Lisboa na quarentena, novas sensações e problemas antigos

Simone Frangella

Lisboa, 20 de Abril de 2020

I – Cheguei em Lisboa no dia 18 de março. Uma viagem às pressas, decorrente de uma mudança de ventos em função do COVID-19, e temendo o cancelamento geral dos voos para Portugal. Esta alteração de planos direcionou-me, portanto, numa espécie de contramão da onda epidêmica; dos seus efeitos, que começavam a se fazer sentir no Brasil, para um contexto no qual o vírus começava a ser enquadrado. Há uma trajetória de sentimentos que se pode apreender neste trajeto. A começar pela desconfiança, seguindo pelo estupor, pela desorientação, pelo temor, até esta incorporação gradual de um distanciamento social, com hesitações, com lentas apreciações, e, sobretudo, tentando suspender a projeção do futuro.

O dia da chegada foi também o dia em que o governo português assinou o Decreto do Estado de Emergência. O Decreto prevê o fechamento de estabelecimentos comerciais e instituições, reduz os lugares abertos e mantém o trabalho considerado essencial. Muitas pessoas já tinham começado a ficar em casa na semana anterior ou mesmo antes. No Brasil, no momento da minha saída, as universidades começaram a cancelar as suas atividades, e os governos estaduais tomavam iniciativas para diminuir a circulação das pessoas, em permanente conflito com o governo federal. Portanto, viajo num momento em que os brasileiros, aturdidos, incrédulos, começam a ter, na concretude, a abertura da suas vidas para esta epidemia.

Portugal tomou medidas sensatas, ainda que não resolvessem de todos os problemas que afetam as dinâmicas econômicas ou a necessidade de todas as pessoas. No passar das semanas, vai-se percebendo, através dos jornais, de debates nas redes sociais, o alcance e o limite das medidas tomadas pelo governo, assim como das especificidades do país as quais, cruzadas com as medidas de emergência, garantem-nos uma certa sensação de que a quarentena está cumprindo o seu papel. A despeito das possíveis controvérsias e falhas da política adotada, o caso é que há uma orientação, que ordena as coisas e não nos deixa completamente nus, arrastados para potenciais conflitos em torno das formas de sobrevivência. O desafio acaba por ser também o de decretar uma situação de emergência sem torná-la um contexto de práticas totalitárias, ao mesmo tempo que mantendo certas práticas de vigilância. Essa linha vem sendo desenhada entre os discursos e as práticas quotidianas de manutenção do isolamento social. Já é, a meu ver, um outro momento de acomodação à realidade pandêmica mundial, aquele da apreciação, das diferentes formas de lidar com ansiedade, marcados, por um lado, pela esperança de sairmos à vida novamente; e, por outro, pela noção das fragilidades econômicas, sociais e pessoais que marcam as vidas de tantas pessoas. E é atravessando estas diferentes percepções que a minha viagem foi feita.

II – Aterrei numa nova Lisboa. O lugar onde vivo, bastante central, pode ser visto como um microcosmos da cidade, das suas projeções e vivências. Hoje há este silêncio estranho e não previsto. Os hotéis e alojamentos locais multiplicados agressivamente para dar conta do boom turístico dos últimos anos, suportado por políticas de empreendimento imobiliário excludentes, estão vazios. Os apartamentos em frente à minha casa, que ofereciam alojamento via Airbnb, estão fechados. Conversas com pessoas que trabalhavam gerenciando imóveis como estes indicam que tais plataformas estão praticamente encerradas, cancelando várias das funções que serviam como trabalho temporário a muita gente.

Os restaurantes reformulados e gourmetizados, com toda a ordem de ofertas, a conviver e competir com as tradicionais tascas (as quais desaparecem gradualmente), foram fechados. Aos poucos vamos vendo alguns deles abrirem para oferecer comida como take away. Sobram os supermercados e os pequenos mercados das pessoas do Bangladesh, algumas pequenas charcutarias e açougues, as lojas de produtos naturais, enfim, tudo o que vende comida, numa paisagem gastronômica diminuta, nada usual para os lisboetas. Os clubes de entretenimento masculino que rondam esta região estão fechados, e as poucas prostitutas trans que costumam fazer os pontos nas ruas já não aparecem há muito. Fico a pensar, preocupada, por onde andam, como obtém recursos, já que o seu sustento econômico depende de engajamento, de movimento. Em suma, a aposta econômica mais visceral feita nos últimos anos está suspendida por tempo indeterminado, numa constante lembrança da incógnita que isso é para as futuras vivências da cidade.

A pausa nos movimentos das pessoas ditada pelos processos de isolamento social não alcança certas práticas. Tem sido difícil conter os idosos em suas casas, interrompendo a sua circulação pelas praças e pela busca de um café, marca desta urbanidade, e a qual tem desafiado a imposição da quarentena. E há também, infelizmente, processos impensáveis neste período de necessidade imperativa de solidariedade, e que continuam a ocorrer concomitante à quarentena, como os processos de desalojamento de pessoas em bairros informais. Famílias inteiras vivendo em tendas após as expulsões promovidas pela Câmara Municipal de Lisboa, em condições provisórias e que não facilitam o isolamento social. Ou também a redução de comboios e autocarros em horários que as pessoas que não interromperam o trabalho devem usar, gerando a não recomendada aglomeração social. Há buracos nesta malha de proteção, de contenção pandêmica; eles aparecem denunciados nos jornais e redes sociais, mas parecem-me pouco discutidos. Nestas fissuras, outras situações preocupantes aparecem como a situação dos sem abrigo que dependiam da rede turística e dos restaurantes, assim como das carrinhas das endidades filantópicas, muitas das quais também pararam.

É certo que este meu pedaço serve como um retrato de uma dinâmica imperativa de ruas na Lisboa central. Mas está em constante interface com os prolongamentos da Grande Lisboa que fui conhecendo com o passar dos anos. Procuro saber dos bairros de lata, dos bairros de realojamento, nos quais o teletrabalho parece-me pouco presente. Seus moradores oscilam sobretudo entre ter que ir aos trabalhos essenciais ou ficarem desempregados, resultante da expectativa tensa que a contenção do trabalho e a capacidade dos patrões manterem seus empregados gera. Articulam-se redes de apoio a levantar mantimentos, para distribuição nestes lugares. Penso e contato as pessoas que conheço nos bairros que estão privados de água. Algo que eu, vindo de um país onde essa realidade por vezes se banaliza, e numa ingenuidade esperançosa, nunca esperei ver aqui. Frio, falta de água, de luz, combinações de desalento que seguem sendo assistidas silenciosamente e fazem-me pensar apreensiva na dimensão catastrófica deste horizonte iminente no Brasil.

III – As ruas esvaziaram-se e tornaram-se mais silenciosas. Aquietou-se o movimento constante, diurno e noturno, de carros, motocicletas, pessoas. O silêncio das ruas é particular, o que curiosamente coloca os prédios e o colorido dos seus azulejos mais em evidência. Estas ruas que se insinuam em direção à parte baixa da cidade costumam acolher dinâmicas do turismo e das compras, mas também das manifestações políticas, as tantas das quais já participei em Lisboa, e que nos aproxima de outras formas de reunir, de se solidarizar, de se expressar. Isso também está quieto. Há um contraste sensorial da Lisboa que costumava marcá-la. Não se ouvem as buzinas dos carros, não se cheiram os peixes em brasa, sentimos menos o vento de Lisboa.

Mas o silêncio não significa ausência. Nas franjas desta prática de isolamento social, circulam os que trabalham nos ditos serviços essenciais e, ouso dizer, aquelas cujos serviços são essenciais a determinado interesse do capital. Impactados pela quietude da cidade e as dificuldades que esta realidade cria, dentre essas pessoas estão os muitos imigrantes, divididos entre os que têm que trabalhar pois não têm nenhum amparo social e aqueles que perderam as suas possibilidades de trabalho, e os seus investimentos em serviços e negócios. Para uns, como os estafetas (motoboys), apesar da diminuição dos pedidos, os takeaways são uma salvação, para ambos, clientes e trabalhadores. Mas, para boa parte dos imigrantes que residem em Lisboa, a pandemia cria uma enorme dificuldade em “virar-se” com o capital laboral que possuem. Para as mulheres da limpeza (à exceção das que trabalham nos serviços essenciais), para as cuidadoras, para as trabalhadoras do sexo e para as que lidam com o mercado da estética, não há saída. A sensação do dinheiro que não se ganha diariamente e o limite dos mecanismos de sobrevivência marcam angustiadamente a situação de espera.

Porém, são os operários das obras a melhor tradução da sensação ambivalente, entre uma nova impressão sensorial da cidade e a lembrança da instabilidade dos muitos que vivem nela. O universo da construção civil tem sido um cartão postal de Lisboa. Nas regiões centrais, abundam prédios em reforma, guindastes, pedaços de rua interditados, caminhões e, sobretudo, operários que vêm da Grande Lisboa. As obras não pararam, martelam pela cidade toda. Teriam elas sido consideradas trabalho essencial (assim como o trabalho nas fábricas que não pararam)? Um trabalho que tenta incrementar um projeto de acomodações para o turismo, fadado a diminuir drasticamente neste ano. Qual é a pressa?

Em torno da minha casa, há três prédios em grandes obras, em diferentes momentos de construção. A construção civil tem efeito sonoro ambivalente. Na rua, é o seu som que se faz presente, que se sobressai. Por um lado, o barulho dos martelos, das betoneiras, dos carrinhos de mão e dos guindastes a encher os ouvidos tem nos lembrado que nem todos os dias parecem domingo. Por outro lado, recordam-me constantemente de que estes operários, realizando um dos trabalhos mais desvalorizados em Portugal, são aqueles a quem a aparente solidariedade social e proteção do Estado não chegam.

Assim, no prédio que fica no meu quintal, tenho a chance de observar a traseira de um prédio a ser renovado. Os donos, estrangeiros, reestruturam o imóvel para convertê-lo em um conjunto de apartamentos de luxo. Trabalhadores portugueses, brasileiros, guineenses, angolanos, cabo-verdianos circulam por seis andares entreabertos, sem máscaras, nem sempre de luvas, numa movimentação próxima, em permanente troca de instrumentos e empenhados em um trabalho incessante, sob chuva e sol. Um amigo meu que trabalha em obras disse-me que pediu ao encarregado o equipamento para proteção do vírus; a conversa não teve resultado. Ali as medidas do Estado não alcançam, e esta exploração do capital privado segue silenciosa.

Lisboa, mais aquietada, continua bela, dourada, e conivente com o compasso de espera, apesar de alguns teimosos transeuntes. Mas o silêncio obriga-nos a pensar com mais calma nas fragilidades que compõem o quotidiano dos que nela vivem e na grande incógnita sobre o futuro desta urbanidade. Pela primeira vez desde que moro aqui, as ruas não nos abrigarão para comemorar o 25 de Abril, com suas celebrações e reinvindicações. É torcer para que estas encontrem eco em novos maneiras de viver o presente e o futuro da cidade.