Amarrar o mundo numa nsinga: por outras direções do humanitarismo

Rosa Vieira

Rio de Janeiro, 13 de Abril de 2020

I

– Olha, no Brasil eles também têm nsinga, falou Chance, mirando a minha fitinha do bonfim, na cidade de Matadi, fronteira com Angola, na República Democrática do Congo (RDC). Nsinga é qualquer tipo de corda, fio, que serve para amarrar uma sacola, uma bolsa e, também, o corpoi. É usada presa nas cinturas de bebês e crianças, igualmente nas pernas e nos braços dos adultos, para fechar o corpo, evitando um feitiço e/ou um espírito do mal que podem levar à morte.

Na última vez que estive no Congo, em abril de 2019, muita gente tinha pego chikungunya. Eram muitos os relatos sobre as dores nas articulações e as dificuldades de andar, de uma mama comerciante que passou semanas no hospital, da tia que continua sentindo as pernas quando anda, dos meninos jovens da casa que também caíram todos doentes, das dívidas no hospital que tinham contraído. Logo mencionei que tinha chikungunya no Brasil e complementei com naturalidade que havia muito mosquito, mesmo na minha cidade. – “Mosquito? Falaram isso aqui, mas eu não acredito”, reagiu Chance, desconfiada. Foi aí que vi a falta de tato etnográfico do meu comentário. Ao longo dos dias, fiquei sabendo que o pessoal da vizinhança onde eu morava havia amarrado nsinga em tudo que era parte do corpo, algumas das quais vendidas pelas igrejas evangélicas, para impedir que a chikungunya os atingisse. Eu havia chegado no meio disso e trazia, no tornozelo, sem saber, uma nsinga também.

Houve quem me dissesse que a nsinga não adiantou. “Teve gente amarrando no braço, na perna, mas, mesmo assim, caiu doente”, uma jovem contou. Este foi um daqueles momentos de trabalho de campo que ficamos diante de alguns impasses antropológicos: eu deveria me referir novamente ao mosquito, fazendo presente a ciência moderna e ocidental, recomendando a eliminação da água parada? Acabei falando, num tom de dúvida e com medo do meu equívoco, que talvez o espírito entrasse no mosquito e, por isso, era melhor evitá-lo.

O evento explicita certo contato, embate de saberes, em uma situação específica: momentos “emergenciais”, de crise epidemiológica, como alguns outros pelos quais já passou o Congo ou como o que vivenciamos atualmente com a pandemia da covid-19. Coloca a questão dos “tempos” dos momentos de crise, que exigem soluções rápidas e efetivas, os quais podem ir de encontro com os “tempos” da etnografia. Mas, mesmo nessas horas, é difícil para o antropólogo vestir o jaleco de médico e enfatizar as recomendações, até porque poderiam ser pouco eficientes.

O dia a dia de pessoas na RDC, e em muitos lugares da África, do Caribe e do Brasil, como tem sido mostrado pelos textos do CEMI, trazem-nos pontos importantes para pensar o contraste de saberes, e refletir sobre quem, afinal, precisa aprender com estes embates. Neste breve texto gostaria de sublinhar dois aspectos para pensar o humanitarismo atualmente. Primeiro, o saber médico (protocolos científicos de prevenção e tratamento da doença) não é aplicado num vazio cultural, social e econômico. Ele só será em alguma medida apropriado se for mediado, sendo transformado a partir de outras lógicas e variáveis nesta mediação, de modo a ser viável em um contexto distinto do qual foi produzido. Segundo, são exatamente as pessoas “destas outras lógicas”, vistas como um “desafio” para os organismos internacionais, que poderiam nos ensinar, e muito, como tornar o mundo habitável num cenário de escassez. Bruno Latour afirmou em texto recente que superaremos a crise da covid-19, mas a crise ecológica é duradoura e irreversível. Por isso, ele sugere pensarmos gestos para evitar um retorno da produção pré-pandemiaii. É apenas preciso lembrar que estes gestos já existem em muitos locais do planeta, não precisamos imaginá-los.

II

Chegamos a escutar no Brasil que a Covid-19 era uma “doença de rico”, provavelmente por estar inicialmente concentrada nos bairros mais nobres das duas maiores cidades do país. Antes do coronavírus, uma caracterização com uma concepção similar, mas não equivalente, já aparecia nas falas de congoleses com relação a outras doenças. Para eles, havia as doenças que não eram de branco, como a malária. A constatação fazia sentido, uma vez que a maioria dos brancos no país toma remédio para evitar a contaminação da malária ou, se eram vítimas da doença, tinham acesso a bons tratamentos. Foi com certa identificação, preocupação, e com um riso escondido, que amigos congoleses e funcionários do hospital me viram pálida e sem apetite. A branca ter pego malária foi novidade, tornando-se fofoca nas redondezas. Eles me diziam “deixa/larga a doença”, explicitando que havia ali uma luta subjetiva e espiritual que eu devia encarar.

Com a covid-19 surgiram comentários parecidos. O primeiro caso registrado na RDC da doença foi no dia 10 de março na capital do país, Kinshasa. As conversas que tive com pessoas de lá, via facebook e whatsapp, mencionavam que não era uma doença deles, mas dos brancos: “isso é na mpótó [país de branco], aqui não tem nada”, me falou uma amigaiii. Algumas semanas depois, as mensagens foram de mais desespero, não por causa da doença, mas pelas obrigações de confinamento. No dia 18 de março, o atual presidente, Felix Tshisekedi, proibiu os locais de culto de abrirem suas portas. Mas, por enquanto, a quarentena foi aplicada sobretudo na commune de Gombe, municipalidade mais rica de Kinshasa, epicentro da covid-19. Num cenário movido em todas as suas esferas por uma rotina de rua, de feiras, de transportes coletivos, a quarentena é completamente inviável. Não há possibilidade de ter “provisões” em casa, porque poucas famílias possuem geladeira. Na maior parte das cidades não tem uber, ifood, faltam hospitais e remédios. Como mostra o filme Felicité, dirigido por Alain Gomis, a circulação de dinheiro envolve uma cadeia infinita de dívidas. Ter dinheiro vivo na mão exige movimentar-se entre pessoas: depende do contato físico, diário, na feira e na vizinhança.

Além disso, é importante sublinhar, o ebola ainda não foi totalmente erradicado. Surtos desta febre hemorrágica atingiram a África ocidental nos últimos anos. Entre 2013-2016, chegou a matar quase 12.000 pessoas, principalmente na Guiné, Libéria e Serra Leoa. Dois anos depois atingiu a RDC. Na região de Bikoro, nordeste de Kinshasa, foram 18 mortes em abril de 2018, e alguns meses depois chegou na província do Nord-Kivu, no leste do país. De 2018 até o final de 2019, foram registradas 2.231 mortes. Este início de 2020, houve poucos registros da doença. Mas dois dias antes de completar o tempo necessário para se decretar o fim do ebola, que corresponderia a quarenta e dois dias sem casos (tempo de incubação do vírus), foi notificada a morte de um homem de 26 anos em Beni, cidade no leste do país.

Os saberes médico-científicos já divulgados para combater a covid-19 chegam neste cenário. Sem um pouco de transformação e adaptação às experiências que as pessoas já possuem, eles terão pouquíssima efetividade. Com base em sua experiência na Serra Leoa, Paul Richards sugere que a inventividade das pessoas para encontrar soluções para o ebola pode igualmente servir para lidar com a covid-19iv. Isso iria de novas formas de se cumprimentar a certos protocolos a serem seguidos dentro de casa e nos enterros. Da criação de centros hospitalares específicos (como os Ebola Treatment Centers), como também, de unidades entre a casa e o hospital para isolar casos menos sérios e não sobrecarregar os hospitais. Além da incorporação de uma equipe de agentes de saúde local, a comunicação com as lideranças de coletivos e associações é de extrema importância para sensibilizar a população e fazê-la confiar nas medidas implementadas.

Além de enfatizar que a covid-19 não é “doença de branco”v, é preciso também afirmar que as soluções não serão só as dos brancos. A nsinga no Congo pode ser feita dos materiais mais diversos, parte de um tecido, raiz de uma folha, fio de uma sacola. É esta capacidade de se reinventar para se proteger que precisamos olhar e escutar.

III

O humanitarismo está fundamentado na tradição caritativa ocidental e ganhou mais corpo a partir do final da II Guerra Mundial. Em geral, as ações humanitárias estão voltadas para certas categorias de pessoas, definidas como “vulneráveis”. A partir dos anos 80, algumas organizações Médecins du Monde, Handicap International, Aide Psychologique Sans Frontières, Action contre la faim, fortalecem-se empreendendo uma ideia de “sem fronteirismo”, como indica o próprio nome da organização Médicos Sem Fronteiras. A ação humanitária está, portanto, para além de fronteiras nacionais, o que quer dizer, externa a “casa” dessas organizações e de grande parte dos seus funcionários. Ela se baseia em levar ajuda, materiais e, principalmente, um “saber”, a um outro distante socialmente, racialmente e culturalmente.

Mas o que acontece com o humanitarismo quando a “vulnerabilidade” é generalizada? E este outro não tem mais cor, classe e nacionalidade? Em recente artigo publicado no New Humanitarian preocupações quanto ao futuro da ação humanitária são colocadas, num momento em que atenções e recursos podem ser deslocados para responder à covid-19vi. Neste sentido, corre-se o risco de a prioridade de atendimento ficar centrada nos países mais ricos, e as populações mais pobres, antes foco das ações, ficarem desassistidas. De um lado, os efeitos serão devastadores em África, uma vez que haverá pouco financiamento e equipe para a construção de centro hospitalares, distribuição de equipamentos e remédios. De outro lado, o momento parece interessante para repensar o direcionamento do humanitarismo, que se baseou até hoje na circulação de saberes e práticas dos países do norte para o sul.

Certamente a mazela, que parece estar em todo e qualquer lugar agora, será muito mais destruidora nos países mais pobres. Mas, como alguns autores vêm mostrando, a pandemia da covid-19 está sendo um momento para pensar para além da doença. Como já dito, é necessário continuar defendendo a prioridade da ação humanitária em África, reforçando que o saber médico-científico só é palpável quando adaptado e transformado nos contextos locais com a agência dos próprios habitantes. E, além disso, é preciso apontar que há um humanitarismo inverso a ser feito. Saberes não ocidentais para lidar com os recursos, a comida e as pessoas precisam ser levados a um “outro”, agora igualmente vulnerável porque a abundância material, fundamento de toda a sua autonomia e liberdade, como diz Pierre Charbonnier, encontra-se limitadavii.

Em boa parte do Congo, os sacos plásticos sempre foram lavados, não para combater a covid-19, mas para sua reutilização. Os bilhetinhos de solidariedade, que têm circulado na internet, nos quais as pessoas se oferecem para fazer compras para os vizinhos mais velhos ou cuidar de crianças na quarentena, são práticas cotidianas e não precisam de uma pandemia para acontecerem. Qualquer gota de água é valorizada e reutilizada. Uma lata de sardinha vira um carrinho para a criança brincar. Não há armário de cozinha de produtos industrializados, porque a produção local é a base da alimentação. Roupas de segunda mão são vendidas, revendidas, emprestadas, até de fato acabarem virando pano para limpar a casa ou serem a base para as nsinga. Estes são gestos para aprendermos. Podemos também fazer uma nsinga bem longa para amarrar o mundo… quem sabe ainda dá tempo de evitarmos outros espíritos do mal.

i Este termo é usado em três línguas bantu (lingala, kikongo e kiyombe) faladas na província do Kongo Central, especificamente na cidade de Matadi. No kiyombe, a grafia é outra nsíinga.

ii Latour, Bruno. 2020. Imaginar gestos que barrem o retorno da produção pré-crise.

Disponível em: http://www.bruno-latour.fr/sites/default/files/downloads/P-202-AOC-03-20-PORTUGAIS_2.pdf.

iii No lingala, mpótó originalmente vem de Portugal, mas hoje em dia em Matadi é usado para se referir de maneira genérica ao exterior, aos países onde tem brancos. O termo também é empregado no kikongo (mputu) e no kiyombe (phúútú).

vii Charbonnier, Pierre. Abondance et liberté. Paris: La découverte, 2020.