São Paulo, 35º dia de quarentena

David Reichhardt
São Paulo, 19 de Abril de 2020

Dia 35º de quarentena e a missão é simples e desinteressante: comprar um carregador de celular, entregar a um familiar, e passar no supermercado. Com tudo vazio, deveria fazer isto em menos de uma hora e voltar para casa.

Primeira parada: o carregador.
Em pleno sábado são realmente poucos os lugares abertos onde é possível comprar o bendito carregador. Perto de casa, estava aberta a Multicoisas, um rede que cobra o triplo mas abre até em caso de pandemia, e tinha seus funcionários atendendo na rua, com o portão fechado, à uma fila de senhoras a e motoboys. Na minha frente, uma delas já abria a terceira caixa de filtro de café, e se alongava com a vendedora sobre qual daqueles três modelos, se encaixaria perfeitamente em sua cafeteira.
Ao chegar na minha vez, descobri o quanto um carregador de celular se tornou um item de sobrevivência. R$49 reais o carregador, e mais R$49 pelo cabo. Era isso, ou sair rodando a cidade desrespeitando o que a prefeitura de São Paulo, o governador do Estado e a OMS têm recomendado.
Precisava ir da região da Pompéia até os Jardins. Na ida, tudo tranquilo, chegada rápida, encontrei e entreguei o carregador. Sem abraço, tudo rápido e a distância. Quem conhece a região, sabe que o caminho de saída é simples: estava próximo à rua Lorena, onde seguiria até a Av. Rebouças, para pegar a Dr. Arnaldo e sair. Não foi bem assim.

A Carreata
O movimento de carros na região não estava muito abaixo ao de um sábado normal dos Jardins. A sensação era de que era um feriado como qualquer outro. Seguia pela rua Lorena, enquanto me dirigia sentido Av. Rebouças, e vi uma cena única: o elegante supermercado Santa Luzia, muito conhecido na região e que ficou famoso no começo da pandemia por suas enormes filas em busca de filé mignon e papel higiênico, tinha uma fila que dava voltas na calçada e se estendia até a próxima quadra. Embora algumas das pessoas vestissem máscaras, e a maioria delas respeitasse o metro de distância, aquilo ocupou duas quadras com a fila mais organizada e sem sentido que já vi. Algo como uma “aglomeração” de pessoas “prevenidas”. Os seguranças vestiam suas “shield masks” , e controlavam a fila que lembrava o primeiro dia pré-quarentena, embora já estejamos no dia 35. Um monte de gente protegida do risco, vendendo para um monte de gente desprotegida e aglomerada. Uma obra prima do neoliberalismo.

Seguindo de carro o caminho sentido a Av. Rebouças, parei no semáforo ao lado de um carro importado grande, coberto por todos os lados com bandeiras do Brasil. Nele, a família toda, de vidros fechados e máscara (?). De dentro, um senhor com aparência em torno dos 60, cumprimentava os seguranças da rua. Difícil saber se realmente os conheciam (minha impressão é de que sim) ou se estava apenas muito animado com algo que parecia o hexacampeonato da seleção.  Me parecia um “protesto solitário”, até andar mais um pouco, quase na esquina com a Avenida Rebouças. Ali sim, uma quantidade inacreditável de carros e bandeiras do Brasil. O trânsito estava todo parado com todas as buzinas tocando. Gente com máscara, sem máscara, vidros abertos, fechados, e muitos carros adesivados com palavras de ordem contra a Rede Globo, o governador João Dória e o deputado Rodrigo Maia.

Naquele lugar, o Corona era uma questão secundária: o protesto em forma de carreata e de buzinaço acontecia bem atrás do Hospital das Clínicas, ao lado do Emílio Ribas, que nesse mesmo dia de manhã havia declarado estar com 100% de suas UTIs ocupadas com casos de COVID-19. O buzinaço simplesmente ignora os médicos e todo o pessoal da saúde que têm pedido repetidamente para que as pessoas não saiam de casa. Mas, naquele local, o maior problema do Brasil era a Globo, o João Dória, o Rodrigo Maia e a China (e provavelmente George Soros!), que estariam todos alinhados com o objetivo de “derrubar o mito”. “Querem parar a nossa economia para atingir o presidente.” O novo coronavírus, esta “gripezinha”, não pode atrapalhar o projeto de um Brasil do cidadão de bem. Na mesma onda dos Estados Unidos, também temos gente por aqui que entende que isolamento social é coisa de comunista (e não de médico).  No fim da tarde, a globo mostraria os moradores de Higienópolis praticando esportes ao lado das placas de “zona infecciosa” que hoje cercam o estádio do Pacaembu, novo Hospital de campanha da cidade que provavelmente estará mais em evidência a partir da próxima semana.

 O Supermercado
Com muita sorte, em meia hora, consegui sair na última esquina da Rebouças de volta aos Jardins. Por ali, dei a volta e cheguei ao destino sem me envolver mais com o protesto pró-coronavírus.  O supermercado parecia um shopping center. Como estão fechados, o paulistano de classe média achou outro lugar para passar o sábado com a família. No supermercado, poucas máscaras a vista, mas com clima tranquilo na certeza de que não estava faltando papel higiênico nem álcool gel (limitado a duas unidades por pessoa).

O álcool gel não estava na lista de compras do dia, mas voltou na hora. Não há dúvidas de que a nossa quarentena vai longe. Os que começaram dizendo que o isolamento é “histeria”, estavam ontem histéricos buzinando atrás do principal hospital da cidade no combate ao Covid-19, culpando Dória, Maia, e a China pelo caos econômico, no dia em que este hospital chegou a 100% dos leitos ocupados. Em alguns lugares a crise política já é muito maior que a crise da saúde.
 #Fiqueemcasa