Utopias afro-indígenas, distopias pandêmicas: o caso da Unilab Ceará

Denise da Costa
Fortaleza, 8 de Maio de 2020

Localizada em dois municípios do Ceará, Acarape e Redenção, a Universidade da Integração da Lusofonia Afro-Brasileira (Unilab) me faz sentir esse espaço como uma utopia afro-futurista onde confluem estudantes guineenses, são-tomenses, cabo-verdianos, moçambicanos, angolanos, indígenas, quilombolas, filhos de agricultores, população lgbtqi+… O corpo docente também é composto por professoras e professores negras, negros, negres e internacionais, o que é marcante na Unilab. Se essa utopia afro-futurista nos remete aos mais profundos sentimentos de esperança sobre o que se quer da educação superior neste país, ela também enfrenta aspectos super desafiadores e não menos distópicos: precariedade, vislumbrada nos últimos governos; estrutura física inacabada e insuficiente; ausência de uma reitoria escolhida através de eleições pelo corpo acadêmico… enfim, há muito a ser feito. A instabilidade político/institucional rebate nas possibilidades de atuação da Universidade para a população do entorno no presente contexto de pandemia.

A suspensão das aulas e a orientação para o isolamento social foram feitas imediatamente na Universidade. Assim, ela fechou seus portões e não tem previsão de retorno às aulas. No presente ensaio irei apresentar duas colaboradoras importantes na articulação dos movimentos quilombola e indígena na Unilab: Ana Eugênio e Gabriela Silvestre. Ana Eugênio é mulher preta, mãe, cotista, militante do movimento quilombola, estudante da Unilab Ceará. Ela tem, ainda, textos e reflexões sobre saúde da população negra e quilombola. Segundo seus relatos, Sítio Veiga, comunidade em que ela reside e onde nasceu e foi e criada, vive uma vulnerabilidade que reflete as desigualdades latentes no país. Assim, ela conta sobre as peculiaridades de sua comunidade “Estamos longe dos espaços de saúde, a acessibilidade é bem complicada, não temos a posse do território…”. De acordo com seu depoimento, as comunidades quilombolas de modo geral estão completamente desamparadas pelo Estado. Para sobreviverem à situação de pandemia, a comunidade Sítio Veiga conta com o apoio da sociedade civil e de algumas ONG’s, mas essa ajuda não tem sido suficiente. Algumas comunidades quilombolas apresentam maiores dificuldades uma vez que nem mesmo o acesso a essas redes de apoio elas têm.
Ademais, Ana Eugênio destaca que as informações sobre a pandemia não são feitas pensando a realidade do campo, mas sim o ambiente urbano. “E como vocês sabem, nós que vivemos no campo temos uma particularidade enquanto comunidade quilombola. Nós temos o hábito de… primeiro nós temos um laço muito forte familiar, de solidariedade. O nosso trabalho é coletivo. A gente tem o hábito de se encontrar dez vezes com a mesma pessoa a gente fala bom dia, pega na mão, boa tarde. A gente divide o café, a gente divide a comida… e é complicado… nós vivemos em um espaço coletivo e é complicado a gente dizer que agora temos que nos isolar. Mas a gente está lutando no dia a dia… o medo é constante.” Ademais, Ana marca a importância dos mais velhos para a sua comunidade. Eles representam os griots do Sítio Veiga e “são a nossa referência de vida, de luta, de memória, resistência.”
Ana Eugênio não conseguiu viajar para a sua comunidade e está hospedada em Redenção. Ela faz parte do DCE e está mobilizando uma série de ações para auxiliar os alunos da Unilab nesse momento. Além de angariar cestas básicas, esses alunos têm feito vídeos de conscientização. Eles têm esbarrado na produção de notícias falsas sobre a pandemia e a postura do presidente da república recai sobre a crença de que tudo não passa de uma “gripezinha”. Além disso, os preços dos alimentos aumentaram. Os alunos estão contando com o apoio da Associação Docente da Universidade do Ceará, mas ela é ainda insuficiente. Segundo nos conta, os alunos internacionais estão atravessando um desafio ainda maior por estarem longe de seus familiares. O que implica em adoecimentos psíquicos e falta de recursos de sobrevivência como moradia e alimentação. Outro agravante está em um dos bairros em Acarape, São Francisco: falta muita água. Foi feita uma vaquinha entre os servidores e professores da Unilab para arrecadação de dinheiro e foram comprados baldes para o armazenamento de água. Existe, na tentativa de atender os estudantes, uma vaquinha virtual para compra de alimentação, fralda e leite para as mães estudantes.

A estudante Gabriela Silvestre de Castro é da comunidade de Tremembé de Itapipoca. Ela é agente ambiental e cursa Antropologia na Unilab. Muitos dos desafios de estrutura enfrentados por ela se assemelham àqueles apontados para as comunidades quilombolas. Segundo nos conta, um dos desafios encontrados por essa comunidade indígena é o respeito à barreira sanitária que foi feita em seu território. Segundo ela, moradores não-indígenas que são seus parentes de sangue estão saindo e entrando no território sem o cuidado com as restrições que supõem o isolamento. Ela nos revela que as pessoas que estão fazendo a barreira sanitária estão sofrendo ameaças e conta que o clima na aldeia está tenso. Até o momento em que escrevo essas linhas, já havia sido constatado um caso de coronavírus em Itapipoca e isso gerou muita ansiedade para essa população. Além disso, algumas pessoas estão tendo dificuldades para acessar o auxílio emergencial. A comunidade recebeu algumas cestas básicas da instituição CETRA de Itapipoca que foram direcionadas às famílias mais carentes.
Os relatos por mim recolhidos sobre a realidade que a comunidade universitária está enfrentando revelam a capacidade de articulação solidária que temos para nos protegermos e insistirmos na produção de vida, mas também, e infelizmente, revelam a falta de empatia por esse segmento da população por amplos setores da sociedade nacional. Por fim, trago frases da nossa griot, Conceição Evaristo, que expressam o sentimento que estamos vivenciando durante a pandemia: “Não estou atravessando esse momento e sim esse momento está me atravessando. (…) Negar o medo pode ser uma forma de escamotear o pavor”.