Crônica de um caos anunciado: a pandemia em Manaus

Fabiane Vinente dos Santos
Manaus, 11 de Maio de 2020

Via de regra, uma província tropical está, de certo modo, habituada à ocorrência de doenças que circulam, que aparecem e reaparecem, sendo esta uma das suas características mais marcantes frente ao processo colonial. A cidade de Manaus, Amazonas, convive desde sua fundação com surtos e epidemias. No século XIX, em pleno ciclo da borracha, varíola, tuberculose, malária e sífilis eram os grandes inimigos da nascente medicina social. Mais tarde, alguns destes perigos foram vencidos pelo arsenal de vacinas, medidas preventivas e antibióticos que a tecnologia sanitária disponibilizou, como é o caso da varíola, enquanto outros subsistiram graças ao ambiente propício repleto de vetores, sempre presentes no ambiente úmido e quente da floresta, como é o caso da malária, uma doença oriunda da África equatorial que se espalhou por vários lugares do mundo através das navegações comerciais e que persiste na Amazônia, com a ajuda dos mosquitos que se tornaram seus transmissores perfeitos, desafiando sanitaristas há séculos.

À medida que os métodos diagnósticos avançaram, novos patógenos tornaram-se conhecidos na região como a aengue e, mais recentemente, a chikungunya e o zika vírus. Talvez isso explique a frieza e certo desdém com a qual a população de Manaus recebeu a notícia da pandemia da Covid-19, uma doença estranha de um país distante que provavelmente não chegaria a se personificar na ensolarada Manaus. Teve gente dizendo que o vírus não sobreviveria ao calor da região. As pessoas tinham experiências anteriores que lhes permitiam pensar desta forma, afinal, o cólera, que causa surtos periódicos na fronteira do Brasil com Peru no alto rio Solimões, foi barrado pelas águas ácidas do Rio Negro mais de uma vez, não entrando no resto do estado do Amazonas (mais recentemente, houve um surto no final da década de 90 e outro em 2014). A natureza, a mesma que nos presenteia com tantos mosquitos, piuns e outros insetos vetores de doenças, também eventualmente pode proteger os habitantes de outros agravos. Mas este foi um cálculo equivocado no que diz respeito à Covid-19.

Ironicamente, entre os primeiros casos de Covid no estado, dois eram de pessoas ligadas à saúde: o diretor da unidade local da Fundação Oswaldo Cruz, meu chefe, infectado durante uma viagem de trabalho à Espanha; e um médico, infectado durante uma ação filantrópica na qual um grupo de médicos estrangeiros vieram ao Amazonas realizar cirurgias de cataratas em idosos no município de Parintins.

Manaus é uma “cidade-estado”, concentrando recursos e capital, deixando o interior a sua própria sorte. Daí o êxodo rural, estimulado pela ausência de políticas públicas para os interioranos e que faz com que a capital tenha quase 70% da população do estado. O Amazonas possui estradas apenas para poucos municípios próximos à capital e os demais só são acessíveis por via fluvial ou aérea. Por isso, viver no interior do Amazonas é arriscado: não há um único leito de UTI e apenas alguns respiradores. Os primeiros casos de Covid-19, detectados em municípios próximos a Manausm contaram com uma UTI aérea para o deslocamento até a capital. Mas isso durou muito pouco, porque os casos rapidamente viraram dezenas. Logo, as remoções foram desestimuladas, uma vez que, ao chegar, não se conseguiam vagas. Os hospitais ficaram lotados e as UTIs eram insuficientes.

Um vídeo começou a circular no WhatsApp: uma mulher, amparada pelos filhos e pela motorista, que se identifica como de aplicativo, é retirada do carro desmaiada. Os filhos gritam pedindo socorro. De dentro do prédio trancado, um hospital improvisado recém-inaugurado pelo governo, algumas pessoas, em trajes de contenção, observam a cena sem expressar reação. O vídeo é curto, mas muito angustiante e comovente. Os funcionários enfim ajudam a trazer a mulher para dentro, mas antes repreendem a família, explicando que os casos de Covid-19 devem primeiro ser levados às unidades de saúde. O vídeo causa revolta e frustração. Expõe o abandono da população e seu desespero.

Mas ainda há aqueles que relutam em aceitar a pandemia como um fato. Boatos sobre caixões vazios ganham as redes sociais enquanto os cemitérios, assim como os hospitais, também entram em colapso. Fotos das covas coletivas, abertas com retroescavadeira no barro vermelho do Cemitério do Tarumã, estampam os jornais do mundo todo. Recebo fotos do cemitério pelo WhatsApp. Os coveiros não dão conta de abrir tantos túmulos. Como chegamos nesta situação em menos de dois meses? Mais de uma família teve que abrir a cova de seus entes queridos. Em questão de dias qualquer cuidado ou solenidade que marca a relação dos vivos com seus mortos é abandonada: as cruzes de madeira, tantas, feitas às pressas e em série, não resistem às chuvas que começam a ser torrenciais neste período. As covas estão todas misturadas, sem muita ordem. Mortos produzidos às pressas e em série, assim como suas cruzes. Há relatos de corpos trocados, o que faz com que as famílias ignorem o protocolo da pandemia e abram os caixões para se certificarem de que estão prestando suas homenagens a um parente e não a um estranho. Como os velórios não são mais permitidos, as funerárias não tratam mais os corpos, que são colocados nos caixões lacrados com todos os órgãos e fluidos. Ao reabrirem os caixões, o cheiro de carne em decomposição domina um ambiente já decrépito.

O governador atual é um novato na política e muitos atribuem a isso sua inabilidade para lidar com a crise. Apresentador de TV de um dos programas que se convencionou chamar de “mundo-cão” numa emissora local, foi eleito no primeiro pleito em que participou, desbancando um veterano “cacique” que se revezou entre o governo do estado do Amazonas e a prefeitura de Manaus ao longo de 40 anos, uma tradição na política local. Provavelmente o velho político retornará e será eleito novamente se estiver em condições de se candidatar nas próximas eleições. Manaus não se livra facilmente de seus “coronéis”.

O governador não fala em lockdown quando é cada vez mais claro que esta seria uma medida necessária. Ele não deseja se indispor com empresários locais nem com as empresas do Distrito Industrial, uma das expressões do capitalismo internacional no nosso estado. É cada vez mais claro que a classe política resolveu pagar-pra-ver: os números dizem que a letalidade da doença no Amazonas é a quarta maior do país: enquanto que no Brasil é de 6,4%, em Manaus é 8,5%. A subnotificação é notória: os registros oficiais dizem uma coisa enquanto os cemitérios dizem outra; em abril de 2019, 174 pessoas morreram por “doenças respiratórias”. Este é um período do ano em que estas infecções são comuns, porque é o início do inverno amazônico: saímos de um clima de calor intenso para um extremamente chuvoso, a temperatura cai alguns poucos graus e as chuvas deixam tudo mais úmido e abafado. Crianças e idosos sofrem com gripes, rinites e todos os agravos relacionados à mudança de clima. Em 2020, porém, este número saltou para 1.181 mortes. É óbvio que a Covid-19 tem relação com isso, mas sem testes estas pessoas não serão colocadas nas estatísticas da morte pela doença, cujo número atual é de 751.

Hoje saí para ir ao supermercado do outro lado da cidade. É um mercado de atacado e os produtos são bem mais baratos. Decidi comprar lá porque a inflação, até então adormecida pelo baixo poder de compra da população, despertou furiosa, deixando tudo mais caro. Meu salário não consegue pagar o que eu pagava antes. Me senti como se me preparasse para a guerra: sapatilhas de plástico, máscara de pano que comprei esta semana e um blazer de tecido sintético, que usava para fazer exercícios, mas que agora serve para proteger meu corpo, que tento manter o menos exposto possível. Na volta fiquei impressionada com a quantidade de gente nas ruas de dois bairros próximos ao meu. São dois bairros populares: Redenção e Alvorada, onde muitas mortes ocorreram nos últimos dias, mas isso parece não amedrontar ninguém, pois o comércio estava aberto, as pessoas circulavam normalmente e observei o início de engarrafamento numa das vias principais. Antes de chegar a minha casa, um motoqueiro agonizava na avenida principal do meu conjunto, protegido por três viaturas da Polícia Militar. Nenhuma ambulância à vista. Penso que ele esperou muito, porque as ambulâncias estão cada vez mais raras, com muitas ocorrências para atender. Muitas ficam horas com as pessoas dentro, do lado de fora dos hospitais, esperando “uma vaga” abrir, ou seja, alguém morrer, para que a pessoa tenha acesso a um leito. Daí vem o medo que acomete qualquer pessoa que more em Manaus, pobre ou rica: não precisa adoecer de Covid-19 para correr o risco de morrer. Basta sofrer um acidente, ter um AVC ou simplesmente cair no banheiro e precisar de algum suporte de vida: você provavelmente vai morrer porque os hospitais estão sobrecarregados.

Penso que as pessoas decidiram simplesmente não tomar conhecimento da Covid-19, apesar de toda a disponibilidade de informação. No caminho do supermercado não vi nenhum outdoor que não tratasse do vírus. Talvez as pessoas tenham decidido não se importar e manter uma suposta normalidade. Mesmo assim, é inegável que algo mudou nos comportamentos cotidianos, e não foi só o hábito de usar máscaras. Por aqui, valoriza-se muito o contato físico. Nos abraçamos com muita frequência e, quando nos encontramos, damos três beijos, se temos intimidade ou não (“três pra casar”, se diz aos estrangeiros não habituados). “Caboco fala pegando”, é uma frase dita em tom de brincadeira para justificar o fato de que o toque é uma instituição social. Pegamos nas pessoas o tempo todo, estranhas ou conhecidas: ao falar, ao pedir informações, ao elogiar. Por isso dá para ter uma ideia do sofrimento que foram os primeiros dias das medidas restritivas, com seu protocolo de evitar qualquer proximidade física. Lembro de ter ido ao Largo São Sebastião, um dos lugares que mais gosto da cidade, antes das medidas restritivas se tornarem uma urgência, e passei pelo sebo que frequento, para negociar uns livros. O dono, meu amigo de longa data, estava perplexo com uma freguesa que passara por lá um pouco antes. Ela recusara o aperto de mão e oferecera o cotovelo para cumprimenta-lo. Depois dele me contar o “causo” e de algumas risadas, acabamos nos despedindo com uma cotovelada, em tom de brincadeira. Algumas semanas depois aquele gesto já não parecia mais engraçado. O sebo teve que fechar em função das restrições e eu não tenho mais coragem de sair para caminhar pelo Largo.

O presidente da república que nega a epidemia e estimula aglomerações em manifestações bizarras de “apoio” a ele próprio foi bem votado em Manaus, onde possui muitos seguidores. Apesar da crise generalizada, boa parte das pessoas continua apoiando o presidente. Os efeitos da crise econômica já se faziam sentir antes mesmo da chegada da Covid-19, com o aumento vertiginoso do subemprego: uma legião de trabalhadores informais de aplicativo, além da profusão de igrejas evangélicas, algumas delas dirigidas por políticos da chamada “bancada BBB” do Congresso: Boi, Bala e Bíblia, a união de políticos ruralistas, armamentistas e evangélicos, o suprassumo da direita tropical. Os representantes locais desta classe, que dominam os parlamentos estadual e municipal, aprovaram esta semana que igrejas estão incluídas no rol das “atividades essenciais” e poderão abrir e receber pessoas normalmente. Este é um ano eleitoral e os pastores não podem perder a influência sobre seus rebanhos, mesmo que isso custe a vida de mais algumas centenas de pessoas.

O argumento de que a pandemia acomete ricos e pobres igualmente cai facilmente por terra em Manaus. As pessoas que diariamente são fotografadas nos cemitérios enterrando seus familiares são trabalhadores simples, pertencentes aos bolsões de pobreza das periferias. Bairros inteiros que surgem da noite para o dia, derrubando a floresta e sediando anos de moradias insalubres, sem água, esgoto ou energia elétrica (a não ser as ligações clandestinas) até que algum político em campanha aprove escolas, linhas de ônibus e regularização fundiária em troca de votos. Cada novo bairro torna-se rapidamente um curral eleitoral. São pessoas vindas do interior do estado, de outros estados da federação, especialmente Maranhão e Ceará, e até de outros países, como Haiti e Venezuela. Quando o vírus ainda pontuava com poucos casos as estatísticas oficiais, o governo do estado realizou a expulsão de milhares de pessoas de um desses bairros improvisados, chamado “Monte Horebe”. O governo cedia a uma pressão de setores da elite preocupados com a invasão sistemática de terrenos. Pessoas locais e também muitos imigrantes, sem condições de pagar alugueis, viram-se da noite para o dia sem ter onde morar em plena pandemia. O Estado providenciou alguns alugueis-sociais, mas, em geral, esta modalidade de auxilio não dura mais do que três meses. Comunidades indígenas urbanas também causam preocupação. O Estado brasileiro não possui uma legislação que garanta políticas públicas para indígenas que não esteja em suas terras demarcadas. Logo, não há uma abordagem para estas comunidades urbanas.

A Covid-19 parece apresentar um certo padrão ali onde chega: colapso dos sistemas de saúde e subnotificações pela velocidade do contágio são os principais. O colapso dos serviços funerários e de defesa civil são correlatos quando se perde o controle ou pelo menos qualquer direcionamento. Isto aconteceu no Equador e na Itália e está acontecendo em Manaus. As razões, porém, são diversas nestes três lugares. Em Manaus, arrisco dizer que o descontrole que levou a esta situação surreal tem suas origens na combinação de vários aspectos da experiência política brasileira contemporânea como o negacionismo científico, o fundamentalismo religioso e o apego a uma ordem de pensamento que abdica de qualquer responsabilidade pelo coletivo em prol do individual. Não percebo qualquer reação da população em questionar esta situação até o momento.