A pandemia e a experiência judaica ultraortodoxa na Europa e em Israel

Michel Gherman
Rio de Janeiro, 11 de Maio de 2020

No dia 10 de março de 2020, a jornalista Rina Matzliah chega ao trabalho na Rádio Gaalei Tzhaal, a maior rádio pública de Israel, propriedade do exército e uma referência em termos de informação e cultura do main stream israelense. Naquela manhã em que Rina chegava ao estúdio da rádio eram ainda dias do início do Coronavirus em Israel. Naquele momento havia poucos casos no país, a Covid 19 estava apenas no horizonte e as noticias da doença na Europa chegavam ainda truncadas e pouco claras.

Ainda não havia, no dia 10 de março, mortes em Israel, mas já recebíamos notícias de pessoas internadas e, como em uma máquina do tempo, escutávamos sobre a situação da doença na Itália e na Espanha e entendíamos o que aconteceria em Israel em breve. Em algum sentido, em Israel nos preparávamos para o que seria o mundo a partir de então.

Estávamos todos em uma espécie de “Não Lugar” nos termos de Marc Augé. Caminhávamos em direção a um calendário em branco, onde as datas e os eventos fundantes ainda estavam por ser escritos. Em algum sentido a luz do coronavirus nos esperava adiante, nos cegando e colonizando para um caminho que desconhecíamos completamente, mas que já nos dominava. Nossos dias eram marcados por ontem, pela história conhecida e pelos caminhos trilhados, mas o futuro era desconhecido e nos assustava.

Rina Matzliah chegava ao trabalho vinda de Tel Aviv, do norte da cidade. Para chegar em Yafo, espécie de bairro de origem árabe-palestina ao sul, Rina teve que cortar Tel Aviv. Em anos anteriores seria um problema cruzar a cidade toda no final da noite naquela data. Acontece que nos dias 9 e 10 de março de 2020 se comemorava, pelo calendário judaico, o dia de Purim.(I) Rina comentava, pois, em uma mistura de lamento e surpresa, que as ruas estavam vazias. Que havia pouquíssimas festas e que vira pouca gente na rua e nos bares. “Um Purim diferente”, dizia ela, “tirando meus vizinhos jovens, quase não escutei música e festa esse ano.”

Em Purim, Israel já avançava no novo calendário. O calendário da doença colonizava o tempo tradicional judaico, mitigando o ambiente de alegria e comemoração típico daquela época. Era isso que Rina percebia e lamentava. Entretanto, pode se dizer que essa experiência era particular, ou ao menos, localizada: se a jornalista vivesse próximo Bnei Brak ou em Jerusalém, provavelmente suas percepção teria sido distinta.

Vivesse Rina Matziliah em uma dessas cidades, ela teria que passar por concentrações de populações ultraortodoxas (charediot) que mantiveram, ao contrário do bairros seculares pelos quais Rina passara, as festas de Purim conforme indicava a tradição judaica. Ela teria visto nesses locais muita bebida, muita música e, como não podia deixar de ser, muita dança. A aglomeração de milhares de pessoas, preces e festas parecia desconhecer a experiência “coroniana” da Israel liberal e secular naquele Purim de 2020.

Essa experiência silenciosa e cuidadosa no novo calendário da pandemia durante o carnaval judaico contrastava com o vínculo perene e potente dos ultraortodoxos com o lugar histórico de um tempo cíclico que celebra um passado mítico, não importa quais sejam as condições do presente. Na primeira entrevista do programa isso ficaria claro. Rina conversara com um representante charedi da prefeitura de Jerusalém que lhe informou que, no dia seguinte,(II) ele e toda sua comunidade estariam comemorando Purim já que o cotidiano não poderia ser afetado pela epidemia.

Essa noção de “temporalidade paralela”, uma espécie de fuso horário da doença, pode ter sido a síntese da experiência religiosa judaica na epidemia de 2020. A ideia de um novo tempo da doença foi pouco assimilada pelos judeus ultraortodoxos em Israel e nas diásporas judaicas. Em algum sentido, a noção da nova realidade sanitária foi vista como uma nova ameaça da modernidade em relação aos valores tradicionais judaicos. O tempo visto como artefato cultural, nos termos de Hartog, foi relativizado pelos judeus charedim . Na opção entre o “não lugar” e o “lugar histórico”, eles ficaram com o segundo.
Em Israel essa experiência de temporalidade paralela foi ainda menos radical do que em outros locais da “comunidade imaginada” ultraortodoxa judaica. Se em países mais ao sul a epidemia era uma perspectiva, na Europa ela já era uma realidade e, mesmo ali, judeus charedim resistiram em seus calendários frente às demandas normatizadoras da realidade pandêmica. O tempo imaginado judaico manteve festas de Purim conforme a programação de antes do novo Coronavirus. Os resultados foram trágicos.

Em Israel, foram computadas até agora 238 mortes. Destas, cerca de 60% de membros das comunidades ultraortodoxas do país (que não somam mais de 15% da população total). Na Grã-Bretanha os números são significativos. Até o fim de abril, os judeus, em na maior parte ultraortodoxos, correspondiam 5% das vítimas fatais da doença, sendo que não chegam a ser 0.3% da população total. Na Bélgica, onde cerca de 25% dos 40.000 judeus são ultraortodoxos, 550 dos cerca de 700 mortos pelo coronavirus eram judeus em finais de abril.

O impacto da Covid-19 entre a população judaica de Israel e na Europa deve ser entendido a partir do conflito de dois calendários, o da pandemia e o da tradição. A experiência traumática das populações judaicas na Europa durante a pandemia deve incluir a resistência que judeus ultraortodoxos têm em relação ao avanço da modernidade em suas fronteiras sociais e políticas. Assim, a pandemia é mais um capítulo na luta dos judeus charedim pela autonomia e contra a assimilação de costumes e hábitos típicos da modernidade.

(I) Espécie de carnaval judaico que comemora a vitória dos judeus contra os planos de destruição de Haman no século IV. A data se comemora no dia 14 de Adar pelo calendário judaico.
(II) Em Jerusalém se comemora Purim no dia seguinte de todas as outras comunidades judaicas.