O sonho do Papa e a Covid-19 em Inhambane

Ilidio Armando Cumbe
Inhambane, 25 de Abril de 2020

Quando a África do Sul registrava aproximadamente 500 casos da Covid-19, e Moçambique ainda nenhum, o ambiente era de calma e relativa firmeza. Acreditava-se que a pele negra e a temperatura alta seriam capazes de evitar o contágio da doença, por isso a distância em relação aos riscos da doença era notável. Pelas ruas da cidade de Inhambane trocavam-se conversas do tipo: esta doença é para os brancos, por isso não atinge os negros; a doença só atinge países com temperaturas baixas, países como o nosso, de temperaturas altas, não; a doença ataca idosos de 60 anos para frente, por isso não há razão de tanta preocupação porque a esperança média de vida em Moçambique não ultrapassa os 60 anos…
Se por um lado se notava uma relativa calmaria e certeza para alguns moçambicanos que confiavam na resistência e na imunidade conferidas pela cor de sua pele e nas altas temperaturas do país, por outro havia os que já desconfiavam da presença da pandemia no território moçambicano, uma vez que já circulavam relatos anunciando as medidas preliminares do combate ao mal.
Após esses anúncios, foi reportado o primeiro e o segundo casos positivos de Covid-19 no país afectando cidadãos de nacionalidade moçambicana e sul-africana, ambos residentes na cidade de Maputo, com idades compreendidas entre os 30 e 75 anos. A população começou a entrar em pânico. Uma série de medidas foram intensificadas, entre elas, o encerramento das atividades nas escolas públicas e privadas, bem como a limitação de circulação das pessoas, o que indicava claramente que o vírus já teria infectado outros cidadãos no território nacional. Daí para frente as conversas sobre os métodos de prevenção passaram a dominar os temas do dia-a-dia entre os moçambicanos. Em poucos dias, mais casos, a doença foi se multiplicando em algumas províncias do país. É o caso de Cabo Delegado e Maputo, que apresentam até o momento casos positivos confirmados. Com tal registro, surge a indicação entre os moçambicanos de que o vírus não se relaciona com o tipo da pele, com o tipo de clima predominante e nem mesmo com a idade: a verdade é que ela afecta todo tipo de pessoa.

Falsa boa nova: um rumor envolvendo o Papa Francisco
Na província de Inhambane foram divulgados pelos meios de comunicação social e pelos órgãos de saúde métodos de prevenção à Covid-19, entre os quais: a água com sabão, álcool, água sanitária e cinza.(I) Além desses, falava-se da (falsa) “boa nova” do papa através de rumores que circulavam pela cidade. Os manhembanes,(II) com o registro dos primeiros casos positivos de Covid-19, desacreditaram da resistência da sua pele e dos efeitos positivos das altas temperaturas do seu país e da província de forma particular. Ato contínuo, são apanhados por outro rumor: “Mati ya sissi wa bibilia”.(III) O método foi considerado eficaz e por isso ganhou espaço nas cidades e nas zonas rurais da província.
Estrela, residente no distrito de Massinga, na província de Inhambane, conta: “Eu recebi uma chamada de uma irmã da igreja (católica) no período da manhã informando que eu devia pegar na bíblia, vasculhar até achar um fio de cabelo, misturar com água e beber junto com a minha família como forma de nos prevenir da Covid-19”. O Senhor Jaime, meu vizinho, residente na cidade de Inhambane, veio alegremente à minha casa dizendo: “Mina ndzi ponile gi noham” (eu me escapei desta), assim se referindo depois de beber “mati ya sissi wa bibilia” oferecido pelo seu amigo em algures da cidade de Inhambane vindo da sua machamba (roça). A água referida era a que continha o fio de cabelo de modo a evitar a Covid-19, acreditando que ao bebê-la não ficaria contaminado da doença e estaria isento de usar outros métodos de prevenção. Assim, a equivocada “boa nova” foi se alastrando até que preocupou os órgãos de comunicação social e o sector de saúde, bem como a própria igreja católica, que via o seu líder suspeito de difundi-la.
“Mati ya sissi wa bibilia” é considerado pelos manhembanes católicos como um sonho que o Papa Francisco teve e difundiu aos cristãos. O sonho orientava que, ao pegar na bíblia sagrada e vasculhar, os cristãos encontrariam no seu interior um fio de cabelo, que deveria ser ingerido com água como forma de salvação em relação à Covi-19. A tese principal era que, quem bebesse a água, apresentando sintomas ou padecendo da Covid-19, curava-se imediatamente, e quem a bebesse antes de ser contaminado jamais ficaria doente. Assim, difundia-se a falsa “boa nova” e a população fazia um corre-corre procurando por qualquer bíblia para achar o referido fio do cabelo alojado no seu interior.
Áudios, mensagens e chamadas não paravam de circular nos telemóveis (por Whatsapp e Facebook) no sentido de divulgar a “boa nova” atribuída ao Papa, “Mati ya sissi wa bibilia”, e só pararam de circular quando o bispo da igreja católica, Dom Adriano Langa, apareceu nos meios de comunicação social a refutar a falsa “boa nova” explicando que: “Deus disse, cuidado com falsos profetas, pois estes aparecem em momentos de aflição e agitação dos povos para aproveitar-se do desespero e da fraqueza propalando informações falsas acerca de Deus e de seus discípulos”.
O bispo lançou um apelo: “aos cristãos católicos, não se agitem tanto. O Papa nos seus trabalhos religiosos não envolve sonhos, o Papa trabalha com a fé e pela fé. Por isso dizer que foi o Papa quem sonhou e difundiu aos cristãos católicos que existe no interior da bíblia um fio de cabelo que cura a Covid-19, é falso”.
É interessante observar como foi fácil difundir em tão pouco tempo o rumor sobre a água do cabelo de salvação, tanto nas zonas urbanas como nas zonas rurais, ainda mais que os métodos recomendados e confirmados pelo sector da saúde como aplicáveis para combater o vírus tinham pouca aceitação. Ou seja, assuntos com apelos religiosos são mais bem aceites do que os divulgados pelo governo. Para a maior parte da população, o Estado é algo muito distante das suas vidas. Por isso também recorrem a outras fontes de explicação para esse tipo de problema. Esse é um ótimo caso para refletirmos sobre a influência de distintas instituições na vida cotidiana da população desta província. Estado e igreja parecem entrar em tensão quando o assunto é a saúde e o corpo.
Nos chapas,(IV) por exemplo, é notável a crescente desobediência às medidas do estado de emergência. As pessoas continuam a não usar as máscaras. Nos mercados a situação é a mesma, os clientes circulam sem observar os métodos de prevenção. Certamente os meios de comunicação ajudam a difundir informações, mas as pessoas buscam nas suas próprias crenças o que melhor poderiam fazer, e isso não pode ser desconsiderado… O acesso à informação, entretanto, não garante que as medidas preventivas serão seguidas.
Em Massinga, mais especificamente no povoado de Quême, terra natal da senhora Estrela, crianças, jovens e adultos ainda disputam bancos (assentos), uns para divertirem-se nos jogos tradicionais (txuva e murava-rava),(V) outros para uma sentada para tomar um copo de malcuado (bebida tradicional local) no xitique,(VI) e outros ainda disputam por um lugar na equipe de futebol 11. É assim como tem sido o dia-a-dia naquele povoado, sem observar quaisquer medidas de prevenção ao contágio do perigoso vírus, tal como divulgadas pelo governo.
Roberto, um dos jovens do povoado de Quême, conta que é assim como vão ganhando a vida, praticando a agricultura de subsistência familiar (com recurso à enxada de cabo curto e à charrua)(VII) nas pequenas machambas abertas próximas de suas residências até que a crise passe, e novas oportunidades se abram, uma vez que todos os jovens daquele povoado tiveram que voltar de Maputo, dos locais de trabalho onde ganhavam o seu pão, comercializando frutas e outros produtos na capital do país. Este e outros jovens lembram que a crise lhes apanhou de surpresa, mas mesmo assim afirmam estar preparados para voltar a desafiar a vida nos seus locais de trabalho assim que a crise passar.
Roberto, numa conversa amigável, disse: “Aqui estamos em casa, por isso estamos a salvo, porque todos somos daqui e ninguém poderá trazer-nos a doença, porque todos voltamos e ninguém até agora apresenta sintomas da Covid-19. Assim que a pandemia passar, todos nós iremos voltar ao trabalho, porque aqui estamos todos à sorte de Deus praticando a agricultura. Os únicos que continuam a trabalhar são os chapeiros”.
O facto é que, mesmo que se tenha propalado muito rapidamente a falsa “boa nova” no âmbito da divulgação das mensagens sobre os métodos de prevenção da pandemia, não se pode desvalorizar o papel da igreja (católica), pois esta notabilizou-se como essencial em vários processos da vida social e política do país, como as negociações para paz em finais da década de 1980 início dos 1990, que culminaram com assinatura do Acordo de paz em Roma no ano de 1992. O Estado e a igreja, mesmo que aparentemente entrem em tensão quando o assunto é a saúde e o corpo, produzem esferas de colaboração e consenso: sobre o combate a este mal, a igreja católica acatou as medidas do estado de emergência decretado pelo governo. Algumas igrejas na zona centro continuaram a orientar cultos de forma oculta e o governo precisou interferir, encerrando as suas actividades antes que o pior acontecesse. Entre a fé e a cidadania, a população segue prevenindo-se. Mas já não nos restam dúvidas de que o vírus não escolhe a cor da pele.

(I) Cinza é um pó resultante queima de materiais inflamáveis normalmente resultantes das árvores (estacas ou folhas).
(II) Manhembanes é o termo usado para referir se referir aos nativos da província de Inhambane.
(III) “Mati ya sissi wa bibilia” é uma expressão usada na língua local xitswa para dizer “água do cabelo da bíblia”.
(IV) Chapa é uma expressão usada para designar aos transportes urbanos (semi-colectivo) de passageiros.
(V) Txuva é um jogo tradicional composto por um total de 24 dados que admite dois jogadores. Murava-rava é também um jogo tradicional, mas composto por 48 dados, e que também admite o máximo de dois jogadores.
(VI) Xitique é uma forma de associativismo comunitário em um determinado grupo de indivíduos contribui periodicamente com um certo valor em dinheiro ou bens materiais para que um, de forma rotativa, receba o conjunto das retribuições.
(VII) Enxada de cabo curto é um instrumento (com cabo de ferro ou pau) usado para capinar, sachar ou revolver a terra. Charrua é instrumento de uso tradicional com recurso a atracão animal (boi/vaca ou burro) usado no cultivo das machambas.