O tempo e a pitangueira na quarentena

Gregório Diniz
Campinas, 2 de Maio de 2020

O melhor o tempo esconde, longe, muito longe, mas bem dentro aqui
Caetano Veloso

Era mais uma manhã que o relógio tocava, o relógio do telefone. Tenho pensado muito no passado. No passado eu tinha um relógio acrílico quadrado, cujo o ponteiro do despertador se diferenciava dos outros pela cor: uma espécie de amarelo sem muita vida. E o ajuste era irregular, era quase sorte, e eu acordava 5 da manhã com um pi-pi-pipi que era tão chato quanto alto. Eu acordava e saía da cama com muita velocidade, que sempre já estava em cima da hora. O relógio antigo, comprado nas antigas lojas de um e 99, que tantos eu quebrei derrubando da janela, o relógio, a velocidade, o horário, a casa, meus pais, tudo me soa demasiado remoto.

Faz tempo que só vejo as mesmas pessoas. Não saio de casa e prefiro assim. De quinze em quinze dias vou ao supermercado fazer compras de máscara. A máscara incomoda a orelha e eu estou cada dia mais receoso de tocar nas coisas que estão fora do muro onde moro. Queria que os vizinhos não saíssem tanto. Não vejo meus pais desde o natal. Não levanto da cama com velocidade. Não tenho relógio e nem horário.

Moro em uma casa com mais 4 pessoas. Uma delas, a única mulher, viajou para a casa dos pais. Geralmente sou o primeiro a acordar e quem faz o primeiro café do dia. Combino o café com os primeiros e-mails e as primeiras notícias. Espero que o meu futuro não me tenha reservado associar o gosto e o cheiro do café, bebida que tanto gosto, à desgraças.

Noturno do Chile definitivamente não é um dos melhores livros do Bolaño. Leio muito mal e paro. Queria ter dormido mais cedo no dia anterior, mas o barulho do pessoal me impediu. A minha rotina tem que se adaptar a outras rotinas. Não é a hora de continuar o livro. Estou sempre sentado na minha cadeira de plástico, com o computador em cima da mesa. E não me conformo como o meu quarto, tão pequeno, consegue acumular poeira em tão pouco tempo. Velocidade. Ontem foram 474 pessoas que perderam suas vidas pelo coronavírus e eu estou varrendo meu quarto.

Uma pombinha fez ninho no pé de pitanga no fundo de casa. Fez em um galho baixo e eu acompanhei todo o processo. Acho que nem teria reparado que a pombinha estava ali se não fosse a quarentena. Depois de tomar café com gosto de notícia, eu fui lá dar uma última espiada. Última porque sentia que os seus dois filhotes já não mais estariam lá. E não estavam mesmo. O ninho ficou, a pombinha e a prole foram embora. Caminho sem volta. Caminho em volta da casa uma dezena de vezes. Caminhar é bom, ficar sentado dá dor nas costas.

Lá em casa tá tudo bem. Lá em casa, que é casa dos meus pais. Meu pai tem fumado muito e o braço que minha mãe operou no ano passado voltou a inchar. Mas está tudo bem. Eu tenho tanta gente em tanto lugar. Orlando me diz que no Recife faz muito calor e está difícil convencer os tios de sua companheira a não sair da casa onde moram os seus pais. Do Rio, em Rio das Pedras, Yuri me avisa que o Outback de Botafogo tá suspendendo seu contrato. Nem geladeira ele comprou ainda. De minas, a Biba me disse que foi visitar sua mãe. Espero que matem a saudade.

Em Brasília, está todo mundo resignado. João me manda notícia dos seus, que estão respeitando o confinamento. Me dá muita alegria. Em Petrópolis, uns amigos estão tendo que trabalhar, outros sofreram cortes no salário. Fizemos um encontro na web que reuniu amigos que não via desde a formatura e que durou até o amanhecer. Ainda na serra carioca, minha mãe me reporta um frio leve, mas frio. Parece que meu cachorro fugiu, mas foi encontrado tão logo perceberam que sua tristeza vinha da saudade. Tudo isso parece música do Chico.

O dia custa a passar, mas a semana passa rápido. Paradoxo difícil de ser resolvido. Descobri uma caixa de tererê no armário de casa há alguns dias e resolvi experimentar. Gostei e tenho tomado. Mandei mensagem no meu tio, peão, morou muito tempo no Mato-Grosso, mas voltou pro Paraná. Não parou de trabalhar. Na currutela onde se localiza seu sítio, reporta não parecer que exista o vírus. A casa lotérica tem fila dobrando os quarteirões. Os bares estão abertos. Meu tio está trabalhando. A não ser pelas notícias, sua vida mudou pouco.

Queria passar um tempo com ele. Com ele, com meus pais, com meus outro 8 tios, com meus irmão, com meus primos. Em São Paulo, a Lídia está de home office. Que bom. A mãe dela, minha tia Ana, é enfermeira da rede pública do Paraná. Egoisticamente fiquei feliz em saber que ela está afastada. Toma remédios que diminuem a eficácia do sistema imunológico. Mais um paradoxo. Está trancada em casa e quase não sai.

Eu nunca tinha comprado ervilhas para cozinhar. Fiz no almoço e gostei muito. Queria que todos limpassem o fogão. Enquanto almoço, uma prima que vive em Portugal me reporta que está tudo bem, mas que está voltando ao Brasil. O hotel que trabalhava acabara de demiti-la. Estivemos pensando que faz mais de um ano que a busquei a 500 quilômetros e a deixei em Guarulhos. Valeu a pena pelas conversas, pelo adeus. Mais de um ano. Comemos pizza na noite antes dela ir embora.
Almoço e sento na frente do computador. Mais uma vez na frente do computador, na minha cadeira ruim, no meu quarto pequeno e amontoado. Leio textos para as aulas, que têm acontecido remotamente. Se abro as janelas, entram pernilongos. Se fecho, tenho rinite. Escolhas de todos os dias. Saio do quarto e converso um pouco com o pessoal de casa, a essa altura já estão todos acordados. Hoje é dia de ir ao mercado, pelo que entendi. Mas desta vez eu não fui.

Meu tio Juca trabalha em mercado. Trabalhou em várias redes no interior do Paraná, mas agora dirige o caminhão que carrega no CEASA. Ele dirige, ele carrega, ele descarrega, ele tem 60 anos. Descobriu recentemente uma doença séria, que o fez se aposentar. Agora, na quarentena, fica em casa, não sai pra nada, pois é grupo de altíssimo risco. Sai apenas para ir ao hospital. Seu único filho mora com ele e, no entanto, continua trabalhando. Da TV, meu tio vê as notícias do vírus que está na rua, como seu filho. Falamos de sinuca. Combinamos a sinuca tão logo a quarentena acabe.

Eu escrevo porque eu tenho saudade. E não existe saudade sem passado. O dia já vai se acabando, o carro do gás já passou, o carro do ovo já passou, o carro do óleo também já passou. Meus amigos já voltaram do mercado e já higienizaram toda a compra. Eu li dois textos hoje e fiz algumas lições para tentar aprender inglês. Estou sempre sentado no meu quarto. Descobri recentemente que o disco que eu mais gosto do Caetano é Cinema Transcendental. Tenho ouvido muita música e assistido alguns poucos filmes.

Na Zona Leste de São Paulo, o tráfico continua operando normal. Quem me conta é Sandro, parceiro de longa data. Sua família tem ficado em casa. Ele, juntamente com outras pessoas, tem entregado comida e outros produtos para a população. Na região, as coisas continuam mais ou menos como estavam. As biqueiras continuam funcionando 24 horas por dia. O número de roubo e furtos também tem crescido neste período, mas os dados ainda são preliminares.

Nas ruas principais do distrito onde mora, os comércios funcionam, mas com as portas fechadas. Basta entrar nas favelas que um outro mundo se revela. As pessoas não ficam em casa e os bares e pequenos comércios estão todos funcionando. A única coisa que foi cortada foram os bailes. É difícil ficar em casa, mas isso não quer dizer que difícil e casa são palavras cujo os significados se repliquem objetivamente na vida cotidiana das pessoas.

O dia arrastado vem chegando ao final. Como na janta a ervilha que comi no almoço. Ervilha, perto do preço do arroz ou até mesmo do feijão, é caro. No entanto reparei que diminuí consideravelmente meus gastos mensais. Vou mandar um dinheiro pro Sandro pra ajudar nas cestas básicas. Lembrei do meu irmão, que mora no centro de São Paulo. Na sua república, todo mundo sai a toda hora. Uns precisam frequentemente ir ao mercado, outros dizem ter que correr pela cidade. Há 47 dias eu não ando de bicicleta. Gostaria muito.

Na hora de deitar, como todo dia na hora de deitar, eu penso que vou acordar no meio da noite e não vou conseguir voltar a dormir. Dessa vez aconteceu de novo e eu escrevi esse texto. Esse tempo me criou certa rotina até mesmo no despertar a noite, logo depois de dormir. Me lembro das minhas noites mal dormidas, que se enunciavam no exato momento que o relógio despertava. O antigo relógio. A quarenta me criou essa rotina na bagunça, nos acontecimentos desconexos e ao mesmo tempo, rotina sem horário nem relógio. Esse texto é um texto de quarentena.