Bissau, tabancas e bolanhas: a Covid-19 num pequeno país africano

Nadina Nhanca
Campinas, 8 de Maio de 2020

Antropóloga em formação, sou guineense e realizo meus estudos na Unicamp. Desde a suspensão das atividades presenciais, vivo confinada na moradia estudantil da universidade, e meus dias se dividem entre a tentativa de seguir meu trabalho, acompanhar com angústia a situação da pandemia e de pandemônio no Brasil e, evidentemente, processar as notícias que recebo da Guiné-Bissau. O acompanhamento das notícias só faz sentido a partir de conversas que tenho quotidianamente com amigos e parentes na Guiné, em particular em sua cidade-capital, Bissau. São notícias e são perguntas.

A Guiné-Bissau é um dos países mais pobres da África (ou seja, do mundo), e não deixou de ser alcançado pela Covid-19. O primeiro caso foi no dia 28 de março, e em seguida o governo decretou estado de emergência com a finalidade de evitar a expansão do vírus. Porém, as autoridades responsáveis por fazer valer o decreto acabaram muitas vezes por promover castigos físicos e a extorsão daqueles que, por uma ou outra razão, não podem seguir o confinamento imposto pelo estado de emergência. Em outras palavras, a corrupção e a violência encontram terreno favorável na cidade de Bissau.

De acordo com a notícia publicada na “DW Made for minds” no passado dia 26 de abril de 2020, a Guiné-Bissau teria 52 casos de pessoas infectadas pelo novo coronavírus, das quais três haviam sido dadas como curadas, felizmente. Até então não havia nenhum registo de óbito. Na notícia do dia 27 de abril, na mesma plataforma, haviam sido confirmados 20 novos casos de Covid-19, totalizando um total 74, sendo que 55 indivíduos estavam em tratamento, dois haviam sido curados e uma morte havia sido confirmada no domingo, dia 26 de abril. No dia 30 de abril, o número de infectados havia dobrado, revelando um acentuado crescimento. Diante da escalada de casos, o presidente da república Umaro Sissoco Embaló prolongou o estado de emergência na Guiné-Bissau por um período de 15 dias, até 11 de maio.

O estado de emergência supôs o encerramento das fronteiras, escolas, mercados, restaurantes, bares, discotecas e locais de culto religioso e todos os serviços não essenciais, bem como a restrição de circulação de pessoas. Tudo deve ser feito das 7:00 da manhã e o meio-dia, no resto do dia, noite e madrugada todos devem respeitar o toque de recolher. Para além deste período permitido, com ou sem máscara, ninguém deve sair na rua. O impacto dessas medidas numa economia já fragilizada pela sucessão de crises políticas e que depende em grande medida da movimentação de homens, mulheres e crianças tem sido brutal.

O ministro de interior Botché Candé decretou medidas severas para quem não estiver cumprindo as regras de quarentena. Segundo os mensagens que recebo de amigos que vivem nos subúrbios de Bissau, Candé teria autorizado agentes policiais a realizar toda a sorte de violência: a garantia das leis da quarentena dar-se-ia por meio de espancamentos e extorsões. De acordo com amigos, quem for pego pelo policial a andar na rua, violando a regra, é forçado a fazer abdominais na estrada sob o sol ardido; se a pessoa reclamar, ou não conseguir fazer, é espancada de forma brutal. Várias pessoas teriam sido gravemente feridas e socorridas pelos profissionais de saúde. Se os jovens são objeto de violência especial, esta não se restringe a eles.

Não poucos começaram a denunciar os desmandos das autoridades policiais. Diante das denúncias, Salvador Soares, porta-voz do comissariado geral da Polícia de Ordem Pública, declarou que teria autorizado apenas a detenção preventiva dos que não seguissem as medidas impostas pela quarentena. Não é isso que me dizem amigos e amigas que me escrevem dos bairros suburbanos de Bissau. Além da violência, os policiais libertariam as pessoas detidas somente após o pagamento de propina. O estado de emergência acabou por fortalecer a prática sistemática da extorsão.

Segundo Márcia Noll Barboza, “a corrupção não é um fenômeno de fácil medição; se dissolve quase sempre no silêncio e na clandestinidade”. Diante da cumplicidade das autoridades e da suspensão que supõe o estado de emergência, a extorsão praticada contra jovens que fazem biscates ou mulheres que dependem de sua circulação para fazer chegar algo de comida em suas casas, se perde no silêncio.

As mensagens que nos chegam são muitas. A Guiné-Bissau é um país pobre e sua população vive nos limites da pobreza. A consciência de que o confinamento é necessário para evitar a extensão da epidemia é generalizada, mas, como levá-lo adiante entre pessoas que dependem em grande medida da sua circulação diária – biscate, comércio? O estado foi rápido em decretar o estado de emergência, e seus agentes foram também rápidos em transformá-lo num exercício de violência e extorsão. É este mesmo estado que mantém os funcionários públicos sem receber salários por cerca de um ano, que depende quase que exclusivamente de recursos da cooperação internacional e que tem sido incapaz de promover qualquer forma de auxílio que garanta um mínimo de isolamento social em Bissau.

E as mensagens não deixam de chegar. Ora, se a crise é global, os recursos da cooperação vão diminuir? E todo aquele mundo que depende dos profissionais da cooperação internacional que abandonaram Bissau no início da pandemia? – sim, os antigos cooperantes e que trabalham em ONGs, nos escritórios das Nações Unidas, estrangeiros que trabalham em projetos de todo tipo contratam empregados domésticos, motoristas, jardineiros. E os guineenses da diáspora que mandam recursos do seu trabalho no Senegal, em Cabo Verde, em Portugal, na Itália? Não serão eles os diretamente afetados pela crise econômica internacional já instalada? Vão poder enviar dinheiro para suas famílias que deles dependem para pagar a escola das crianças ou a construção de uma casa?

E, como não podia deixar de ser, a mensagens da Guiné e de vários lugares do mundo falam de que se trata de uma guerra contra o vírus. E de guerra os guineenses entendem… Afinal, crescemos escutando as histórias da guerra de libertação nacional, aquela que acabou por expulsar os portugueses e que afetou a esmagadora maioria da zona rural guineense entre 1963 e 1974. Naquela época, a circulação entre Bissau e qualquer lugar do interior era difícil e, em alguns momentos, impossível. Quem não se lembra dos guias de marcha que prosseguiram para além da independência nacional e atormentavam todos aqueles que queriam circular com seu comércio ou visitar parentes e amigos para além de seu bairro? Naquela época, quem queria impedir a circulação eram os soldados das nossas forças de libertação.

Os da minha geração lembram-se da guerra civil de 1998 e 1999, que foi na verdade uma guerra em Bissau e por Bissau. Nós, os moradores de Bissau, tivemos que abandonar a cidade e nos refugiar em nossas tabancas de origem. Foram os nossos parentes do campo que nos receberam e nos garantiram comida quando saímos de uma Bissau dividida entre distintas facções militares guineeses, tropas senegalesas e tropas da Guiné-Conacry. Fugíamos da guerra. Nossa circulação na cidade era também impossível em meio a tiroteios e obuses, e pelo medo de soldados de todas as nacionalidades.

Agora, outros inimigos querem impedir a circulação em Bissau: de um lado, um vírus invisível e que pode ser fatal (e do qual somos todos conscientes); de outro, atuação de forças policiais particularmente cruéis. Sem recursos, talvez os guineeses de Bissau acabem por abandonar a cidade e voltar para o campo, para as tabancas. E lá, trabalhar nas bolanhas, cuidar dos vivos e enterrar, adequadamente, os mortos.