Da janela lateral

Beatriz Ribeiro Machado
Mariana, 22 de Abril de 2020

Já perdi as contas dos dias de quarentena enquanto, ainda com sono, tomo meu café na mesa da copa. Da janela lateral vejo os caminhões e ônibus da mineração subindo e descendo no sentido das minas ainda em atividade na região. Em meio às montanhas e um céu quase sempre nublado, observo os automóveis distantes cruzando a estrada em mais uma manhã fria. Na cidade, mesmo da janela, consigo identificar igrejas e casarões barrocos centenários, que contam em suas ruas de pedra sabão o avanço da história de exploração humana e mineral. Ao fundo, de manhãzinha ou no final da tarde, ouço o apito do trem da Vale levando passageiros e cargas, de Mariana e Ouro Preto. Essa é outra atividade da mineradora que também segue com normalidade.

Mariana é uma cidade marcada pelo maior desastre socioambiental da história do país, decorrente do rompimento de uma barragem de rejeito de minério em 2015 que devastou comunidades inteiras das zonas rurais do município e matou o Rio Doce, importante curso d’água que cruza os estados de Minas e Espírito Santo. A cidade é economicamente dependente das mineradoras BHP Billiton/Samarco/Vale, nomes conhecidos por desastres e mortes constantes em decorrência das mais de 600 barragens cadastradas em Minas (aqui podemos incluir as empresas CSN, Gerdau), estando pelo menos 22 delas em alerta de risco de rompimento segundo dados de 2019 da Defesa Civil e Agência Nacional da Mineração (ANM).

Em casa o dia segue como outro qualquer das últimas semanas. Tenho preenchido o tempo com leituras, pois nesse momento meu campo foi irremediavelmente interrompido. Mantenho contato com alguns amigos que fiz no campo, mas apenas por telefone. Essa situação gera particular angústia, visto que começava a me aproximar mais do cotidiano das pessoas e a frequentar suas casas, principal assunto de minha pesquisa. Essa lacuna do campo me obriga a lidar com uma sensação de recomeço, estaca zero novamente. No café da tarde, mais uma vez os caminhões e os ônibus seguem seus trajetos, agora predominantemente em direção à cidade de Mariana, levando de volta seus funcionários. São ônibus de uma empresa específica, muito fáceis de serem localizados, mesmo que eu os veja de tão longe.

Pontualmente às 18 horas o Instagram da prefeitura lança os números atualizados de casos de Covid-19 nas redes sociais. Moro com duas jornalistas da cidade e em casa há certa ansiedade por essas notícias diárias. Nesse dia, ainda 30 de março, começo do isolamento, o boletim atrasou. Logo suspeitei que algo poderia ter acontecido. No começo da noite foi notificada a primeira morte em decorrência do vírus. Um homem saudável, de 44 anos, funcionário da Renova, fundação criada pelas mineradoras citadas acima para atuar no processo de reparação das famílias atingidas pela barragem de Fundão, deixa mulher e filhos.

Nas mídias sociais, muitos aguardavam maiores informações sobre o caso. Eram muitas especulações e muitos comentários contra e a favor ao isolamento. A pressão da cidade sempre foi para que a mineração permanecesse, visto a dependência do município com relação a esta atividade possui. Ademais, nos últimos anos, com a paralisação das obras da Samarco, houve uma severa crise econômica na cidade. Mal a lama havia passado, os atingidos ainda sem casa, e já havia protestos na cidade, com pessoas de branco pedindo o retorno da empresa. A prefeitura segue na mesma perspectiva e o prefeito, no dia seguinte à confirmação do óbito, se pronunciou através de uma live, dizendo que não poderia pressionar uma paralização visto que “as mineradoras disseram que haveria uma demissão em massa na cidade”.

Em âmbito nacional, alguns dias depois, o próprio governo federal definiu a mineração como sendo ‘atividade essencial’ e impediu a possibilidade de seus trabalhadores manterem o isolamento recomendado pela Organização Mundial de Saúde – OMS. Segundo o presidente da Associação Brasileira de Empresas de Pesquisa Mineral (ABPM), Luiz Azevedo, em entrevista ao Jornal O Tempo de 2 de abril, “paralisar as operações do setor da mineração teria um efeito drástico no aumento de risco para suas instalações”, disse. A mineração é colocada em um patamar de essencial para nossa sobrevivência, assim como os hospitais e serviços de abastecimento de alimentos.

Mariana, um município de pouco mais de 50 mil habitantes possui hoje, além de um óbito, 14 casos confirmados e mais de 250 pessoas em monitoramento. O contágio já é considerado comunitário e os números podem ser ainda maiores, de acordo com profissionais da saúde, como a médica e professora da UFMG, Jandira Maciel, em Live para o Movimento pela Soberania Popular na Mineração – MAM, “as subnoticações nos casos de Covid-19 nos coloca a obrigação de procurar novos meios de informações. A mineração é uma condição de trabalho das mais insalubres, nós temos algumas patologias que funcionam como fatores de risco para agravar o problema do Coronavírus”.

Os números relativos aos casos de Covid-19 no país dão conta de informações como gênero e faixa etária, no entanto, as ocupações e áreas de atuação não são contempladas nos dados oficiais. Esses números são muito importantes para entendermos melhor os riscos os quais a mineração mais uma vez expõe seus trabalhadores e comunidades. Nas regiões próximas à mineração temos povos quilombolas e indígenas que mais uma vez podem ser atingidos pela dinâmica do lucro na exploração mineral. Entretanto, o contato com funcionários e o trânsito de caminhões todo o tempo não cessa e o risco à exposição do vírus chega inclusive a essas comunidades até então isoladas. Em seu mais novo livro O amanhã não está à venda, Ailton Krenak, membro da aldeia atingida pelo desastre, narra o luto do Rio Doce, sagrado em sua cultura, e o sentimento frente ao coronavírus: “faz algum tempo que nós na aldeia Krenak estávamos de luto pelo nosso Rio Doce. Não imaginava que o mundo traria esse novo luto” (p. 5 e 6, 2020).

Mariana, em decorrência da flexibilidade das medidas de isolamento, segue em uma espécie de negacionismo, onde muitas vezes vemos as ruas cheias de idosos reunidos jogando baralho, conversando… Da janela posso ouvir vozes de pessoas reunidas, cheiro de churrasco, música alta o dia todo. Em contrapartida, algo que ouço com muito menos recorrência é o carro da prefeitura que informa sobre a pandemia e adverte “evite sair de casa, ‘se possível’”, que aos meus ouvidos acaba soando como algo quase jocoso. Com essas pequenas chancelas, os números seguem crescendo vertiginosamente e a sensação de insegurança é imensa. O serviço de saúde no município está muito aquém da bomba relógio que pode estar prestes a explodir.

As mineradoras doam alguns milhões à Prefeitura e poder público finge normalidade, ameaçando inclusive reabrir o comércio, o que só foi barrado pelo aumento nos números suspeitos e mais duas mortes, posteriormente descartadas. Em suma, os trabalhadores da mineração, que por si só já debilitam seus sistemas respiratórios em decorrência do pó de minério inalado, colocam mais uma vez suas vidas, de suas famílias e de toda a comunidade em risco. Da janela, com medo de sair, penso mais uma vez no conhecido questionamento que fazem os movimentos sociais de luta contra esse modelo de exploração do minério: Quanto Vale a vida?

Referência
KRENAK, Ailton . 2020. O amanhã não está a venda. São Paulo: Companhia das letras.4