Aulas a distância, fake news e marmitas do RU: cotidiano estudantil em tempos de Covid-19

Adilce Ferraz, Andy Mendes Carvalho, Edilene Alves da Silva, Chantal Medaets
Campinas, 21 de Abril de 2020

Esse é um comentário escrito a 8 mãos: somos três estudantes indígenas da Unicamp e uma pesquisadora desta universidade que conversamos sobre como cada uma está vendo as repercussões dos últimos acontecimentos entre os estudantes indígenas e partilhamos aqui nossas percepções. Fizemos um experimento de escrita: ora em terceira pessoa, ora em primeira, o texto busca compor experiências vividas por cada uma e outras comuns. Esperamos que vocês consigam nos seguir.  

Foi naquela quinta-feira 12/03, quando a Unicamp anunciou que cancelaria todas as atividades presenciais, que nos demos conta, junto com outros estudantes e provavelmente com a maioria dos professores desta universidade, que a pandemia da Covid-19 estava realmente perto de nós. No dia, muitos se perguntavam se a Unicamp, que foi a primeira universidade brasileira a cancelar as aulas presenciais, não estava “exagerando”, agindo “antes da hora”… No fim de semana que se seguiu (15-16/03), Dória informou que as escolas do estado também deixariam de fazer atividades presenciais.

Tudo foi muito de repente, e junto com as dúvidas que surgiram sobre a doença, passamos a nos preocupar com o semestre letivo. Haveria aulas a distância? E quem não tem computador ou acesso à internet, como acompanharia as atividades? Entre os estudantes indígenas, a maioria não tem computador ao chegar aqui. Os ingressantes de 2019 foram aos poucos conseguindo um, através de doações. Entre os novos de 2020, mais da metade só tem celular (e vale dizer que muitos não sabem manejar um editor de texto). Depois de bastante debate interno, a Unicamp acabou decidindo não suspender o semestre. Tem aulas acontecendo via Googlemeet, outras com leituras a distância ou videoaulas, professores flexíveis e outros menos. Um de nós está nas exatas e temos listas longas de exercício para entregar. Sem muita ajuda e valendo nota. 

Como os estudantes indígenas têm vivido isso? Uma coisa é certa, não dá para generalizar. Temos amigos bem perdidos. Já tinham dificuldade, sobretudo com o português, e agora dizem não estar “entendendo nada”. São muitos e-mails, plataformas, mensagens de todos os jeitos, não se encontram. Alguns ingressantes de 2020 não conseguiram se inscrever em projetos BAS e estavam medo de perder as bolsas. O SAE informou que isso já foi resolvido, mas tem tanta coisa sendo dita, notícias contraditórias circulando, mal-entendidos, ficamos com muitas incertezas. Outros estudantes, inclusive levando em conta tudo isso, têm militado para que o semestre seja cancelado: “a Unicamp nos trouxe até aqui, tem que considerar nossa realidade”, dizem. Mas no meio de tudo isso, também têm os que têm conseguido se virar. Identificaram as matérias que têm dificuldade e trancaram, e estão acompanhando as outras, pelo que dizem, bem. Há ainda os que têm sofrido com a falta de rotina, sabem que têm leituras e trabalho para fazer e não conseguem se organizar. Alguns têm família e crianças em casa, o que, nem precisa dizer, não facilita a concentração. 

A Unicamp fez uma força tarefa para conseguir equipamentos e começou essa semana a doar ou emprestar notebooks ou ipads tanto para estudantes indígenas quanto para outros bolsistas, que estão nessa mesma situação. Isso deve melhorar as coisas para quem ficou por aqui. Pois como muitos estudantes de maneira geral, diversos indígenas voltaram para suas casas. E ali em suas aldeias ou cidades, a internet nem sempre ajuda. Mas a maioria continua na moradia estudantil ou em repúblicas em Limeira. 

Sobre as recomendações de quarentena, o que sentimos é que a clivagem política que vemos no Brasil, e mundo afora, está bem presente nos nossos grupos. Vídeos, áudios e fake news viralizam no Whatsapp. De um lado, os que defendem que a pandemia é uma conspiração chinesa – e comunista – para dominar o mundo, que o governo brasileiro já achou a cura, que “não se vê ninguém cobrando a China como fizeram com o Brasil quando ocorreram as queimadas”, que na vacina contra o H1N1 vai ser introduzido um chip para nos controlar, orações evangélicas conclamando a apoiar o presidente contra o “golpe de Dória”. Do outro lado, vídeos sobre a dinâmica da transmissão da doença insistindo na importância da quarentena, mensagens dos profissionais da saúde da Unicamp, materiais didáticos sobre prevenção feitos por ONGs em diferentes línguas indígenas. 

As pessoas encaminham as mensagens e pouco as comentam. Às vezes a gente até se pergunta se quem manda leu ou ouviu o que está mandando. Nossa impressão, e algumas de nós viveram isso, é que os estudantes chegam aqui e mergulham nas redes sociais. Antes muitos tinham planos de dados limitados, o celular não pegava. Aqui a internet é mais acessível, ninguém desgruda das telas. E poucos questionam o que vêem: apareceu na internet, todo mundo tá vendo, é verdade. 

Para aquelas, como nós que escrevemos, que pensamos mais como os vídeos do lado que apoia a quarentena, falar com os pais também pode ser delicado. Os pais de uma de nós, por exemplo, são líderes evangélicos e continuam organizando cultos presenciais. Acham que tudo isso é uma provação de Deus para ver quem é realmente fiel, e que Deus fica muito triste ao nos ver usando máscaras. Me incentivam a procurar locais de culto aqui. Outro pai, mais sarrista, acha uma de nós muito ingênua de não ver a “armação da China” contra o resto do mundo. Todas nós temos muito respeito por nossos pais, então ficamos só escutando. 

No dia a dia por aqui, mesmo para os que gostariam de ficar em casa, fazer quarentena na moradia estudantil não é uma tarefa fácil. Uma de nós, por exemplo, está sozinha numa casa da moradia, as outras estudantes foram para a casa dos pais. Venho tentando evitar encontros com outras pessoas, até porque tenho problemas respiratórios sérios e isso aumenta o risco de contágio. Mas sempre chegam pessoas na minha casa, onde não quero compartilhar copos, talheres, ou estar no mesmo ambiente. Chegam sobretudo outros indígenas que vêm em grupo. Sinto que para eles é difícil entender todos esses cuidados, evitar contato com as mãos, beijos, abraços. Acham estranho e pareço chata. Estão sempre aglomerados, seja para festinhas, saídas em bar (que continuam funcionando só com a porta encostada), diversão. Isso tem agravado minha ansiedade. Tento mostrar outras alternativas como a opção de interagirem comigo de outra forma, através de redes sociais, mas não funciona muito. De toda forma, muitos de nós estão indo de ônibus todos os dias buscar marmitas no Restaurante Universitário. E os ônibus vão cheios. Então dizem que já estão “na rua de qualquer jeito”… 

Outra de nós mora numa república onde uma das meninas ficou doente, com febre e tosse. Ela foi para casa dos pais, não fez o teste porque não havia disponíveis, mas o médico acredita que tenha sido Covid-19. Naquela semana, muita gente ficou gripada, aqui em casa também, depois fomos melhorando. Provavelmente não vamos saber o que foi. Para mim, o mais difícil tem sido ficar sem correr. E sem jogar futebol. Quando me formar, quero voltar para minha cidade e montar um projeto social de futebol feminino lá, no Amazonas. Parece longe por enquanto, mas penso nisso sempre.