Kuendelea na maisha [tocar a vida em frente] e o imperativo da fé na Tanzânia.

Aline C. Rabelo

Paris, 15 de Abril de 2020

Pole kwa Corona!”, amigos e interlocutores tanzanianos me escrevem quase que diariamente. Pole é uma expressão em kiswahilii muito utilizada para demonstrar empatia e compaixão pelo sofrimento do outro (desde falecimentos, até cansaço de viagem, um tombo, um espirro, ou mesmo para o ato de trabalhar). Sabendo que estou atualmente na França, meus amigos manifestam solidariedade a partir do que ouvem na mídia sobre a crise na Europa. Ainda que o vírus já tenha entrado na Tanzânia, os efeitos da pandemia lhes parecem distantes: “Aqui está tudo tranquilo. Tunaendelea na maisha tu [continuamos a tocar a vida em frente].”; “Temos fé que tudo vai continuar em paz.”; “Peço a Deus que te proteja aí… Pole!”.

Isso não quer dizer, porém, que não estejam preocupados com o que pode vir a acontecer por lá – sobretudo quando consideram que “mesmo países desenvolvidos” perderam o controle da situação – mas a virtualidade da presença do vírus dá espaço para que se apeguem a algumas esperanças. Tendo o primeiro caso aparecido na Tanzânia em meados de março, até o dia 14 os casos confirmados e de mortos somavam, respectivamente, 53 e 3. Se com relação aos países vizinhosii estes números estão mais ou menos na média, a grande diferença com relação aos números alarmantes da Europa e dos EUA faz alguns quererem acreditar que a doença não os acometerá da mesma forma, seja porque eles devem ter uma imunidade melhor que a dos wazungu [brancos ocidentais], seja em função do clima, das dietas tanzanianas (ou africanas) ou mesmo da grande fé em Deus – ideia essa reforçada tanto pela ministra da saúde, Ummy Mwalimu, quanto pelo próprio presidente tanzaniano, John Pombe Magufuli, os quais fizeram pronunciamentos evocando a fé como solução contra o vírusiii.

Parece realmente curioso que o número de casos na Tanzânia esteja ainda tão baixo, se chamarmos a atenção para o fato de que em plena epidemia na China, uma centena de turistas chineses chegava diariamente na Tanzânia. Também quando a COVID-19 já se alastrava pela Itália e se espalhava por outros países, os aeroportos tanzanianos continuavam recebendo regularmente turistas europeusiv – vale ressaltar que o turismo é umas das principais atividades econômicas do país, sustentado sobretudo pelos “safaris” nos parques nacionais e pelo turismo em Zanzibar. Apenas com a divulgação do primeiro caso da COVID-19 em território tanzaniano, coincidindo com a redução drástica dos voos pelas companhias aéreas mundiais, é que se deu início a uma queda acentuada da entrada de turistas no país.

Apesar de alguns considerarem que os números estão subnotificados – e que isso se daria não somente pelos testes insuficientes e pelo fato de todas as análises serem apenas realizadas na cidade de Dar es Salaamv, mas também por questões políticas, uma vez que Magufuli anunciou que as eleições gerais no segundo semestre deste ano estão mantidas –, outros notam que seria muito difícil esconder mortes e o colapso de hospitais, caso fosse essa a realidade. De todo modo, parece não haver espaço para quaisquer notícias extraoficiais. Até o momento, três pessoas já foram presas sob alegações de terem disseminado informações falsas em redes sociais. O último episódio foi o de um jovem universitário que teria enviado uma mensagem no WhatsApp dizendo que, na realidade, o número de casos confirmados no país era 230, e que 4 seriam os mortos. Outro teria afirmado nas redes sociais que a Tanzânia estava escondendo os números reais dos casos da COVID -19. A polícia tanzaniana, que possui uma unidade de monitoramento das redes sociais, afirmou que essas mensagens têm como objetivo provocar pânico na população e desencorajar os esforços do governo na administração da crise, sendo, portanto, consideradas ações criminosas.

Surpreso, um amigo me contou que em Arusha (situada no norte e importante na rota do turismo), os dois únicos doentes confirmados tinham se recuperado e que a cidade, de quase meio milhão de habitantes, estava agora livre de novas ocorrências. “E o que as pessoas estão achando disso?”, perguntei. “Wanaendelea na maisha tu [elas apenas continuam tocando em frente suas vidas]. Tomara que o vírus tenha mesmo acabado por aqui.”, ele me respondeu. A boa notícia não durou muito. Nesta segunda-feira 13, um novo caso da COVID-19 foi confirmado em Arusha. Além disso, a ausência absoluta de turistas já é sentida com força por toda uma cadeia, que vai desde hotéis e operadoras de safaris até guias turísticos informais e mamas que vendem legumes para hotéis e restaurantes. Mais amplamente, em diversos setores da economia, aqueles que são empregados têm sido comunicados pelos empregadores que a partir de agora estarão de férias não remuneradas. Um novo pânico parece então surgir: o de não ter nenhum kipato [renda] para conseguir colocar comida na mesa. Alguns amigos me disseram que já estão tendo que escolher entre o almoço ou a janta, pois já não há mais condições financeiras para se ter mais de uma refeição por dia. Outros, pediram para seus patrões para continuar trabalhando de graça em troca de serem alimentados.

Outros, porém, que trabalham em ONGs e são mais privilegiados do que a grande parte da população tanzaniana, fazem suas quarentenas por iniciativa própria, já que o rígido isolamento social não foi uma medida adotada pelo governo tanzaniano (diferentemente de outros países, como Kenya, Uganda e África do Sul). Apesar das aulas nas escolas e os eventos esportivos terem sido rapidamente suspensos após a confirmação do primeiro caso, Magufuli pediu aos tanzanianos para “kuendelea kuchapa kazi kwa bidii” [continuar a trabalhar duro]. No último dia 10, o presidente insistiu na importância da continuidade do trabalho, uma vez que existe o grande perigo da fome assolar o planeta. Segundo Magufuli, esse perigo iminente se deveria ao fato de que, nos países onde o vírus está mais presente, as pessoas estão fechadas em suas casas e, por isso, pararam de trabalhar. “Assim, peço a vocês, meus companheiros tanzanianos, que neste momento, continuemos então, nós mesmos, a trabalhar duro”, ratificou o presidente. A fala de Magufuli ressoa não apenas nas políticas econômicas implementadas desde o início de seu mandato, em 2016, quando a frase “hapa kazi tu” [aqui é só trabalho] virou seu bordão, mas deixa implícita a mensagem de que não poderão contar com ajudas externas neste momento de crise mundial. Uma associação com a noção de “self-reliance”, que foi tão cara ao socialismo africano Ujamaa de Julius Nyerere, o “pai da nação”, parece inevitável, na medida em que é preciso encontrar caminhos próprios de atravessar a crise, sem depender de ninguém de fora, mas do seu próprio trabalho. Ao que parece, a única ajuda passível de ser esperada pelos tanzanianos deve ser a ajuda de Deus: “Vamos seguir trabalhando e acreditar que Deus vai pôr fim a essa doença”, disse Magufuli. A partir da confirmação do primeiro caso da COVID-19 na Tanzânia, o governo comunicou que estava preparado e equipado para controlar a crise – o que foi visto como piada por aqueles mais críticos ao governo, diante da situação de precariedade do sistema de saúde no país.

Neste 14 de abril, o primeiro ministro Kassim Majaliwa comunicou que, para evitar aglomerações de pessoas, as celebrações do 26 de abril, referente ao 56º aniversário da República Unida da Tanzânia, bem como do dia internacional dos trabalhadores, haviam sido oficialmente canceladas. Além disso, informou que as escolas e universidades permanecerão fechadas, agora por prazo indeterminado – o que representa um problema a mais para muitas famílias e mães, já que grande parte das crianças recebem alimentação nas escolas.

Medidas de higiene permanecem como a principal forma de prevenção incentivada pelo governo, constando diariamente nas capas de todos os jornais. Como a deficiência ou completa ausência de provisão de água representa um problema não apenas na zona rural, mas também no meio urbano, receitas de fabricação caseira de higienizadores de mão – à base de bebidas alcoólicas – começaram a circular em redes sociais, tendo em vista o aumento exponencial do preço do álcool em gel nas lojas (que já não era uma alternativa viável para a maior parte da população). Ainda, na última sexta-feira, 10 de abril, a ministra da saúde anunciou que todos os tanzanianos deverão passar a usar máscara ao sair de casa, uma vez que a crise tomará, muito em breve, maiores proporções. Claramente, ficará a cargo da própria população, em suas vizinhanças e comunidades, encontrar meios de produzir essas máscaras, já que os preços praticados nas lojas são para poucos.

Devido à sua aparição cada vez mais frequente na mídia, a ministra, que antes passava despercebida para uma grande parcela da população, começou a ser apelidada de “Mama Corona”. “O nome dela é Ummy Mwalimu, gente. Favor avisar aos nossos ndugu [companheiros, irmãos] ”, uma pessoa chamou a atenção dos colegas em um dos grupos do WhatsApp dos quais participo. Através do mecanismo de busca do Google, é possível verificar que são três as questões mais pesquisadas sobre a ministra: seu currículo, seus contatos e se ela é casada. No continente africano, Ummy Mwalimu é uma das treze mulheres ministras que assumem atualmente a pasta da Saúde em seus respectivos países.

Neste domingo de Páscoa, seguindo as diretrizes recentes da ministra, um pastor chegou a falar para seus fiéis que estes não deviam se sentir envergonhados de usar máscara, mesmo dentro da igreja, pois fazê-lo não significaria falta de fé em Deus. Ao contrário, deixar de tomar as precauções orientadas pelo governo é que seria, sim, desafiar Deus. “Não é à toa que hoje vocês estão a um metro de distância um do outro.”, exemplificou o pastor. De modo convergente, vi um tanzaniano muçulmano respondendo no Facebook para alguém que dizia que as orações e a imensa fé que os tanzanianos têm bastaria para curá-los de todo mal: “Por essa lógica, as pessoas no Irã e no Iraque então não oram e não têm fé? É por causa desse tipo de ignorância que tanta gente morre. Deus disse: ‘Cuida de ti primeiro e então eu te protegerei’.” Outra pessoa veio reforçar tal ideia, evocando dessa vez uma frase do Novo Testamento: “Imani bila matendo ni bure” [A fé sem obras é estéril].

Em outra igreja, agora anglicana, o bispo aproveitava a ocasião da Páscoa para elogiar o presidente por não ter fechado os locais de culto com o advento da pandemia. Para o bispo, aquilo era a prova de que o presidente era um verdadeiro mcha Mungu [aquele que teme/adora a Deus] e que, em ano de eleições, os fiéis deveriam considerar dar seus votos para líderes exemplares como Magufuli. No dia 24 de março, o presidente tanzaniano havia comunicado que não fecharia as igrejas e mesquitas porque estes seriam locais de verdadeira cura. Magufuli chegou a dizer que “o corona é o capeta; o remédio é ir à igreja, à mesquita”. Apesar das críticas, expressas sobretudo por líderes da oposição, mas também por cidadãos e por cientistas do mundo todo, Magufuli continua sustentando a decisão. Alguns locais de culto passaram a adotar medidas de prevenção conforme orientado pelo governo: aos fiéis é pedido que lavem suas mãos na entrada, que não deem as mãos, que cada um utilize sua própria bíblia, e que, tocando em dinheiro, tenham suas mãos higienizadas.

Como se não bastasse a presença do “inimigo invisível”, nesta segunda-feira o jornal The Citizen anunciou que “o pior ainda está por vir”, já que a Tanzania Meteorological Agency previu que haverá uma intensificação das chuvas nos próximos dias. Dar es Salaam já possui áreas alagadas e em estado de alerta. Até fevereiro de 2020, 40 mortes foram atribuídas às enchentes e mais de 15.000 pessoas ficaram desabrigadas em várias regiões do país.

– “Songa mbele” [Siga em frente] –

Também referida como “Corona song”, Songa mbele foi lançada na semana passada por um grupo de músicos independentes tanzanianos. Além de ser um tributo ao saxofonista camaronês Manu Dibango e ao cantor congolês Aurlus Mabele, falecidos recentemente em decorrência da COVID-19, a música foi pensada como mensagem para os tanzanianos, alertando-os sobre a gravidade da situação e precauções que devem ser tomadas.vi

O refrão, “tulindane [let’s protect each other] / janga la dunia [the world is in crisis] / funga mkanda baba [stay strong] / sukuma sukuma [never lose hope] / maisha yaende mbele [life must go on]”, revela sutilezas (linguísticas e morais) que estão para além das traduções em inglês presentes nos subtítulos do vídeo. “Funga mkanda”, que não significa diretamente “permaneça forte”, tem dois sentidos: o primeiro, literal e normalmente utilizado em transportes, é “ate o cinto”; o segundo, se refere à ideia de suportar uma situação extremamente difícil, demandando determinação e resiliência. Funga mkanda foi uma expressão muito evocada por Julius Nyerere na fase final do socialismo (anos 1980), quando o regime estava sucumbindo e muita gente passava fome. Sua conotação, geralmente associada à questão econômica, tem um forte apelo moral. Ela convoca à renúncia, ao sacrifício, mas também à capacidade de superação. Funga mkanda oferece, assim, duas imagens: aquela que remete à necessidade de um árduo esforço coletivo e a que diz para atar o cinto porque a vida precisa continuar. O próprio imperativo “sukuma sukuma” [empurre empurre] corrobora com essa ideia de botar em movimento, através da força, o carro – aqui metáfora da vida – que precisa “pegar no tranco” para seguir em frente. Talvez por isso a livre tradução “never lose hope”, pois a ideia de persistência parece se conectar a essa capacidade de seguir em frente.

Entre a fome e a pandemia, o imperativo parece ser o da resiliência, e a única alternativa possível é a de seguir adiante, tocando a vida em frente.vii

i Kiswahili é a língua oficial da República Unida Tanzânia (formada em 1963 a partir da união da parte continental, Tanganyika, com o arquipélago de Zanzibar).

ii RDC (241 e 20), Kenya (216 e 9), Rwanda (134 e 0), Uganda (54 e 0), Zambia (45 e 2), Moçambique (38 e 0), Malawi (16 e 2) e Burundi (5 e 1).

iii Ver também o Observatório nº 8, onde Felipe Bastos escreve sobre “O avanço da COVID-19 na Tanzânia”.

iv No dia 9 de março, porém, o aeroporto de Zanzibar resolveu que nenhum vôo vindo da Itália poderia mais pousar em seu aeroporto, já que haviam atingido o limite de passageiros em quarentena.

v Antiga capital da Tanzânia e principal centro econômico do país, Dar es Salaam tem uma população de cerca de 5,5 milhões de pessoas.

vi O vídeo clipe da música disponível em https://www.youtube.com/watch?v=18NDQKHnKNg.

vii Este texto foi escrito com base em conversas com amigos e interlocutores tanzanianos, conhecimento etnográfico a partir de trabalhos de campo realizados por mim na República Unida da Tanzânia desde 2012, além de matérias de jornal publicadas nos websites https://www.bbc.com/swahili; https://www.thecitizen.co.tz/; https://taifaleo.nation.co.ke/; https://www.mwananchi.co.tz/.