A Covid-19 no Benin: ganância, vergonha e mentira

Carla Bertin
Paris, 30 de Abril de 2020

1) O distanciamento social aplicado ao Estado

Foi no dia 6 de abril que o governo do Benin anunciou a primeira morte devido à Covid-19. Desde então, o número oficial de mortes não mudou (I) e entre 10 a 20 novos casos são relatados a cada semana. (II)
A lenta propagação da doença levanta preocupações na população. Por enquanto, as principais medidas tomadas contra a epidemia no Benin são o uso de máscaras, obrigatório em todo o país, e a instauração de um “cordão sanitário”. O silêncio do Estado está alimentando um alvoroço de hipóteses, sérias ou irônicas, que circulam pelas redes sociais através de mensagens, gravações de áudio ou vídeo.

Divididos entre a esperança e a desconfiança, meus amigos beninenses se perguntam a razão desses resultados bastante positivos comparando-os com os dos países vizinhos. (III) Será que “Deus ama o Benin”, como diz o ditado lançado nos anos 90? No entanto, boatos circulando sugerem que há mortes que não foram contadas e casos confirmados que não foram relatados.

Na imprensa internacional, o presidente Patrice Talon tem sido geralmente elogiado por reconhecer a incapacidade do Benin de apoiar financeiramente uma quarentena total, como é feito em alguns os países ricos. Se, por um lado, os beninenses concordam com o presidente que o distanciamento social é impossível no país, por outro lado, eles são cada vez mais críticos em relação ao governo.

Os locais de culto foram fechados no dia 22 de março, levando os pastores a se lançar em cultos live no Facebook e a redescobrir reuniões mais íntimas nas casas dos fiéis, mas os benineses esperavam também o fechamento de escolas e universidades. Já no dia 23, alguns pais decidiram manter seus filhos em casa. “Eu assumi” [Je l’ai pris sur moi], disse-me uma amiga, sem saber se seu filho seria expulso por ausência injustificada.

No dia 24 de março, os estudantes foram bloquear as aulas no anfiteatro da Universidade de Abomey-Calavi. A polícia respondeu com tiros, o que levou à morte de um estudante – que é considerado pelos jovens como a primeira vítima do coronavírus no Benin.

Diante da pressão popular, o estado finalmente anunciou, no dia 30 de março, as “férias antecipadas da Páscoa”, uma fórmula, no mínimo, ambígua.

Muitos temem que se trate de uma estratégia do mandatário presidencial pois estamos no período que antecede as eleições locais de 17 de maio e o presidente Talon – empresário que se caracteriza desde sua eleição em 2016 por medidas cada vez mais autoritárias – quer manter seu cargo a todo custo. E isso apesar da opinião contrária dada no dia 17 de abril pelo Tribunal Africano dos Direitos do Homem e dos Povos, solicitada por um dos membros da oposição. (IV)

Enquanto o Estado tenta tranquilizar a população, limitando a campanha dos candidatos às eleições locais ao uso do rádio e dos jornais, a distância entre o Estado e a população aumenta. No Benin, a política é realmente de porta-a-porta, de chefe de família a representante de associação, de intermediário a intermediário. O período eleitoral é um momento de esperança para estudantes e jovens graduados sem trabalho: mobilizados pelas promessas dos candidatos, eles percorrem as aldeias à noite para fazer campanha desde meados de abril.

2) Sobre a primeira vitima: ganância, vergonha e morte
A única morte registrada do dia 6 ao 29 de abril no Benin foi a de uma mulher de 43 anos, uma senhora rica que fazia parte da elite itinerante – essa parte da população inicialmente atingida pela Covid-19 a nível mundial – e que havia retornado dos Camarões, onde seu marido trabalha.

Desde o início da epidemia, as pessoas que viajaram para o exterior ou entraram em contato com viajantes precisam ficar “isoladas” em hotéis por 14 dias. Mais do que condições de saúde pré-existentes (ela apresentava anemia falciforme), o elemento destacado (pelas pessoas, nos artigos da mídia e mesmo na declaração oficial do governo), foi sua falha em declarar a viagem, tanto na fronteira como na clínica onde ela foi tratada, a mais cara do Benin.

Isto teria levado os médicos a não diagnosticar “febre e diarreia sanguinolenta” (V) como um possível sintoma da Covid-19. E leva a alguns a esta conclusão lógica: não teria havido mortes por coronavírus no Benin se esta pessoa tivesse sido honesta.

No dia seguinte à morte, uma gravação circulou no Whatsapp. Seu autor se apresenta como um dos médicos que receberam a senhora na clínica. Durante quatro minutos, ele insiste que o pessoal da clínica lhe perguntou repetidamente se ela tinha viajado, mas a moça, segundo ele, teria “mentido até o fim” [menti sur toute la ligne]. Ele acrescenta ainda que as autoridades também mentem porque elas tinham sido rapidamente alertadas e, portanto, houve um atraso do Ministério da Saúde em agir.
Surge então a questão: por que a vítima mentiria?

Conhecidos meus que moram na cidade e fazem parte dos círculos culturais, falam de sua “cupidité” [ganância]. Além disso, segundo o médico, as doenças inicialmente mencionadas pela paciente seriam “distúrbios de ansiedade porque ela perdera milhões, e tonturas”. Um amigo artista que luta para ganhar a vida me lembra, “o dinheiro pode tudo” [argent peut tout].

Dinheiro pode tudo. Dos Camarões, para retornar ao país, sem passar por quarentena obrigatória, essa senhora pegou um avião para o Togo e comprou uma entrada para o Benin.

Dinheiro pode tudo. Assim que os primeiros sintomas apareceram, ela foi à clínica privada “para os grandes homens do país”, localizada no distrito de Haie Vivre, o “bairro dos brancos”. Ela teria mentido então por “ganância”, por desejo de retomar seus negócios assim que voltasse para casa. Esta leitura dos fatos condena moralmente uma voracidade por dinheiro que, se pode tudo, é também a causa da derrota final.

No entanto, para a maioria das pessoas, esta mulher comportou-se como muitas outras teriam se comportado, movidas por um sentimento de “vergonha”. Este sentimento de vergonha na declaração dos sintomas é agravado pelo fato de se tratar de uma mulher, mais frequentemente alvo julgamentos, muito rica, o que a torna mais exposta aos olhares dos outros (também por causa do relacionamento entre força espiritual e sucesso) e, finalmente, uma mãe, responsável pela educação e bem-estar de seus 4 filhos.

“É uma doença que não honra” disse-me Thomas, que mora em uma aldeia do sul. “É como a Aids. “e jɛ hɛn” [ela caiu em desgraça]!

A memória coletiva se refere à última grande epidemia no Benim, a de Aids, como que marcada por grande incerteza sobre a contaminação e por estigmas ligados às questões de moralidade e sexualidade que então circulavam internacionalmente.

“É impuro… É impuro também para a família”, me diz um outro amigo. Ter contraído Covid-19 seria, de certa forma, impuro para o paciente, uma desgraça que se reflete em sua família. É por isso que a primeira vítima de Covid-19, esposa e mãe, buscou defender sua reputação e a de sua família.

Talvez seja também por isso que Gerard, um jovem de um vilarejo do sul do Benin, confia em mim:
“Eu quase nunca saio.
– Você está com medo de ficar doente?
– Eu tenho mais medo de como as pessoas vão se comportar comigo se eu ficar doente.
– Qual comportamento?
– Todos evitarão o doente, mesmo depois que ele estiver curado. O africano é assim.”
Em seu vilarejo, profissionais de saúde vieram buscar uma mulher que havia viajado recentemente para o Togo. Ela foi colocada com toda sua família em quarentena, e depois retornou “com boa saúde”. Perguntei então a um vizinho da moça se ele sabia como tinha sido sua quarentena, mas ele respondeu que “essas são perguntas difíceis de serem feitas”. Em sua opinião, o medo do isolamento seria outra razão de não querer declarar os sintomas: “a gente não sabe como é, parece que é como estar sob vigilância, numa prisão”.

Um amigo católico que, nos últimos anos, se aproximou de práticas do vodun, não me fala de perseguição ou feitiço, mas me conta que a vergonha é motivada pela interpretação da doença como uma “maldição divina”, seguindo um “mau comportamento” do paciente ou de sua família em relação à sociedade.

3)Medicina e resistência anti-ocidental
Quais são as razões para esta avaliação bastante positiva até agora? Será o resultado da importação massiva da milagrosa cloroquina, que o governo decidiu vender aos cidadãos a preços subsidiados em abril e cuja produção local foi até avivada?

Apesar da Covid-19 ser interpretada localmente uma doença “dos brancos” (VI) , vários países africanos estão enfrentando os desafios da pandemia e buscando encontrar soluções nacionais originais. No Benin, as conversas das pessoas sobre medicina, entre os amigos que procuram plantas locais curativas e outros que falam no novo “milagre malgaxe” da “Covid-Organics”, parecem ter implícita uma reivindicação de independência de drogas. As posições do controverso especialista francês em doenças infecciosas Didier Raoult provocaram reações entusiasmadas. Nascido em Dakar, Raoult oferece um remédio conhecido pelos beninenses: muitos se lembram do sabor amargo da cloroquina quando seus pais lhes deram um ou dois comprimidos antes de irem para a escola. Utilizado entre as décadas de 1950 a 1990 contra a malária, tanto como prevenção quanto profilaxia, a cloroquina era de fato um medicamento comum. Acabou por ser retirado das farmácias não por causa de seus efeitos colaterais, mas porque foi observado que o parasita da malária estava desenvolvendo resistência ao medicamento.
Críticas recentes de pesquisadores ocidentais contra a cloroquina e seus efeitos colaterais só levantam a indignação dos beninenses: se isso fosse verdade, então os africanos teriam sido cobaias da medicina ocidental por décadas? (VII)

Esta ligação entre medicina e autonomia política é ainda mais forte no Benin, onde Valentin Agon, um nativo da região de Zou, patenteou o Apivirine, antiretroviral contra o HIV, nos anos 2000. Pan-africanista declarado, Agon estava em Burquina Faso no início da pandemia; no final de março, ele afirmou ter testado a eficácia do Apivirine em alguns pacientes com Covid-19. Durante alguns dias, o anúncio despertou esperança no Benin, onde as pessoas já falavam sobre o potencial da medicina africana. Mas, no dia 3 de abril, a droga foi formalmente descartada em Burquina Faso, o que provocou a fúria de Agon contra a conspiração “dos inimigos da África”.

Em todo o caso, os beninenses já haviam corrido às farmácias em busca do medicamento e sofrido uma grande desilusão, pois preço da Apivirine (rebatizada Apicovid-19) havia subido cinco vezes em uma noite – de 2.500 para 12.500 francos CFA.
Outro tipo de “ganância” e mentira.

(I) O 30 de abril, o OMS declara ter uma segunda morte de Covid-19 no Benin. Mas o relato oficial do governo beninês ainda não mudou.
(II) Contagem em 27 de abril: 64 casos confirmados, 33 curados, 1 morto.
(III) Os balanços provisórios são os seguintes. Togo: 99 casos, 6 mortos (28 abril); Nigéria: 1.532 casos, 44 mortos (24 abril); Burkina-Faso: 635 casos 42 mortos (26 abril); Níger: 713 casos, 32 mortos (29 abril).
(IV) Desde então, Benin se retirou do protocolo ACHPR. Lire http://www.rfi.fr/fr/afrique/20200419-bénin-cadhp-ajavon-demande-suspension-élections-municipales-mai
(V) https://www.gouv.bj/actualite/582/coronavirus–premier-deces-enregistre-benin/?fbclid=IwAR1AFYEAcu7H32powWBsBR9PfoSHxD2MnaEce1sv37Sc5q2aCxuYCOm7bH8
(VI) Ver também Observatório n°18 sobre Republica Democrática do Congo, da Rosa Vieira.
(VII) Uma teoria amplamente alimentada pelas declarações de dois cientistas franceses sobre um “teste de vacina na África” de 2 de abril na cadeia de LCI, que provocou protestos na França e na África.