A via das máscaras (1). “Medir a temperatura” da sociedade como remédio contra ao aumento da desconfiança no desconfinamento

Bénédicte Fontaine e Pierre-Joseph Laurent
Louvain, 12 de Abril de 2020

I. A desconfiança cidadã revelada pela “política das máscaras”
A pandemia causada pela Covid-19 é uma evidência sanitária, provocada por um vírus objetivável. Sabemos, no entanto, que as decisões e a administração por parte dos Estados da quarentena e do confinamento obedecem à arbitragem política e ao possível, e não são apenas baseadas em objetividade científica. A máscara, dispositivo simples, se torna um bom revelador dessa arbitragem e dos possíveis.
Arbitragem sobre máscaras: na Europa, estoques de máscaras expiradas foram destruídos e não renovados por razões de economia. A desindustrialização e a deslocalização mostram as fraquezas e limites da gestão just-in-time, onde a arbitragem política é principalmente contábil e financeira (2). A consequência: o estabelecimento de uma ponte aérea entre a China e os países europeus que se tornaram dependentes (mão-de-obra muito cara, margem de lucro insuficiente), tendo o um pano de fundo uma guerra industrial e logística (alongamento da cadeia de suprimentos) (3), impulsionado pela competição feroz e pela arbitragem de “quem dá mais…”.
O possível das mascaras: além dos problemas de saúde (da barreira física da máscara e o fato dela não ser 100% eficiente, correndo o risco de diminuir o respeito a outras instruções, como o distanciamento social, lavar as mãos, confinamento estrito), as políticas da máscara (falta de máscaras, nenhum mascara, máscaras diferentes disponíveis – cirúrgicas e médicas ou artesanais – em função das categorias da população) indicam a maneira pela qual os Estados se relacionam com seus cidadãos e comunicam essa questão. Há a máscara obrigatória imposta a todos (China), a máscara necessária para sair (Áustria), a máscara como reflexo do interesse coletivo (Taiwan, Hong Kong, Coreia do Sul), como uma mobilização da inventividade do setor informal para ajudar o país (Benin, Camarões), ou como uma oportunidade comercial (o negócio Covid-19: preços crescentes das máscaras na República Democrática do Congo, reconversão das cadeias produtivas no Marrocos), a máscara declarada desnecessária para quem não trabalha na saúde (França, Bélgica) ou ainda a recomendação de uso deixado à critério de cada um (Estados Unidos, Brasil).
Para além dos comunicados oficiais, seguidos mais do que nunca nestas últimas semanas, cada um de nós tenta analisar, interpretar, entender e avaliar a utilidade das máscaras e a “política das máscaras” (4). Considerando os desafios em jogo, sanitários, econômicos e financeiros, a “política da máscara” revela à população as contradições daqueles que tomam as decisões. Esse pequeno objeto sinaliza ao público em geral a credibilidade (ou a falta dela) dos políticos que mobilizam a ciência para justificar os possíveis do momento. Assim, certos governos dizem que a utilidade da máscara “não é cientificamente comprovada”, mas a Academia de Medicina a recomenda… (5) Nada surpreendente, diante dessas contradições, que haja uma grande desconfiança em relação aos políticos.

II. Pensar o desconfinamento e a coesão social pós-crise
As políticas de quarentena e de confinamento, de proteção e de prevenção envolvem vários níveis de percepção. Mas todos serão confrontados com a obrigação de tomar sua própria medida do vírus, que é uma relação primordial consigo mesmo, com o outro, com a vida e com a morte (6). Essa consideração por si resulta na invenção de novas rotinas da vida cotidiana, entre os membros de sua unidade de confinamento, na interiorização dos gestos de distanciamento, no uso do gel, da máscara. Esses gestos modificados da vida cotidiana conectam cada um de nós, em pensamento, ao vírus e nos inscrevem em uma consciência geral, local, regional e global da pandemia (7). Neste cotidiano modificado pela Covid-19, da relação que cada um de nós mantém com a máscara e do confronto, pela pluralidade das mídias interpostas, com essas “políticas de máscara”, está emergindo a conscientização hoje generalizada, das desigualdades de proteção diante da pandemia. Uma conscientização que nos coloca frente à frente as desigualdades em confinamento e as desigualdades atuais na sociedade. A máscara, como símbolo da possibilidade de se proteger, tornou evidente a desigualdade: os trabalhadores da linha de frente, os essenciais, os aplaudidos serão também as principais vítimas da crise econômica. A consciência da fratura da sociedade está crescendo, porque o confinamento, experimentado por todos, se faz de maneira diferente de acordo com as classes sociais, as profissões – aqueles que tiveram que interromper as suas atividades, o seu negócio, aqueles que estão desempregados, aqueles que podem trabalhar em casa e aqueles que não podem (os profissionais da saúde, das casas de repouso, os caixas de supermercado, motoboys e outros entregadores, carteiros, lixeiros, motoristas). Há também desigualdade de gênero (na maioria das vezes cabe as mulheres as tarefas domésticas e de cuidado), e também entre países e continentes.
Essa pandemia não é uma crise passageira. Por sua duração, o confinamento e, principalmente, o desconfinamento que nos espera, acompanhado de crise econômica (o longo tempo necessário para pagar as dívidas contraídas para enfrentar a pandemia) demoram um tempo para se estabelecer nas consciências. Ela tem múltiplas consequências e já afeta a coesão social, com grandes riscos de polarização da sociedade (desemprego, pobreza) e o fortalecimento dos radicalismos de direita e de esquerda. Esses radicalismos são alimentados pela clivagens que dividem os grupos sociais entre aqueles que querem que tudo volte ao normal o mais rápido possível, aqueles para quem a situação expôs suas condições de vida precárias, mas também aqueles que estão preocupados com as condições de sobrevivência da humanidade em face do desastre ecológico. A pobreza aumentará nas sociedades ocidentais, as disparidades entre continentes (Ásia, África, Europa) também, sem mencionar a luta que se intensificara entre a China e os Estados Unidos. O crescimento econômico será afetado e a prioridade será a recuperação da economia e dos mercados, com as questões que surgem do financiamento da crise e do pagamento de dívidas (por períodos de 10, 20 ou 30 anos). Mas cada um de nós, apoiando-se na sua experiência da pandemia, poderá se perguntar: para que? com quais finalidades?
O desconfinamento não pode ser pensado como um retorno ao normal. Entendido como o gerenciamento de longo prazo da crise econômica e social causada pela pandemia, o desconfinamento está diretamente ligado à coesão social e ao pacto societal nas próximas décadas (9). O desconfinamento envolve fazer várias perguntas, incluindo as das condições de produção, do sentido do coletivo e da gestão dos riscos em um mundo globalizado. O desconfinamento exigirá imaginação no que diz respeito às soluções inovadoras e inéditas a serem implementadas. Desafios que os líderes políticos, mas também as diversas elites enfrentarão quer queiram, quer sejam pressionadas pelas ruas. Quais serão as arbitragens políticas da sociedade pós-desconfinamento?

III. Recomendações: “medir a temperatura” da sociedade para enfrentar de maneira inclusiva o tempo longo do desconfinamento
Cada um de nós vive um momento que questiona algumas de nossas evidências. O que queremos para a pós-pandemia? O confronto com a pandemia de Covid-19 erode a coesão social e o pacto social porque essa situação leva a todos a pensar diferentemente sobre as condições de produção, o sentido do coletivo e a gestão dos riscos em um mundo globalizado. Acreditamos que agir para tentar entender o que as pessoas pensam é fundamental.

“Medir a temperatura” da sociedade

Como: Sugerimos uma consulta aberta a um público amplo, organizada através de um site e canais adicionais (métodos a serem definidos para evitar exclusões devido às fraturas digitais); diálogo com representantes de diferentes setores (sindicatos de trabalhadores e patronais, associações setoriais, de jovens, etc.); parceria com interlocutores em campo (assistentes sociais, pesquisadores no campo).
Vantagens: 1) permitir a quem deseja se expressar (incentivar a participação, a necessidade de consideração e reconhecimento das pessoas); 2) reduzir as frustrações causadas pela desconfiança de certas elites desconectadas; 3) coletar ideias e, acima de tudo, ser capaz de identificar as principais categorias de questões emergentes; 4) produzir sínteses; 5) discussões, arbitragens, ações; 6) participar da manutenção da coesão social e do pacto societal nas próximas décadas.
Desvantagens: não subestimar os riscos de derivas (necessidade de moderadores) nem ignorar os problemas decorrentes da fratura digital ou da desigualdade de fluência retórica, que poderiam levar a deixar de lado uma grande parte da população, provavelmente a mais vulnerabilizada pela situação. Esses dois limites exigirão a criação de um processo capaz de incluir essas contribuições, com o propósito de não reforçar a exclusão (e a desconfiança).
Aspetos operacionais:
1) Temas a serem discutidos para os quais todos podem contribuir, como exemplo apenas: a) o lugar da saúde na sociedade; b) financiamento, créditos, dívidas, reembolso, condição de produção; c) o que deve ser considerado como bem público; d) que tipo de trabalho promover em uma economia pós-pandemia; e) tipo de consumo e cadeias de suprimentos; f) coesão social, vínculos entre os componentes da sociedade, tipo de democracia a ser promovida nesse contexto pós-Covid-19; g) o lugar dos jovens e o papel da educação e da formação; h) o lugar da Internet, das redes sociais, etc.
2) As propostas concretas de ação poderiam ser formuladas num site em relação aos temas trazidos por cada um.
3) Organização da consulta que visa à “medir a temperatura” da sociedade através da Internet e através de canais complementares”
a) Refletir sobre o princípio de implementação e da gestão dessa “medida da temperatura”: estudo/consulta. Eventualmente, dependendo das possibilidades, uma gestão patrocinada e articulada entre o governo (parlamento, funcionários eleitos) e a pesquisa pública com todas as universidades do país (criando um comitê científico incluindo representantes dos departamentos de antropologia, economia, filosofia, psicologia, sociologia para a realização de sínteses, tendências, oficinas).
b) Moderação das contribuições na Internet para cada segmento de temas e cada segmento de propostas concretas (a fim de evitar as derivas comuns na Internet).
c) Análise, sínteses feitas por acadêmicos
d) Restituição dos acadêmicos ao mundo político, aos representantes dos diferentes setores e debate geral animado por representantes políticos
e) Debate, apropriação, arbitragem.

(1) “A via das máscaras” para parafrasear o famoso título do livro de Claude Lévi-Strauss.
(2) Supiot, A. 2015. La gouvernance par les nombres: Cours au Collège de France (2012-2014). Paris: Fayard.
(3) Tsing, A. 2017. Le champignon de la fin du monde. Sur la possibilité de vivre dans les ruines du capitalisme. Paris: La Découverte.
(4) Ver sobre esse processo: Goffman, E. 1973. La Mise en scène de la vie quotidienne (tome 1). Paris: Édition de Minuit.
(5) Comunicado de imprensa da Academia Real de Medicina (11/04/2020): « recommandation covid-19: le port de masques par la population en période de confinement et pendant le déconfinement » (http://www.armb.be/index.php?id=covid19).
(6) Ricoeur, P. 2004. Parcours de la reconnaissance. Paris: Stock. Ver também: Lévinas, E. 1971. Totalité et infini. Essai sur l’extériorité. Paris: LGF.
(7) Appadurai, A. 2013. Condition de l’Homme Global. Paris: Payot.
(8) Eraly, A. 2015. Autorité et légitimité. Le sens du collectif. Toulouse : Erès.