Mulheres negras e a COVID-19

Jaqueline Santos
Sorocaba, 4 de Maio de 2020

Eu, do meu lugar de privilégio em relação às minhas semelhantes, sou uma mulher, negra e doutora, que tem acesso às melhores condições de trabalho e consigo, neste momento, garantir qualidade de vida para o meu núcleo familiar. Mas isso não me distancia daquelas com quem compartilho as experiências de vida que perpassam a minha trajetória e que, em muitos momentos, me deram e dão sustentação. Elas são minhas tias, primas e amigas com quem eu dialogo diariamente e que me trazem a dimensão do que tem acontecido no cotidiano negro e periférico em que eu cresci. Eu sai do Grajaú, periferia de São Paulo, aos 12 anos de idade para morar em Sorocaba. Naqueles tempos, início dos anos 2000, o custo de vida era mais barato e vivia-se muito melhor no interior do estado. Acredito que as diferenças entre a minha trajetória e a das minhas amigas de infância são resultado desta mudança – decorrente da transferência do setor industrial da capital para o interior que trouxe meu pai para trabalhar nas fábricas de Sorocaba. Este acontecimento retirou minha família do contexto de segregação espacial – e, consequentemente, de oportunidades – e de extrema violência que era o extremo sul de São Paulo.

Eu, sinceramente, gostaria que minhas tias, primas e amigas, pudessem sentar e escrever este depoimento em primeira pessoa. Mas, desde o começo desta pandemia, elas não pararam. Ocupam funções consideradas essenciais para a sociedade, como trabalhar em restaurantes, em hospitais, em casas de família, em supermercados e em linhas de ônibus como cobradoras. Aquelas que são empregadas domésticas apenas deixaram de ir aos seus trabalhos quando os dados de contaminação nas periferias da cidade de São Paulo passaram a superar os registrados nos bairros de elite. As demais, que atuam no setor de serviços, continuam trabalhando até hoje.

Ao expressar a minha preocupação com a continuidade das viagens diárias entre o Grajaú e as casas do Morumbi, minhas tias logo respondiam que precisavam trabalhar, que estão acostumadas com a vida difícil e que a sociedade estava alarmada apenas porque “essa é uma doença que também mata os ricos”. São pelo menos três transportes até chegar ao trabalho, como um ônibus até a linha do trem, o trem e mais um ônibus da estação até às residências em que são empregadas domésticas. A minha sensação de impotência diante do que estamos vivendo aumentava quando elas faziam sentir-me fora do mundo real ao exclamar “- Tá todo mundo indo trabalhar, os ônibus e o trem estavam lotados hoje”. As respostas soavam até como uma reclamação de quem não podia perder a fonte de renda e que sentia, de certa forma, uma pressão ao receber as minhas ligações para saber se estava tudo bem.

Tento não ser invasiva, mas a maioria das minhas tias idosas não tem filhos porque entraram muito cedo no trabalho doméstico e criaram gerações da mesma família, o que faz com que eu e meus irmãos sejamos responsáveis pelos cuidados necessários conforme elas vêm envelhecendo – assim como elas se sentiam também responsáveis pela nossa educação durante a infância. Quando era criança, lembro-me de que elas dormiam no trabalho e voltavam somente nos finais de semana, o que vem mudando desde a PEC das domésticas que equalizou alguns direitos deste segmento àqueles estabelecidos na CLT. Na última década, deixaram o quartinho da empregada para poder construir cotidianamente o seu próprio lar. Como eram elas quem cuidavam das residências, dos filhos e até das atividades educacionais, nos finais de semana quando retornavam para casa as crianças da nossa família tinham acesso a jogos, livros, roupas e tipos de alimentos consumidos pelos ricos – elas tentavam fazer com que esse universo nos alcançasse. A mais velha, por exemplo, criou três gerações de uma mesma família, para a qual trabalhou quase quatro décadas, e eles foram embora há pouco tempo para os Estados Unidos. Por isso, tem exercido a função de empregada doméstica em uma nova casa.

Há aproximadamente 20 dias, uma delas me disse: “- As patroas estão com medo da gente levar doença”. Foi depois disso, com a explosão dos indicadores de contaminação e mortes nas periferias da cidade de São Paulo, que elas passaram a ficar em casa. Toda a narrativa construída, e assumida ingenuamente por elas, parecia buscar preservar a vida dos patrões e não das trabalhadoras que, como sabemos, dependem exclusivamente do SUS. No entanto, faz poucos dias que uma delas me disse que estava no trem indo até o trabalho. Quando questionei o porquê, respondeu-me que estava indo receber o pagamento que a patroa, que foi se refugiar em um sítio, deixou guardado na casa. Na semana passada, foi a vez de outra se deslocar do Grajaú até Pinheiros para deixar a casa arrumada e as compras feitas para a patroa e sua família que estavam prestes a chegar do interior. Ela foi informada que o pior já tinha passado e que estavam todos retornando à normalidade. Eu, que moro em outro município, terei que me deslocar para tomar todos os cuidados necessários se qualquer coisa acontecer com uma delas porque essas pessoas não se responsabilizam pela vida de suas empregadas – as quais, diante das necessidades, não deixam de responder de forma imediata às necessidades das “patroas”.

O meu desespero aumenta quando dialogo com uma amiga que trabalha há mais de dez anos como cobradora de ônibus. Ela compartilha que durante todo esse período nunca tinha sentido tanto medo de sair de casa para trabalhar. Ao deixar o ônibus para retornar à sua residência, passou a ser assombrada pelo peso de estar levando alguma doença para casa. No dia seguinte, ao retornar ao trabalho, sempre tinha sensação de que os ônibus não tinham sido higienizados. Até o início de abril, como relata, os ônibus continuavam sempre lotados e havia uma indefinição de quem era responsável pela higienização dos veículos, uma briga entre as empresas e a prefeitura que deixava as e os trabalhadores do transporte ainda mais vulneráveis. 

Alguns deles foram dispensados pela empresa, mas receberão apenas 50% de seus salários e o restante será complementado sem data definida pelo governo federal. Hoje, o que a espanta são as conversas entre os passageiros que, em alguns momentos, acabam em brigas. Há os que gritam “Bolsonaro está certo” e aqueles que respondem “Nós pobres que vamos morrer”. As narrativas de suas viagens diárias já me davam a dimensão do que revelou o Datafolha nesta semana: 46% das pessoas são a favor da volta ao trabalho.

Tenho mais três amigas que dependem do transporte público para chegar no trabalho. Uma é gerente de fast food em um shopping na região de Santo Amaro, a segunda é auxiliar de enfermagem em um grande hospital do centro da cidade e a última faz limpeza em um hospital no Jabaquara. Embora o shopping tenha fechado, as praças de alimentação continuam funcionando para atender aos aplicativos de entrega, como uber eats, rappi e ifood, e os funcionários que ganham em média um salário mínimo seguem fazendo o trajeto casa-trabalho de ônibus, trem e metrô. A gerente diz que dos 30 funcionários, ficaram apenas 11 para atender a demanda dos aplicativos e os demais foram demitidos. Os pedidos são produzidos dentro dos shoppings e entregues diretamente aos motoristas direcionados pelo aplicativo, todos usam máscaras e luvas, mas continuam expostos aos riscos da doença. A auxiliar de enfermagem relata que nunca imaginou viver tamanha sobrecarga de trabalho em sua vida e que, mesmo demorando em média uma hora e quarenta minutos no transporte público que utiliza para fazer o trajeto casa-trabalho, no qual tem contato com centenas de pessoas, o hospital ainda não tem todos equipamentos necessários para garantir a sua segurança. Além desta tensão, tem que lidar com as notícias cotidianas dos colegas de trabalho que contraíram a doença, que foram internados e que vieram a óbito – duas enfermeiras que costumava encontrar na troca do plantão morreram vítimas da Covid-19. A faxineira aponta que o hospital tem tido um movimento crescente e tem produzido muito mais lixo, mas que utiliza apenas máscara porque as condições não foram adequadas ao novo cenário e, mesmo também atuantes em hospitais, trabalhadores da limpeza não têm sido testados como os profissionais da saúde.

No meu home office, leio textos e tenho acesso a dados que pioram meu estado emocional. Faz um mês que não consigo dormir direito. Não são apenas textos, números e estatísticas que alimentam o sofrimento e a retórica desta denúncia, mas a realidade concreta de mulheres que ajudaram a me criar e que são minhas amigas de infância. Tenho medo de perdê-las para a negligência do Estado, dos empregadores e da sociedade. As pessoas dizem que sairemos melhores e mais humanos desta pandemia, mas quando tomo conhecimento do dia de trabalho de cada uma delas eu não tenho certeza disto. Temo o momento que essa doença chegue a suas casas, onde várias famílias compartilham o mesmo quintal. Mulheres negras, que exercem funções no setor de serviços e na linha de frente do combate à Covid-19, estão expressivamente expostas e irão morrer mais. Elas representam 67% das profissionais de enfermagem (COFEN) e 63% das trabalhadoras domésticas (IPEA, 2011), além de 47% estar na informalidade (IBGE, 2018). Os resultados desta doença desastrosa trarão mais evidências de como funciona o racismo e a pigmentocracia no Brasil.