Um jogo complicado: sobre a Covid -19 na República Dominicana

Victor Miguel Castillo de Macedo
Campinas, 16 de Maio de 2020

A cada rodada um dos quatro participantes coloca sua peça. Violentamente elas são colocadas na mesa com uma velocidade tal que parece que os movimentos são concomitantes.

Eu poderia descrever, com essas duas frases, um jogo de dominó como é jogado nas esquinas e colmados (botecos) de Santo Domingo, na República Dominicana. No entanto, elas podem também servir para iniciar uma conversa sobre a situação do país diante da pandemia de coronavírus ou Covid-19. No momento em que este texto está a ser escrito, no dia 15 de maio, os dados oficiais informam que ao todo são 12.110 casos desde os primeiros em fins de março. Desses, 428 pessoas faleceram, 3.726 se recuperaram e 7.956 estão em tratamento (dados do Ministério de Salud Pública, Boletín Especial #58, 2020).
Acompanhando o dia a dia de meus amigos e interlocutores dominicanos, outros elementos aparecem, como jogadores dessa mesma partida de dominó. Eles não aguardam para lançar suas peças sobre a mesa. Tampouco parecem abalados pela disseminação do vírus. No que segue vou apresentar os três outros elementos – jogadores dessa mesa de dominó – e apontar alguns dos casos de maior vulnerabilidade no contexto desse jogo violento.

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Um dos jogadores, ligado ao coronavírus desde o início do jogo, é a violência estrutural com as classes populares na República Dominicana. Na análise publicada por Matías Bosch, no observatório da pandemia criado pela CLACSO publicado em 23 de abril, algumas dessas feridas e fraturas são expostas. Bosch tomou como base o pronunciamento do presidente Danilo Medina em que afirmou que a República Dominicana é uma grande família e anunciou uma ajuda financeira direcionada a mais de 5,2 milhões de dominicanos. Apesar da pergunta do texto ser um pouco ingênua “onde estava (antes) o dinheiro que será oferecido?”, ela leva ao que o próprio presidente Medina chamou em outro discurso, de “milagre econômico dominicano”. Um milagre que, como ressoa para nós brasileiros, vem acompanhado por notas de autoritarismo (com as devidas diferenças e características específicas). Entre a ajuda econômica e o sustento cotidiano já havia alguma distância. Mas essa dinâmica se complica. Com a campanha “Quedate en Casa” (fica em casa), e o toque de recolher (ou toque de queda) a partir das 5 da tarde, a quarentena teve um caráter altamente violento nos bairros mais vulneráveis da capital, em termos sociais e econômicos. Justamente aqueles que vivem da/pela economia informal e necessitam estar na rua por mais tempo sofreram, na pele, ataques violentos da Polícia Nacional. Desta, são alvos preferenciais aqueles de origem haitiana. Claro, havia os que estavam tomando sua cerveja em colmados, sentados em cadeiras na calçada – que também sofreram com o excesso de violência policial.

A esse jogador soma-se outro, o calendário político. No final de março, ocorreu a derrocada do partido até então com mais força na política dominicana – o Partido de la Liberación Dominicana (PLD), que perdeu a maior parte das seus ayuntamientos ou prefeituras, nas eleições municipais. Na sequência, no mês de maio, ocorreriam as eleições presidenciais que, devido à pandemia, foram adiadas para agosto. Ainda assim, o clima eleitoral não diminuiu por causa da Covid-19. As estratégias se modularam à situação e, para a oposição que ganhou ímpeto nas eleições municipais, tornou-se o momento de colocar seu principal nome nas ruas, o candidato a presidência Luiz Abinader, do Partido Revolucionário Moderno (PRM). Nas cidades em que este partido ganhou o pleito municipal, Abinader fez eventos para a distribuição de máscaras e/ou participou na higienização pública. Novas facetas de antigas táticas eleitorais. O mesmo pode se dizer do candidato Gonzalo Castillo, do PLD, que aproveita os enclaves e a capilaridade deste partido para ações de cunho semelhante. Considerando que para a maior parte dos países latino-americanos e caribenhos “estar na rua” é um fator primordial para qualquer campanha, a República Dominicana toma essa premissa com muita seriedade, uma vez que o fundador do PLD, Juan Bosch, perdeu as eleições de 1966 justamente por não sair de sua casa (eleição que, diga-se de passagem, definiu o rumo da política dominicana até o fim do século XX). A eleição presidencial de 2020 na República Dominicana pode ser o pleito que retire o PLD do poder, desejo de muitos dominicanos que assumem como sua a consigna “Se Van”. Enquanto parte da população sofre os efeitos diretos da pandemia, por falta de dinheiro, comida ou serviços, esses agrupamentos políticos se deslocam pelo país em busca de possíveis votos a seu favor. Espera-se que não levem consigo o mal-afamado vírus.

Outro jogador desse dominó produtor de violências e abandonos, é o incêndio no Vertedero Duquesa – ou, como diríamos em português, o Lixão Duquesa. Como se não fosse suficiente o vírus se espalhando pela metade da ilha que conforma a República Dominicana, desde 28 de abril dezenas de bombeiros se revezam para atenuar a fumaça tóxica que desce da região norte do distrito nacional em direção às regiões centrais da capital. Ainda não se sabe como ou quem começou o fogo, e tampouco a fumaça cessou. Curiosamente, no dia 19 de março, o cineasta José Maria Cabral postou em livre acesso o documentário “La isla de plástico” que inicia sua narrativa contando sobre o incêndio no mesmo lixão no dia 2 de abril de 2018.

Acompanhando com apreensão as notícias sobre a fumaça tóxica que afeta diretamente amigas, amigos e membros de minha família, através das redes sociais, chego à conversa de duas historiadoras dominicanas. A provocação inicial de uma delas sobre o terreno da Duquesa, coloca que as terras pertenceram ao filho de Cristóvão Colombo, Diego Colombo. Em 1522, o engenho hidráulico que pertencia ao herdeiro do navegante, então Vice-rei da coroa espanhola na ilha, se torna o palco do levante dos africanos escravizados. Entre detritos e dejetos se deita silenciosamente a história, feita fumaça tóxica que se esvai. A mesma fumaça rouba aos transeuntes sem abrigo, à população pobre da região em torno do lixão e aos moradores de rua da capital, o que Achile Mbembe chama de Direito de Respirar: “… aquilo que é a um só tempo fora do solo e nosso solo comum…”.

Fica a pergunta: o que parece estar fora do jogo? Outras vidas ou vidas outras, para a percepção de um Estado ajoelhado aos interesses internacionais e afeito aos impulsos autoritários. Haitianos e dominicanos de ascendência haitiana, apátridas que em sua maioria trabalham nos bateyes (plantações de cana), mas também na construção civil e no trabalho doméstico. Trabalhadoras e trabalhadores que, como aponta a organização Reconoci.do, são imprescindíveis, mas esquecidos. Do mesmo modo, muitos continuam sendo deportados para o Haiti, alguns deles sem nunca sequer ali terem estado. E assim o jogo segue, os ânimos se exaltam – jogadores com as melhores peças atacam a mesa fazendo com que ecoe o som da sua bravata. Mas, às vezes, há confusão no lançar da peça. A peça era outra, e esta se perde, está fora do jogo. Como se confundem as peças, nesse jogo morrem cidadãos e não-cidadãos. Haitianos e dominicanos, “ou quase pretos, ou quase brancos quase pretos de tão pobres…”