Viração, confinamento e mercado de rua em Pétion-Ville

Jean Sergo Louis
Pétion-Ville, 17 de Maio de 2020

Os comerciantes em Pétion-Ville diante do Estado
É quinta-feira, 19 de março de 2020, mais um dia de trabalho e de escola que termina quando o Estado decide, na sequência da descoberta oficial de um caso de contaminação por Covid-19, anunciar a contenção total do país. A partir daí, as notícias e rumores bombardeiam as mentes e circulam nas redes sociais informações de todos os tipos sobre as decisões das autoridades e sobre a doença. Para alguns, a doença está de fato no país e talvez já existisse muito antes do anúncio do governo, dada a incapacidade do Estado de controlar efetivamente o território e suas gentes – como consequência, precauções devem ser tomadas; para outros, não se deve levar o governo a sério, a doença não está no país e o presidente mente, como de costume.

Diante de uma decisão tomada sem qualquer preparo prévio, qual a reação daqueles que vivem exclusivamente da rotina diária do comércio de miudezas? Nesta situação de confinamento inesperado, o que fazem os comerciantes dos vários mercados públicos do país para cumprirem com suas obrigações familiares quotidianas, sabendo que é do mercado que obtêm o poder de viver e de ter esperança? Especificamente, como reagem os comerciantes de Pétion-Ville à restrição de 3 dias semanais para as atividades comerciais? Quais são os comportamentos dos comerciantes para quem a própria vida se confunde com suas atividades diárias? Estas questões permitem-nos enfrentar as relações dos comerciantes dos mercados de Pétion-Ville na luta pela sobrevivência com as autoridades centrais e locais que pretendem conter a propagação da pandemia no Haiti.

A Câmara Municipal de Pétion-Ville decidiu tomar uma série de medidas para reduzir o contágio da doença nos espaços públicos da cidade. Os mercados são os espaços que reúnem o maior número de pessoas, e a ação para protegê-las é urgente. Uma destas medidas, como já dissemos, consistiu em limitar o número de dias de mercado a três (3) por semana, o que reduziria a contaminação, como repetiu o presidente da câmara durante o discurso em que anunciou a restrição. Ele foi claro que faria tudo para garantir o respeito a esta medida, numa menção especial à possível conduta dos comerciantes.
Os comerciantes protestaram vigorosamente lembrando não terem recebido nenhum apoio das autoridades, angustiados diante da recomendação de ficar em casa: como vão alimentar as suas famílias numa vida que supõe o abastecimento cotidiano – se perguntam diante da igreja de St-Jean Bosco da Rue Lambert? Quando a Câmara Municipal começou a interditar as ruas do mercado, um burburinho de raiva se impôs. Desde então, tem havido uma luta interminável entre os agentes da Câmara Municipal e os comerciantes nas suas estratégias de ação fora dos dias de mercado. Para demonstrar o seu descontentamento, incendiaram as vedações instaladas pelas autoridades.

Os comerciantes e suas estratégias de equidade fora dos dias de mercado
Com o propósito de contornar o controle da Câmara Municipal, os comerciantes utilizam várias táticas. Se viram. Todos os dias, nas zonas de mercado de Pétion-Ville, e apesar das proibições, há várias mulheres e homens em pé com alguns artigos que, discretamente, oferecem aos transeuntes. Dizem-lhe “se quiser mais, eu posso dar-lhe mais, basta pedir”. Assim, aquele que deseja comprar mais, deve segui-los até o local onde sua mercadoria está armazenada, ou simplesmente esperar alguns minutos, e o próprio comerciante traz os artigos desejados. Esta estratégia é implementada em quase todos os cantos da cidade, e passou a funcionar como um mercado alternativo.

No entanto, trabalham sob alerta constante, e assim que os carros de controle aparecem, eles desaparecem. Os primeiros comerciantes têm a obrigação de gritar alto e muito alto “roy yo pranm” para que os outros possam seguir o exemplo. Assim, o próprio transeunte que os procura para os comprar segue-os até o local onde armazenam os seus bens. Os agentes estão autorizados a apreender os bens e a prender os infratores. Por vezes, vemos comerciantes serem espancados por oficiais.
Os comerciantes se camuflam, têm os olhos em todo o lado, comunicando-se com os cliente e atentos aos agentes da Câmara Municipal. À menor aparição de agentes da autoridade, há uma torrente de correrias em todas as direções, comerciantes correm para evitar serem apanhados, pois as penas incluem prisão e multa.

No entanto, para além da atitude dos comerciantes que operam em alerta, há também o comportamento dos próprios residentes e não se prepararam para a nova situação, em que o mercado só funciona às terças, quintas e sábados de cada semana.

Os comerciantes andam agora pelas ruas, sentam-se em pequenos grupos e discutem a doença e, especialmente, a negligência das autoridades – como observei nas ruas Vilatte e Magny, parte do mercado que vende vestuário. Andam discretamente pelas ruas em busca de compradores.

Vigilância municipal e desenvoltura dos comerciantes
A fim de aplicar as decisões das autoridades, a Câmara Municipal decidiu encerrar a área do antigo Mercado Shadda. No lado norte, a partir do cruzamento das ruas Rigaud e Magny; no lado sul, a partir do cruzamento das ruas Rigaud e Grégoire; no lado leste, a partir do cruzamento das ruas Géfrard e Vilatte; e, finalmente, no lado oeste, a partir do cruzamento das ruas Lambert e Géfrard. Com o propósito de conter os mercados de rua que dominam o centro da cidade, as autoridades ergueram barreiras metálicas para cortar o acesso dos comerciantes a estes espaços.

Além disso, os agentes da Câmara Municipal estão equipados com camionetas e carros de patrulha com matrícula do Estado, um chicote longo e armas de pequeno e grande calibre. Assim, o Estado funciona perseguindo os comerciantes nos dias em que os mercado foram proibidos. O chicote é um longo cabo elétrico preto com o qual atingem os infratores, de acordo com as minhas observações à distância. Atrás da pickup e da patrulha, os bens apreendidos são empilhados e levados para a Câmara Municipal. Não vi e não soube se os comerciantes das mercadorias apreendidas vieram a reclamá-las. Diante da Câmara Municipal motoqueiros dirigem palavras insultuosas dos motoqueiros às autoridades, manifestando seu desagrado e exigindo que as autoridades deixem em paz estas infelizes pessoas que apenas tentam ajudar as suas famílias.

A vida cotidiana e a Covid-19
As família dos comerciantes da classe trabalhadora haitiana vivem no dia-a-dia. Eles têm de sair todos os dias para ir ao mercado e vender a sua mercadoria, a fim de obter algum lucro para trazer algo para casa. E isto é feito todos os dias, e, para alguns, mesmo aos domingos, sem dia de folga ou dia de descanso. O pequeno comerciante haitiano trabalha todos os dias para ganhar a vida – é a viração. É muito difícil restringir o cotidiano a 3 dias da semana, em Pétion Ville e, suponho, nas outras comunas do país. Como suspender a vida por quatro dias e restringi-la a apenas três? Como respirar três dias e prender a respiração nos restantes dias da semana?

Cumprir os três dias de mercados concedidos pela Câmara Municipal não me parece uma realidade fácil. Acaba-se por instaurar uma espécie de luta diária entre comerciantes e funcionários municipais. Enquanto o confinamento durar, as estratégias dos comerciantes dos mercados de Pétion-Ville serão reinventadas para contornar as decisões das autoridades. Para eles, o comércio é todos os dias, ficar em casa é percebido como algo impossível, e não poucos repetem que preferem morrer de coronavírus a morrer de fome, ficando em casa sem qualquer ajuda real das autoridades. É a vida que se debate aqui.