Uma outra epidemia na China!

Mónica Chan

Sintra, 14 de Abril de 2020

Fechada em casa, alarmada pela dimensão dos efeitos devastadores atuais e das implicações futuras da pandemia, sem eu dar por isso, a minha ligação com o mundo exterior mudou. Ao mesmo tempo que deixei de conviver com os amigos de perto, aumentou a minha comunicação com os amigos mais longínquos na Ásia. Comecei a visitar com mais frequência a rede Wechat*, surpreendi-me até a mim-própria lendo os “momentos” – de família, viagens, comida, cães e gatos etc. – partilhados não só pelos meus amigos, mas também pelos outros contatos com os quais não mantenho relação ativa. Muitos deles são pessoas da China com quem me cruzei uma só vez na vida no contexto de trabalho. Na verdade, como sou de Macau e nunca vivi na China por mais de 3 meses de seguida, quase não tenho amigos por lá. Ainda mais, sempre senti uma certa ambivalência identitária. Culturalmente sou chinesa, mas não tenho a mesma ligação sentimental com a China como alguém de lá. Para mim, devido àquele período tremendo da história do país que presenciei a partir de Macau no final dos anos 60 e durante os anos 70, a China sempre será aquela terra imensa e um pouco ameaçadora, logo do outro lado da fronteira. Mas o tempo passou, a China evoluiu, e de que maneira! Esses “contatos” que fui acumulando através dos anos representam de facto uma nova geração chinesa totalmente diferente e impressionante: excelentes profissionais, gente dinâmica e globalizada que fala línguas estrangeiras. Por várias vezes dei comigo mesma a pensar que, se o futuro da China for construído por gente como esta, só pode correr bem.

Comecei a prestar mais atenção a estes “momentos” para me informar melhor sobre a situação da epidemia na China, onde as pessoas dispersas geograficamente divulgavam links a artigos informativos, manifestavam solidariedade e partilhavam testemunhas e comentários. Houve um relato particularmente comovente, redigido por uma enfermeira-chefe que estava na primeira linha de fogo no hospital mais próximo do mercado onde tudo começou. Também foi referenciada a polémica Crónica de Fang Fang que, entretanto, acaba de ser publicada em tradução tanto em inglês como em alemão. Porém, um artigo sobre a morte do médico Li Wenliang, que trabalhou no mesmo hospital, marca uma erupção emocional na população de Wuhan.

O Dr. Li foi o whistle blower que avisara, ainda no final de dezembro do ano passado, os seus colegas sobre o surto de uma doença viral, quase um mês antes do confinamento sanitário de Wuhan, mas foi disciplinado, conjuntamente com uma séria de outras pessoas, pelas autoridades da instituição e interrogado pela polícia, acusado de disseminar boatos e perturbar a segurança pública. Quando morreu em 7 de fevereiro, vítima da própria doença para a qual tinha dado o alerta, as pessoas indignaram-se, muitas começaram a questionar se essa repressão não teria contribuído para a propagação da epidemia. O Dr. Li virou mártir e símbolo da liberdade de expressão. E apesar das manifestações de luto por ele terem sido abafadas nas redes sociais chinesas – continuamente sujeitas a “limpeza” – circulavam-se artigos que eram acessíveis só por meio de código que conseguiam contornar por algum tempo a censura oficial, e muitos desses artigos foram exportados para fora do país onde continuam a ser divulgados. Multiplicaram-se desabafos e vozes de fúria apelando ao apuramento de responsabilidades. Entretanto, sabe-se que há jornalistas que desapareceram do radar e que há bloggers que foram silenciados. Mas, desta vez, há personagens de vulto que se juntaram a esta causa. Dois, em particular, se destacaram: a já referida escritora Fang Fang e o empresário Ren Zhiqiang.

Fang Fang é uma escritora muito premiada na China que vive em Wuhan. Nasceu em 1955 e, na sua juventude, foi uma adepta entusiasta da Revolução Cultural. Com o passar dos anos, deteve várias posições de grande relevo nas instituições literárias oficiais. Durante o lockdown da cidade, contudo, foi publicando online todos os dias um artigo no blog dela que tinha milhões de seguidores. Daí saiu a sua famosa Crónica, um conjunto de reflexões e observações da vida dos habitantes de Wuhan durante o período de isolamento, que não poupa críticas às autoridades de diferentes instituições na forma como lidaram com a crise na fase inicial. A publicação em línguas estrangeiras dessa Crónica criou uma enorme controvérsia a nível nacional e internacional. Surgiu online um ataque veemente contra ela, acusando-a de contribuir para a difusão de uma narrativa internacional negativa sobre a maneira como a China combateu a epidemia, e de passar uma faca aos outros para espetar o seu próprio país exatamente nesta altura quando se levantam aqui e ali umas vozes que exigem à China compensações. Ela reagiu, com alguma ironia, a dizer que isso lhe lembrava a revolução cultural! Sorte dela que, desta vez, as pancadas são meramente virtuais!

Por seu lado, Ren Zhiqiang é um magnata do setor imobiliário que, tal como o próprio Presidente da China, faz parte da “2ª geração vermelha”, quer dizer, filhos dos revolucionários fundadores da Nova China Comunista. Ou seja, uma aristocracia com muitos privilégios e enorme poder social e político. Conhecido pelo seu gosto provocador, Ren disparou comentários tais como: “Bens imobiliários são como anéis de diamante, não são destinados a pessoas com baixo rendimento”, “O preço imobiliário é demasiado baixo na China, não há nada de errado com o facto de os jovens não conseguirem comprar casas”. Por várias vezes, desafiou o Presidente Xi abertamente. Em 2016, quando a Televisão Central da China, na ocasião da visita do Presidente, expôs uma bandeira com estas palavras: “O apelido da CCTV é o Partido, somos absolutamente leais, faça o favor de nos inspecionar”, o Ren retorquiu: “Desde quando o governo do povo virou o governo do Partido?”. Ficou um ano em liberdade condicionada. Desta vez chamou ao presidente “um palhaço que vai nu, mas determinado a passar por imperador”. Está atualmente detido.

Nem um nem outro é um qualquer joão-ninguém. Trata-se em ambos os casos de membros do regime com muita visibilidade que se revoltaram por dentro. De facto, a China fez um trabalho impressionante para controlar o Covid 19, mas este acabou por provocar o ressurto de uma outra epidemia que já tinha tido uma ocorrência em 1989, o famoso incidente de Tiananmen. Só que, desta vez, esse vírus fez mutação e já não prolifera só no meio estudantil, mas espalhou-se por todas as camadas da população: o povo, os intelectuais, os príncipes. Não há dúvida sobre o facto de que todos os chineses sentem um enorme orgulho pelo desenvolvimento do país durante a última década, um alimento importante para o nacionalismo que os une. Muita gente defende, não sem algum fundo de verdade, que a China só conseguiu este sucesso por ter um regime autoritário. Só que agora, de repente, os chineses foram confrontados brutalmente com os efeitos trágicos de um sistema que assente na falta de transparência e na repressão de expressão. Ficaram magoados e revoltados.

Resta saber qual será a sorte do príncipe rebelde que cometeu esse ato de kamikaze, que pode muito bem ter sido suicidário, mas não deixará o adversário sem danos. É ainda muito cedo para saber se esta “epidemia” política é tão contagiosa quanto a outra, ou se o regime a conseguirá conter como fez com o Covid 19.

*O Wechat é uma aplicação chinesa de rede social que é utilizada na China inteira, com funcionalidades muito abrangentes, inclusive na área financeira. Não se esqueça que na China não há Whatsapp nem Facebook nem Google, e o governo pode monitorizar o conteúdo e até fechar contas de Wechat.