A cacana e o corona: sobre estratégias frente ao Covid-19 na terra dos chopes

Sara S. Morais

Brasília, 19 de Abril de 2020


Kakana, ou cacana (mbava, em cicopi), além de dar nome a um excelente grupo musical moçambicano, é uma planta com propriedades medicinais utilizada no preparo de alimentos em várias regiões de Moçambique. No distrito de Zavala, localizado na província de Inhambane, muitos de seus habitantes se orgulham por se sentirem especialistas na produção da xiguinha de cacana (preparada com pedações de mandioca, leite de coco fresco e amendoim pilado). O alimento é consumido frequentemente pelas populações rurais do distrito e da vila/município de Quissico. No rol das muitas doenças que a cacana previne, entrou recentemente o Covid-19. Em Zavala (e possivelmente nas suas imediações na província de Inhambane), diversas pessoas têm recorrido ao preparo da folha, como caril, xiguinha e de outros modos não necessariamente comestíveis. Durante todo o ano de 2018 vivi naquelas paragens, me alimentei dessa planta centenas de vezes. No início, muitos se admiravam: “brancos costumam não gostar dessa comida, pois é amarga”, alguém me disse certa vez. “Se calhar é por comeres tanta cacana que nunca adoeceste durante o tempo que estás aqui”, comentou certa vez uma amiga em Zavala.

Com a ameaça do alastramento do vírus, o consumo da planta tem se multiplicado. Algumas pessoas queridas com quem tenho conversado nos últimos dias me explicaram que o uso dessa poderosa planta é uma verdadeira arma contra o Covid-19. A ideia é que, se todos se protegerem bem ingerindo-a, dificilmente a doença tomará conta dos corpos daquele distrito, pois suas propriedades são capazes de manter o organismo saudável e imune. A engenhosidade das soluções dessas pessoas em momentos altamente adversos não cessa nunca. Ora, diz-se que há maior incidência de efeitos letais desse vírus importado em pessoas de idade mais avançada e com problemas respiratórios, entre outros. A ingestão da cacana, entretanto, não está ligada somente à prevenção de uma doença causada no corpo físico. O consumo de alimentos saudáveis que ajudam a aumentar a imunidade, como tem sido incentivado em diferentes lugares do mundo, pode até estar no horizonte dos zavalenses, mas esse não é o principal motivo da sua ligação com a planta. Um chefe de um grupo de timbila (ver abaixo sobre o assunto) compartilhou uma postagem de outra pessoa em seu perfil no Facebook muito significativa a esse respeito. O texto dizia o seguinte: “O exercício vai além de lavar as mãos. É preciso lavar a alma […]. Entender com o que realmente precisamos nos conectar”.

Minha experiência de pesquisa de campo e referências bibliográficas já consagradas sobre o lugar dos infortúnios em Moçambique e em outras diversas partes do continente africano permitem afirmar que o cuidado com a integridade do corpo exercido pela ingestão de cacana é sobretudo espiritual. Ainda que as razões sobre a origem do vírus em questão sejam inexplicáveis para muitos,1 a sua prevenção certamente não o é. Se é algo tão grave a ponto de causar a morte, deve ser tratado como um assunto que ultrapassa o entendimento mundano. Como bem ensinou Alcinda Honwana (2002: 15),2 “as pessoas buscam os poderes dos espíritos sobretudo para entenderem as verdadeiras razões por detrás de acontecimentos que, segundo se crê, transcendem a percepção e compreensão humanas”. Assim, na vida terrestre os indivíduos se organizam e tomam decisões não apenas em função de arranjos estratégicos com amigos, familiares, vizinhos e outras pessoas que lhe possam ser úteis (ver Webster, 2009),3 mas estão em estreita comunicação com seus ancestrais, fundamentais na reprodução das relações sociais. Ainda há dúvidas de que o Covid-19 possa se aproximar de Zavala, que dista cerca de 345 km da capital do país.4 “Com cacana acredito que não vai chegar”, uma grande amiga me escreveu por Whatsapp. A proteção fornecida pela cacana tem garantido, além de alimento para o corpo físico, um poderoso sustentáculo da esfera espiritual, principal forma de combater a intromissão de agentes externos. O consumo da cacana, nesse sentido, permite que o indivíduo obstrua a ação do vírus, na medida em que combater a morte provocada por uma doença estranha àquele contexto também faz parte das complexas negociações entre o mundo dos vivos e dos ancestrais.

Minha estada em Moçambique, entretanto, não se deu em função da cacana, mas das timbila, instrumentos musicais do tipo xilofone, nome dado também aos agrupamentos que incluem vários desses instrumentos tocados conjuntamente, além da dança e da poesia envolvida na música. Entre Zavala, a cidade de Inhambane e Maputo, realizei uma pesquisa de doutorado em antropologia social que buscou compreender o papel das timbila na construção da ideia de nação naquele país. Além de explorar o longo processo (se inicia no colonialismo) que levou essa expressão musical a se tornar Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade pela Unesco (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura), quis me envolver ao máximo com a dinâmica dos agrupamentos de timbila em Zavala e enfatizar a perspectiva dos próprios timbileiros sobre sua prática com essa expressão musical em distintos contextos de mudança social e política. Eu estava interessada em adentrar em assuntos mais afeitos às vidas dos timbileiros, para além dos que se alinhavam aos meandros da política cultural moçambicana.

Sobre esse último ponto, ou seja, assuntos relacionados à organização e gestão de atividades culturais, um aspecto importante merece ser mencionado. Reporto-me a um ótimo relato publicado aqui no Observatório, escrito por Leonel Matusse Jr. (relato nº 16), a propósito do atual cenário cultural em Maputo no contexto do isolamento social prescrito. Se naquele universo de grande circulação de projetos, iniciativas e bens as dificuldades já são tantas, a despeito do intenso crescimento de espaços promotores de atividades artísticas nos últimos anos, podemos imaginar como serão os percalços em zonas rurais, cujos recursos são ainda mais escassos. Segue um exemplo baseado em minha pesquisa para auxiliar nessa reflexão sobre os efeitos das medidas de isolamento em atividades sociais que somente se consolidam com a reunião de grande quantidade de pessoas.

Em Zavala, um festival anual local de timbila chamado M’saho, que ocorre ininterruptamente desde 1994, criado logo após o final da guerra civil (1976-1992), muito possivelmente não ocorrerá este ano, pela primeira vez na sua história. Os timbileiros já antecipam essa dor. Além de ser um dos eventos de maior apreço entre os talentosos músicos e dançarinos, que por gerações e gerações vêm reproduzindo a prática das timbila naquele território, o M’saho é o maior e mais efetivo agregador de sociabilidades entre habitantes de diversas zonas do distrito. Realizar live é impensável, não somente porque as condições materiais para tal estilo de reprodução em rede são inexistentes naquele contexto, mas também porque as timbila são tocadas e dançadas em Zavala por grupos de vinte pessoas ou mais, que precisam transportar pesados instrumentos; além disso, o próprio significado do M’saho pressupõe o encontro e exibição de vários grupos. Para complexificar ainda mais, como se apresentar sem a presença de uma audiência ativa, cujos gestos e olhares são fundamentais para estimular o entusiasmo por meio dos quais os timbileiros se alimentam?

Quem sabe novas canções estejam sendo compostas com temas referentes à prevenção do Covid-19… Mas como sua mensagem será ouvida pela sociedade, se ela é transmitida no ato de exibição perante uma plateia composta por parentes, vizinhos e habitantes da região que muitas vezes se deslocam por longas distâncias? Outrora as canções das timbila cumpriam parte do papel que atualmente desempenham o rádio, o Whatsapp, o Facebook. O espaço social que torna suas mensagens efetivas, entretanto, ainda é o terreno do palco e do mato, e nesses espaços tais tecnologias de comunicação funcionam como instrumentos subsidiários, e não substitutivos.

O que fazer quando a vida coletiva estruturada pelas relações face a face, fonte de toda reprodução social, está suspensa, por ora? Além de comer cacana, as atitudes têm sido acatar as recomendações do governo de manterem-se afastados de multidões. Sem multidão, não é possível haver M’saho. Tenho aprendido com eles que é preferível abrir mão momentaneamente do festival – ainda que romper com esse aspecto da “tradição” possa acarretar diversos prejuízos – do que correr o risco de morrer por uma doença alheia. Um timbileiro pediu a sua amada esposa no Facebook: “Esconda-se nessas matas até passar Covid-19. Eu não quero ser viúvo tão cedo”. A ideia de condição transitória é fantástica, pois é admitir a natureza temporária do vírus e a necessidade de cultivar a paciência no mato, local sobejamente conhecido e habitado pelas populações chopes, onde estes desenvolveram habilidades de enfrentamento de perigosas batalhas que remontam ao Império de Gaza. Estratégias de sobrevivência nunca faltaram. Mais uma vez, os conhecimentos incorporados ao longo de gerações são colocados em prática. Que o Covid-19 passe bem longe de Zavala…

1 Lembrei-me de Victor Turner (2005: 382-383) ter mencionado que, entre os ndembu, a única doença vista como inexplicável na sua origem foi a epidemia de influenza de 1918. Cf. Turner, Victor. Floresta de SímbolosAspectos do ritual Nbembu. Niterói: Eduff, 2005.

2 Cf. Honwana, Alcinda. Espíritos Vivos, Tradições Modernas: Possessão de Espíritos e Reintegração Social Pós-Guerra no Sul de Moçambique. Maputo: Promédia, 2002.

3 Webster, David. A Sociedade Chope: Indivíduo e Aliança no Sul de Moçambique. Lisboa: ICS, 2009.

4 Até o momento de finalização da escrita deste texto, nenhum caso de covid-19 tinha sido registrado em Zavala. De acordo com informações oficiais do governo (http://www.misau.gov.mz/index.php/informacao-sobre-coronavirus-covid-19), são 39 o total de casos registrados, sendo que 8 destes foram curados, ou seja, são 31 casos ativos. Entretanto, como podemos acompanhar pelos relatos e informações extraoficiais em diversos países, sabemos que os números possivelmente são superiores do que as estatísticas conseguem apontar.