Son lari a sobre a epidemia do Covid-19

Mélanie Montinard
Rio de Janeiro, 19 de Abril de 2020

“Se sou Champs de Mars pou tande kote maladi kowonaviris sa sòti” (para saber de onde vem a doença do coronavírus, é preciso ir à praça do Champs de Mars), lançou-me Bob enquanto os diferentes Estados do globo se apressavam, ainda que com atraso, a declarar o estado de urgência sanitária, fechar suas fronteiras e impor o confinamento social como únicos remédios eficazes para combater a epidemia mundial causada pela Covid-19.
Estas palavras me fizeram lembrar de um episódio de crise sanitária que vivenciamos no Haiti. Apenas alguns meses após o terremoto de 12 de janeiro de 2010, o país foi atingido por uma nova catástrofe, a epidemia de cólera. Se nenhum caso havia sido diagnosticado na ilha havia mais de um século, no dia 22 de outubro de 2010, o presidente René Préval anunciou que a grave epidemia de diarreia que castigava a região de Artibonite era causada por cólera. Algumas semanas depois, incidentes explodiram entre uma parte da população e os capacetes azuis da MINUSTAH (Missão das Nações Unidas para a Estabilização no Haiti). Os manifestantes acusavam as Nações Unidas (ONU) de estarem na origem da doença e de difundi-la por todo o país, definindo assim o cólera como uma doença vinda do exterior (maladi blan). De fato, um novo contingente de capacetes azuis originários do Nepal havia chegado ao Haiti quatro dias antes da aparição dos primeiros casos que surgiram próximos a seus acampamentos. A despeito de diferentes estudos genômicos e epidemiológicos publicados, a ONU negou durante muito tempo estar implicada na propagação desta epidemia, atitude julgada moralmente condenável e legalmente indefensável. Foi somente em agosto de 2016, com algumas reticências, que a ONU reconheceu sua implicação na terrível epidemia de cólera que atingiu o país e cuja contaminação causou aproximadamente 10.000 mortos desde a chegada da bactéria e deixou doentes mais de 800.000 pessoas. Em 1º de dezembro do mesmo ano, o secretário geral da ONU, Ban Ki-Moon, diante da assembleia geral da organização, pronunciou um discurso no qual reconhecia oficialmente o papel da ONU na epidemia de cólera que devastou o país: “Nós simplesmente não fizemos o que era necessário com relação à epidemia de cólera e sua propagação […] Nós sentimos muito pelo papel que tivemos”. Pela primeira vez, ele apresenta as desculpas da organização: “Em nome das Nações Unidas, eu digo claramente: pedimos desculpas ao povo haitiano”.
Apesar de ter reconhecido publicamente sua responsabilidade e de haver destinado fundos para combater a epidemia, a reputação da ONU foi manchada, minando sua credibilidade e, indiretamente, manchando por muito tempo a imagem da ajuda internacional a um país então conhecido como a “República das ONGs”. Esta percepção nasceu da chegada massiva de novos parceiros, o que provocou a dispersão de iniciativas e a mobilização de milhões de dólares, favorecendo abordagens baseadas em projetos com uma significativa falta de coordenação em um contexto de crise. Este cenário que poderia ter servido de ensaio geral para a próxima crise sanitária, onde imaginar-se-ia uma melhor coordenação das respostas emergenciais entre cada um dos atores, com base nas lições aprendidas com o episódio anterior para, assim, garantir impactos reais.
Mas, no Champs de Mars, os debates de rua não deixarão de ecoar as notas falsas deste ensaio fracassado: seria a necessidade de buscar a responsabilidade humana pela epidemia diante de um certo fatalismo ao ver o país sob injeção humanitária de financiamento externo? Como nos lembra Nadège Mezié (I), esses debates de rua (ou inivèsite popilè, universidade popular), liderados por oradores experientes (II), não são apenas espaços públicos para a palavra falada, mas também práticas políticas diárias em torno de discussões centradas nos acontecimentos atuais e na vida cotidiana, revelando afirmações sobre nacionalidade, cidadania, soberania e imperialismo. E num momento em que o mundo inteiro fala de Covid-19, confinamento, quarentena, isolamento, os debates giram em torno das decisões tomadas pelo presidente Jovenel Moïse que decretou o fechamento de fábricas, escolas, igrejas e proibiu qualquer reunião de mais de 10 pessoas, bem como um toque de recolher entre as 20h e as 5h (como se a contaminação pelo vírus fosse apenas durante a noite!). Palavras que não podem ressoar diante da realidade haitiana, caraterizada por um cotidiano imprevisível onde todos devem ser os artesãos da busca por uma vida melhor (chache lavi), no Haiti e mais além de suas fronteiras. O presente no Haiti não é o confinamento que a sobrevivência impõe, mas a abertura a todas as possibilidades. Como pensar em um possível confinamento social quando conhecemos a realidade do transporte público (tap tap), dos mercados populares e suas comerciantes (madan sara sou do kamyon), das multidões marchando ao som dos rara para celebrar a Páscoa? Como é possível imaginar isso quando um amigo que mora em Porto Príncipe me diz: “M pap ka rete andedan kay, m oblije pran lari pou m al brase, si non map mouri” (não posso ficar em casa, tenho que sair [pra rua] para encontrar algum dinheiro [para sobreviver], senão vou morrer). E como escreve Federico Neiburg (III), “para a maioria, para a multidão de desempregados que cresce exponencialmente ao mesmo ritmo da pandemia, a imobilidade é um luxo inacessível, sinônimo de morte e não de vida”.
Enquanto Yuval Noah Harari aponta que “as medidas temporárias têm o infeliz hábito de durar mais do que as emergências” (IV), a falta de respeito ao confinamento no Haiti, assim como os debates sobre o número de vítimas da Covid-19 (V), são formas de protesto contra o Estado e a afirmação da falta de confiança em seu governo e nas promessas de assistência internacional na liberação de fundos. De fato, discursos oficiais ou notícias na mídia local divergem de opiniões que veem o coronavírus como uma crise na legitimidade do Estado e na sua capacidade de responder a esta nova epidemia. Diante desta nova crise de saúde (entre muitas outras crises), o governo haitiano volta a pedir ajuda da ajuda externa e passa a contar com US$ 111,6 milhões do Fundo Monetário Internacional e US$ 13,2 milhões do governo dos EUA (USAID). Números que serão considerados invisíveis pelo povo, que não deixará de usar expressões como “ak kowonaviris, leta ap chache fè kòb sou malere” (com o coronavírus, o Estado procura ganhar dinheiro em nome dos desafortunados), “Prezidan se manti lap bay, se kòb lap chache fè sou do pèp la” (o presidente mente, ele tenta ganhar dinheiro nas costas do povo), “pèp la pa kwe nan leta ni nan peyi etranje” (o povo não acredita no Estado ou em países estrangeiros). São todas expressões para combater práticas corruptas (koutay) e violência estrutural arbitrária, alimentando frustrações e violência, tornando o Estado uma instituição construída em constante oposição à nação (Michel-Rolph Trouillot). Depois do “kot kòb Petro Karibe” (para onde foi o dinheiro da Petro Caribe), não seria surpresa ouvir “kot kòb kowonaviris” (para onde foi o dinheiro do coronavírus)!
Também, como aponta Federico Neiburg, “sabemos que uma das características das crises é a mudança radical na experiência temporal. Mais do que uma simples aceleração, é uma verdadeira compressão da temporalidade que faz colidir o presente, o passado e o futuro, ameaçando tornar obsoleta ou banal qualquer fotografia dos eventos atuais”. Entretanto, a crise sanitária ligada à Covid-19 e a necessidade de confinamento social permitem uma apreensão da realidade do Haiti onde a emergência, encarnada por pessoas resignadas, se estabeleceu permanentemente diante da constante instabilidade política, da dinâmica da desigualdade social e econômica, da desvalorização do gourde (moeda nacional), da interdependência do Estado em termos de ajuda internacional ou importação, mas também dos haitianos em termos de remessas da diáspora, e das incertezas do amanhã. Como me disse um amigo: “Kowonaviris ka fè mondyal la lòk. Ayiti ka lòk, pèp la finn abitue. Men ayisyen pap ka lòk andedan kay, nap tou mouri” (O coronavírus pode fechar o mundo. O Haiti pode ficar bloqueado; o povo já está acostumado. Mas o haitiano não pode ficar trancado em casa, senão vamos morrer). Como se lòk (da palavra inglesa lock, fechar, bloquear) tivesse o poder de esvaziar repentinamente as ruas de uma cidade, de um país, ou mesmo do mundo inteiro, e de prender social e existencialmente seus prisioneiros. Mas no Haiti, o confinamento não elimina a presença da rua, ele a reinventa.
“Você não pode contar com aqueles que criaram os problemas para resolvê-los”, escreveu Albert Einstein. Numa época em que a Covid-19 está tirando milhares de vidas ao redor do mundo, os haitianos não esperam nada do Estado ou da ajuda internacional, e lembrem-se das grandes campanhas de conscientização em todo o país e suas montanhas para lidar com crises de saúde, como o cólera. Os simples gestos de proteção, que se tornaram reflexos de sobrevivência, recuperam muito rapidamente seu lugar no cotidiano das pessoas: lavar as mãos, instalar um balde de água, sabão ou cloro, tossir e se proteger com o cotovelo, colocar uma máscara. Enquanto esses gestos revelam a responsabilidade individual de cada haitiano na luta contra o coronavírus, iniciativas de responsabilidade cidadã têm sido organizadas pela sociedade civil e pelo setor privado em diferentes cidades do país, como o baile virtual organizado pelo grupo musical Konpa Kreyòl e o grupo HM. A receita do baile permitiu uma doação de mais de US$154.000 ao Hospital Bernard Mevs para melhor se preparar para receber as vítimas da Covid-19. Gestos individuais e ações coletivas contribuíram para a gestão da crise de saúde no país, enquanto ninguém esperava por soluções de cima e de fora.
Consagrado pelos debates sobre o Champs de Mars, todos concordam em definir a Covid-19 como uma doença do blan, do estrangeiro, do “chinês que come rato”, resultante de uma trama política e econômica do imperialismo que quer erradicar a população negra. O coronavírus não seria, portanto, uma doença do nèg ginen e as práticas das tradições ligadas à medicina das plantas seriam o remédio (uso de plantas, chá, álcool forte, chamado aos espíritos, rele guinen). Enquanto alguns confiam no Bom Deus (sou kont Bondye nou ye), outros esperam (em vão) que a ajuda internacional possa de fato restaurar um sistema de saúde pública acessível e sustentável ou fortalecer a economia local e a geração de renda. Mas todos estão proferindo gritos de resistência gritando sua sede de vida e liberdade, revelando uma concepção do tempo em que o Haiti seria a ilha que foi o passado da História – a ilha das vidas libertadas em 1804 – e o presente do que ainda está por nascer, mas onde o futuro só seria possível fora da própria casa, fora das fronteiras.
Como diz o provérbio crioulo, se mèt kò ki veye kò. Cabe a cada um certificar-se de que ele ou ela permaneça vivo.

(I) Mézié, Nadège. 2019. Être Haïtien en Haïti : protestation et appartenance dans les débats sur le Champs de Mars à Port-au-Prince. In : Espace Politique [en ligne], 38 | 2019-2.
Disponible sur : http://journals.openedition.org/espacepolitique/6952
(II) Os oradores, cujas habilidades oratórias e performance teatral do discurso muitas vezes iniciam os debates. São estudantes da Faculdade de Etnologia, advogados, (ex)candidatos ou representantes eleitos, especialistas em um tema específico, que marcam claramente sua posição política.](III) Neiburg, Federico. 16/04/2020. Vidas, Economia e Emergência. In: Anpocs. Portal das ciências sociais brasileiras. Boletim n° 22.
(IV) Harari, Yuval Noah. 20/03/2020. The world after Coronavirus. In: Financial times. Life and Arts.
(V) De acordo com o jornal Le Nouvelliste, em 10 de abril de 2020, havia 618 casos testados pelo Covid-19, 57 casos confirmados e 3 mortes.