privado para se adaptarem às repentinas aulas online. Diversos artigos vêm abordando a sobrecarga física e emocional, em especial das professoras, muitas vezes, também mães, para dar conta dessa exaustiva nova rotina. Há de se questionar, portanto, os interesses implícitos (ou explícitos) do governo federal cuja Portaria de nº 343, de 17 de março de 2020, autoriza a “substituição das disciplinas presenciais, em andamento, por aulas que utilizem meios e tecnologias de informação e comunicação, nos limites estabelecidos pela legislação em vigor” (V). A preocupação é, de fato, com os estudantes?

Parte considerável de nossos educandos é oriunda de família camponesa. Em 2019, a convite do Zé Cláudio, meu aluno do ensino técnico integrado ao médio, tive a oportunidade de conhecer a roça de sua família, para comemorarmos seu aniversário de 18 anos. Muito feliz, nos recebeu e celebramos, embaixo de um formoso pé de Umbu, com vista para a potente vegetação da caatinga e para uma linda serra. Repetidas vezes, presenciei Zé Claudio agradecendo a oportunidade de estudar para ser formar Técnico em Agropecuária e afirmando que deseja seguir trabalhando na roça da família. Seu esforço e dedicação são notáveis. Assim como Zé Cláudio, cuja residência não dispõe de internet, nem sinal de telefone celular, existem diversos jovens, moças e rapazes, que sonham e desejam manter os seus estudos de forma justa, digna.
Recorrentemente, penso como será o retorno às aulas presenciais. Vou poder abraçar meus alunos, como sempre fazia?

À sombra do umbuzeiro – Quintal da família do Zé Cláudio – Igara/BA – Acervo da autora.

(I) Fonte: https://www.instagram.com/oficialpmsb/. Acesso em 16 de maio de 2020.
(II) SWAB: instrumento de coleta. LACEN: Laboratório Central de Saúde Pública da Bahia Prof. Gonçalo Moniz.
(III) Para saber mais sobre o festejo assistir ao documentário “Guerra de Espadas: :Tradição não se Apaga – Senhor do Bonfim-BA” de Biel Fagundes. Disponível no link: https://www.youtube.com/watch?v=aJxn-Rxg86w. Acesso em 16 de maio de 2020.
(IV) A Festa de São João, tradicional em diversas cidades do interior baiano (e também nos demais estados do nordeste), foi suspensa pelo governo do estado da Bahia. Fonte: http://www.bahia.ba.gov.br/noticias/rui-costa-anuncia-cancelamento-do-sao-joao-e-prorrogacao-da-suspensao-das-aulas. Acesso em 16 de maio de 2020.
(V) Sugiro a leitura do texto do professor Átila Menezes (UNIVASF), Precarização docente, EAD e expansão do capital na educação: correlações com a portaria nº 343/2020 do MEC em virtude da pandemia do COVID-19, disponível no Boletim 41 – Ciências Sociais e Coronavírus, da ANPOCS. Link para acesso: http://www.anpocs.com/index.php/ciencias-sociais/destaques/2356-boletim-n-41-cientistas-sociais-e-o-coronavirus. Acesso em 16 de maio de 2020.