São Francisco do Conde, UNILAB e a Irmandade dos Malês

Daniel De Lucca
Salvador, 22 de Abril de 2020

I

No dia 6 de abril foi confirmado o primeiro caso do novo coronavírus em São Francisco do Conde, cidade de cerca de 40 mil habitantes localizada à 70 km de Salvador, no recôncavo baiano, região cuja formação urbana remonta os primórdios da colonização portuguesa nas Américas. Na ocasião da confirmação do caso, o prefeito forneceu informações sobre a doença em rede social e a secretária municipal da saúde lembrou a “população franciscana” da importância da empatia e do cuidado com o outro, criticando o comportamento de alguns cidadãos. Reclamava que todos queriam saber “quem é a pessoa que foi infectada pelo coronavírus, onde mora, qual sua atividade”? De fato, até o pronunciamento das autoridades municipais, desinformações circulavam na cidade e algumas pessoas utilizando máscara eram vistas com desconfiança ou mesmo hostilizadas, de modo que que os utensílios de proteção eram interpretados como símbolos da ameaça e não da segurança. Os primeiros casos de coronavírus confirmados na Bahia ocorreram no interior do estado e não na capital, em Feira de Santana, cidade próxima de São Francisco do Conde. Segundo os jornais, o vírus teria vindo com uma mulher recém-chegada da Itália que contaminou a empregada que trabalhava em sua casa. Posteriormente os familiares da trabalhadora adoeceram e esta que veio a falecer. Este foi o primeiro óbito por coronavírus na Bahia, expondo lógicas das desigualdades sociais da pandemia e revelando como as domésticas tornaram-se um “grupo de risco” no início do contágio brasileiro.

Mas cerca de quatro semanas antes do primeiro caso de coronavírus em São Francisco do Conde vir a público, o campus dos Malês, da Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira (UNILAB) já havia suspendido suas atividades naquela cidade. O que gerou alívio mas também muita apreensão entre os estudantes, pois a partir de agora não mais poderiam comer diariamente no restaurante universitário. Com a missão de “formar profissionais e cidadãos para contribuir com a integração entre o Brasil e os demais Estados membros da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP)”, a UNILAB é uma universidade federal relativamente nova, que acolhe estudantes do Brasil, dos PALOP e Timor-Leste, e seu currículo é direcionado especialmente para as conexões afro-brasileiras. Com a pandemia chegando na Bahia, os mais de 1000 estudantes das 6 nacionalidades – Angola, Brasil, Cabo-Verde, Guiné-Bissau, Moçambique e São Tomé e Príncipe – que conviviam neste novo e pequeno campus, com recursos limitados e distante da sede (localizada no Ceará), agora passaram a lidar com mais uma situação adversa. A maioria dos alunos vêm de classes populares e dependem de uma bolsa-auxílio de 530 reais promovida pela UNILAB, um recurso que ficou apertado para pagar pela alimentação que era oferecida diariamente pelo refeitório universitário. Isso sem falar naqueles estudantes que vivem na cidade e que não possuem nenhum tipo de auxílio. Com a pandemia veio também o medo de faltar comida em casa, além da certeza de que o projeto de integração internacional da universidade converter-se-ia, a partir de então, num duro processo de quarentena e isolamento social.

II

Ainda no mesmo mês de março, com a chegada da pandemia no Brasil, a sempre difícil comunicação entre o campus dos Malês, em São Francisco do Conde, e a reitoria da UNILAB, em Redenção, Ceará, ficou ainda mais complicada devido a brusca troca de chefia na reitoria. Entre mensagens de WhatsApp e emails inflamados, recebíamos informações que narravam a ascensão de um novo grupo no controle da máquina universitária. Rumores chegaram a descrever aquele movimento como um “golpe” dado por um grupo religioso, da UNILAB do Ceará, associado ao Ministério da Educação em Brasília. O que gerava mais temor e insegurança. Seja como for, a dança das cadeiras universitárias comprometeu a celeridade das respostas da nova reitoria, tanto em relação às diretrizes institucionais relativas ao coronavírus quanto em relação à criação de um “auxílio emergencial” para os estudantes – resultado de muita pressão feita por alunos, professores e funcionários.

Em conversa com o estudante Vladimir Sá, ele me contou que “o auxílio emergencial ajuda bastante, mas é pouco”. De fato, os 200 reais adicionados à bolsa-auxílio foram fundamentais para aliviar a pressão dos estudantes no começo do mês, mas ainda havia muita dúvida se seria suficiente até o fim do mês de abril. Vladimir é guineense e vive com outros dois compatriotas num apartamento pequeno em São Francisco do Conde. Ali só se fala crioulo, língua que é a segunda mais praticada na universidade. Ele está preocupado com seus amigos e parentes na Guiné-Bissau, país em que o governo decretou “estado de emergência” como forma de legitimar uma ruptura institucional em curso, aproveitando-se da situação de crise sanitária para atacar os direitos dos cidadãos guineenses. Em Bissau, segundo Vladimir, “para fazer o teste, a coleta tem de ir para Senegal e ficar lá por alguns dias e só depois volta. O país só tem 3 máquinas para respirar na capital. Duas delas em hospitais privados”. Além disso, “é muito difícil falar com a família. Não há internet fácil na Guiné-Bissau e o contrato com a rede local é muito caro”.

Abdulai Djabi também é um aluno guineense, fala mais de 5 línguas e integra o projeto de extensão de cultura e língua árabe na UNILAB. Sua figura é conhecida no campus dos Malês e até o sheik da mesquita de Salvador reconheceu em Abdulai a posição de imã (autoridade religiosa) da comunidade muçulmana de São Francisco do Conde. Em conversa, Abdulai me falou que está com dificuldades para encontrar e preparar sua comida, não só por sua dieta ser mais restrita devido à religião, mas também devido à própria gastrite que desenvolveu. Contou que com a quarentena seu grupo está respeitando as recomendações sanitárias e religiosas: “nosso grupo não pratica mais a reza junto. Tivemos de abandonar o encontro de sexta e o mensal. Em muitos países as mesquitas fecharam, também em Bissau e Salvador. A própria mesquita do profeta está fechada, Meca também.” Para ele a situação está difícil. “Estou preocupado. Parei de ler o alcorão e também os textos da universidade”. Contou que em São Francisco do Conde as pessoas demoraram muito para começar a usar máscara e continuam a circular muito nas ruas. Ele mesmo não possui máscara, usa um ornamento árabe, tipo turbante, para se proteger. Já conhecendo um pouco do histórico das interações sociais na cidade, perguntei se os “franciscanos” não ficam assustados quando Abdulai sai nas ruas de turbante. Ele deu uma risada e considerou, “verdade professor, alguns ficam”.

Sara é são-tomense e recentemente se formou no curso de Relações Internacionais da UNILAB, mas continuou vivendo em São Francisco do Conde com seu companheiro e mais duas colegas. Como não possui mais vínculos institucionais com a UNILAB, perdeu o auxílio. Por vezes recebe alguma ajuda de sua avó de São Tomé, mas depende dos laços de confiança que teceu no Brasil: “o mais importante é que aqui em casa todo mundo divide a comida”. Conta que antes, era a família que, longe, estava preocupada com ela, “agora que o vírus chegou em São Tomé sou eu que estou preocupada com eles. Os primeiros casos vieram de Portugal, as pessoas chegaram e não cumpriram quarentena”. Segundo ela, “só há dois hospitais públicos no país, um em São Tomé e outro em Príncipe e os testes têm de ir para os laboratórios de Malabo (Guiné Equatorial) ou Libreville (Gabão) e depois voltam”. Quando conversamos, antes de escrever este texto, a filha de Sara, Naira Apili, estava prestes a nascer. Contou que o atendimento de saúde em São Francisco do Conde sempre é muito demorado, “consultas levam meses”, mas como ela está grávida, o atendimento é rápido. Prefere os hospitais de Salvador, mas como na capital há mais casos de coronavírus, decidiu ter a filha no hospital local, onde poderá ter mais apoio das amigas e de Arseno, estudante guineense da UNILAB e também pai de Nairi Apili. Sara me avisou que o parto correu bem e a menina é saudável. Ela está decidida a continuar no Brasil, cuidar de sua filha e entrar no mestrado, numa universidade pública, com um projeto de pesquisa sobre o lugar das mulheres na diplomacia são-tomense.

III

O caso de Sara não é único na UNILAB. Preocupadas com as mães-estudantes (ou ex-estudantes) que estão de quarentena em São Francisco do Conde, Sara e suas amigas fizeram um levantamento e detectaram 26 mães ligadas à UNILAB, 4 sem qualquer forma de auxílio universitário. E a falta de recurso é um tema corrente na comunicação entre os estudantes. Em tempos normais são frequentes as reclamações de que os moradores de São Francisco do Conde cobram aluguéis exorbitantes dos estrangeiros que chegam para estudar. Mas esta exploração econômica, de conteúdo xenofóbico, foi agravada no contexto da pandemia devido ao aumento geral dos preços dos alimentos nos mercados da cidade. Alarmados, estudantes me contaram que antes da pandemia um saco de arroz que custava 3 reais, subiu para 4,90, e que o quilo de carne que era 17 reais passou para 28 reais. Um impacto considerável em suas economias.

Preocupados com a situação, muitos professores vivendo em Salvador se mobilizaram e pensaram em formas alternativas de ajuda. Eu mesmo busquei direcionar meu projeto de extensão universitária, ligado à educação em Direitos Humanos, à acolhida daqueles que estivessem em maior dificuldade. Mas a organização mais fundamental veio do trabalho dos próprios estudantes que formaram uma incrível rede de solidariedade na cidade. Eles identificaram 70 estudantes que estavam em quarentena em São Francisco do Conde sem nenhuma forma de auxílio ou recurso. Além das mães, também foram detectados outros estudantes que precisam de cuidados mais especiais. Uma bela plataforma virtual foi elaborada para receber doações, pedidos de apoio, oferecer informações sobre a doença, encontros virtuais e partilhas sobre bem estar, protocolos de saúde etc. Intitulada “Irmandade Malês”, a plataforma tem funcionado, junto com as redes de WhatsApp, como um interessante espaço de integração e coordenação de ações, capaz de mapear demandas, dialogar com setores institucionais e fortalecer cuidados coletivos entre brasileiros e africanos.

A partir do mapeamento feito pelos estudantes foi mais fácil encaminhar recursos. Vaquinhas foram feitas e o sindicato dos professores da Bahia (APUB) contribuiu com a compra de 56 cestas básicas de alimentos orgânicos produzidos na região e providenciou a distribuição na casa de pessoas-chave, e também no quilombo Dom João. A principal liderança quilombola desta comunidade, Dona Joca, é uma de nossas mais entusiásticas estudantes e está diretamente envolvida na organização desta rede de solidariedade. Enquanto o fim do mês de abril chega e os recursos se tornam mais escassos entre os estudantes, uma nova preocupação os atormenta: a falta de preservativos. Ao que tudo indica, o estoque de camisinhas em São Francisco do Conde se esgotou. Novas articulações estão sendo feitas para lidar com a questão, mas os jovens encontram-se apreensivos sobre suas necessidades, desejos e os cuidados a respeito da sexualidade e dos prazeres compartilhados. Em todo caso, esta péssima notícia não deixa de ser um sinal da vitalidade unilabiana. Um poder vital que resiste e pulsa vibrante em meio a um cenário fortemente marcado pela morbidade e pela necropolítica.