Os imigrantes de ontem são os enfermeiros de agora: Brexit e Covid-19

Júlio D’ Angelo Davies

Rio de Janeiro, 16 de Abril de 2020

Antes de falar propriamente da Covid-19 no Reino Unido, é necessário um breve preâmbulo político. A crise de 2008 atingiu a economia europeia em cheio e os britânicos não escaparam da recessão e do desemprego. Sua recuperação econômica foi, contudo, mais acelerada se comparada a dos países do Mediterrâneo europeu. Os custos eleitorais da crise foram inevitáveis para o então primeiro-ministro trabalhista Gordon Brown e, as eleições de 2009, marcam a vitória do conservador David Cameron, cuja bandeira fora a de conter o “monstro” imigratório responsável pelo desemprego britânico em tempos de crise. A agenda de austeridade de Cameron incluía contratos de trabalho sem qualquer direito trabalhista ou garantia de remuneração e uma agenda política de perseguição a imigrantes, com regras draconianas para concessão e renovação de vistos e campanhas publicitárias de estímulo à deportação de estrangeiros em situação irregular. Reeleito em 2015, Cameron encerrava seu primeiro mandato sem cumprir a grande meta de seu governo: cortar a imigração pela metade.

Todas as regras para acesso a vistos para os estrangeiros extracomunitários foram endurecidas e, de fato, esse contingente migratório caiu. No entanto, o número de imigrantes oriundos de países da União Europeia não deixou que a meta de Cameron fosse cumprida. Pressionado por seu partido a renegociar os termos do Tratado de Lisboa, que implicava a livre circulação de pessoas, Cameron propôs um sistema de cotas para residência de cidadãos europeus no Reino Unido, o que foi vetado pela cúpula de Bruxelas. É neste contexto que o primeiro-ministro leva adiante o plebiscito sobre a permanência do país na União Europeia, realizado em 2016. A vitória do Brexit provoca sua renúncia e substituição por sua então ministra do interior, Thereza May, responsável pela agenda anti-imigração do governo. Após sucessivas crises que envolveram a negociação dos termos do Brexit, May renuncia e Boris Johnson, ex-prefeito de Londres, se elege em 2019 com a proposta de, finalmente, colocar em prática a saída definitiva do Reino Unido do bloco europeu. Por fim, o Reino Unido da Grã-Bretanha e Irlanda do Norte deixa a União Europeia no dia 31 de janeiro de 2020, quando a epidemia da Covid-19 já causava estragos na China.

É importante frisar que o Reino Unido possui um sistema público de saúde, o NHS (National Health System), que inclusive serviu de inspiração ao SUS brasileiro. No entanto, após mais de uma década de políticas anti-imigratórias e de austeridade implementadas pelos conservadores, os resultados são alarmantes: como aponta a reportagem do jornal The Guardian de 25 de Outubro de 2019, a falta de enfermeiros contratados atuando no sistema público de saúde atingira um recorde histórico. O jornal destaca entre as causas da crise a suspensão por parte do governo, em 2017, do pagamento de bolsas de manutenção para enfermeiros em formação, o que acabou tornando a profissão pouco atraente ou mesmo inviável para muitos, e a subsequente queda no número de candidatos nos anos posteriores. Além disso, o Brexit provocou a evasão de 5 mil profissionais de enfermagem originários de países da União Europeia entre 2017 e 2019, quando havia então 33 mil enfermeiros comunitários trabalhando no Reino Unido (possivelmente este número seja ainda menor atualmente). Neste sentido, houve uma combinação perversa de perseguição a estrangeiros, que fez que com muitos enfermeiros abandonassem o país, e o corte de bolsas para britânicos, o que acabou esvaziando a procura por esta carreira (uma clara consequência das políticas de austeridade que insistem em traduzir investimentos e gastos como sinônimos). Além disso, entre 2009 e 2019 (década em que o partido Conservador governou o Reino Unido), o crescimento médio do orçamento do NHS foi de 1,4%, contrastando com o aumento médio de seu orçamento de 3,7% desde sua criação em 1948.

Coroando a tragédia retumbante da década de gestão do partido Conservador, o primeiro-ministro britânico seguiu o exemplo de fracasso italiano, e demorou demasiado para adotar o isolamento social total, propondo, já de início, o chamado isolamento vertical, segundo o qual apenas os idosos se manteriam em quarentena em casa, para manter a roda da economia girando. No dia 5 de março, quando o país registrava a primeira morte por Covid-19, Johnson ainda prescrevia business as usual para sua população. Embora ainda seja o quarto país europeu em número de mortos, muitos falam que o Reino Unido será o epicentro do vírus na Europa nas próximas semanas e com maior número de vítimas fatais. A combinação de políticas de austeridade por mais de uma década e a evasão de pelo menos 5 mil enfermeiros europeus tiveram um impacto decisivo na atual tragédia sanitária britânica. É neste contextos que vemos o primeiro-ministro Boris Johnson contrair a doença, ser internado por 2 dias em uma UTI de um hospital público gerido pelo NHS e, depois de ter alta do hospital, gravar um vídeo em agradecimento a dois enfermeiros imigrantes que foram, nas palavras dele, fundamentais na sua recuperação: uma neozelandesa e um português.

Fontes:

Campbell, Denis. “NHS nursing crisis worsened by Brexit exodus”. The Guardian, 8 de maio de 2019. Disponível em: https://www.theguardian.com/society/2019/may/08/nhs-nursing-crisis-worsened-by-brexit-exodus

Campbell, Denis. “Cuts may leave NHS short of 70,000 nurses, leaked report warns”. The Guardian, 26 de maio de 2019. Disponível em: https://www.theguardian.com/society/2019/may/26/nhs-short-of-70000-nurses-bursaries-abolished

The King’s Fund. The NHS budget and how it has changed. 13 de março de 2020. Disponível em: https://www.kingsfund.org.uk/projects/nhs-in-a-nutshell/nhs-budget

Toynbee, Polly. “These brutal cuts to the NHS will haunt the Conservatives”. The Guardian, 25 de outubro de 2019. Disponível em: https://www.theguardian.com/commentisfree/2019/oct/25/boris-johnson-conservatives-nhs-funding#maincontent