Quando o vírus ataca a ideologia nas barbas do regime

B. Samad (pseudônimo)

10 de Abril de 2020

O guia supremo da revolução o qualificou de “bioterrorismo”: o novo coronavírus seria uma ameaça ao regime político do Irã. Primeiro, porque tirou literalmente de circulação dezenas de homens políticos, contaminados pelo vírus, e entrou no país por sua capital simbólica, a cidade de Qom, um dos principais destinos de peregrinação. Segundo, porque o vírus impediu a realização da tradicional oração de sexta-feira, uma das ferramentas-chave da perpetuação ideológica do regime. E terceiro, porque veio enfraquecer ainda mais a economia do país, já estrangulada pelas sanções americanas, mas também pela corrupção de líderes e milícias.

1) No Irã, os primeiros casos de coronavírus aparecem em Qom, a cidade sagrada e berço dos clérigos xiitas iranianos. As milícias do regime, que em tempos de sanções dos EUA tomaram conta das redes econômicas do país, desenvolveram laços regulares com a China e mantiveram comunicações aéreas com Wuhan durante a epidemia. Assim, o vírus começou atingindo pessoas próximas ao poder. E a população soube: o novo coronavírus entrou no Irã através dessa rede de milicianos e líderes religiosos que se intrometeram na economia de forma corrupta. Isso intensificou a raiva de muitos contra o regime, raiva que só vem crescendo com a série de eventos trágicos desde novembro de 2019 (endurecimento do regime com: repressão de manifestações provocando mais de 300 mortos em um dia; na sequência, bloqueio da internet no país por duas semanas para impedir a difusão de informações; durante a organização das eleições legislativas de fevereiro de 2020, o regime excluiu pura e simplesmente candidatos não alinhados da lista eleitoral, o que ocasionou a mais baixa participação nas eleições desde a instauração do regime; no funeral do general Soleimani, diversas ruas foram estreitadas para dar uma impressão visual de multidão, e isso acabou provocando a morte por pisoteamento de uma centena de pessoas).

A epidemia então se espalhou e as autoridades foram forçadas a fechar locais de culto como outros locais que propiciam aglomerações. No entanto, em um país governado por religiosos, um local de culto não se enquadra na mesma categoria que outros locais de reunião. Pior ainda, muitas pessoas atribuem uma função de cura a esses lugares. Poucos meses antes da chegada do vírus, uma controvérsia opunha praticantes da medicina moderna e A. Tabrizian, um clérigo reconhecido como “o pai da medicina islâmica”. Tabrizian queimou um livro referência, Harrison’s Principales of Internal Medicine. A reação de três médicos que condenaram este ato lhes rendeu uma sentença de chicotadas (sentença momentaneamente suspensa) por insultar uma autoridade religiosa.

Atualmente, durante a epidemia, vemos imagens na mídia de Imãs que vêm aos hospitais visitar pacientes com Covid-19. Eles trazem um pano “abençoado pelos poderes espirituais do Imã Reza”, que deve curar os pacientes. Um deles acaba de ser preso pelas autoridades. Além da visita aos pacientes, aspergia um “perfume abençoado”.

Num regime que sempre promoveu uma religiosidade de extremismos, diante da realidade das contaminações, atos de fé passam a ser repreendidos. Além do Imã perfumador, foram presos fiéis zelosos que lambiam as relíquias em mausoléus como forma de protesto ao anúncio do seu encerramento ao público. E após o encerramento efetivo, vieram lamber e também quebrar as portas. O regime se vê assim num impasse: devem enviar para a prisão seus mais fervorosos fiéis, já que não conseguem controlar suas manifestações em uma situação de crise sanitária? Para o segmento da população que não adere à ideologia do regime, esses homens incarnam o fanatismo por excelência, são um produto do regime e não algo exterior a ele. Vendo que o regime se dispõe a prendê-los, isso mostra o nível da crise, entre outras coisas, de identidade, na qual a República Islâmica se encontra.

2) A crise identitária não termina aí. A oração de sexta-feira, conduzida em cada mesquita por imãs diretamente escolhidos pelo guia supremo da revolução islâmica (Khomeini), teve que ser suspensa até segunda ordem. A oração de sexta-feira representa para o regime a “reconexão” e a “renovação do pacto” da revolução com o povo, é uma ferramenta básica de propaganda ideológica. E se vê suspensa. O regime está, portanto, sendo despossuído de um de seus meios mais indispensáveis para encenar seu poder.

Outro pilar do “ataque”, o álcool, um dos maiores tabus do Regime Islâmico. A venda de bebidas alcoólicas foi proibida desde a revolução de 1979. No entanto, muitos iranianos apreciam seu consumo. Muitos começaram, assim, a beber álcool vendido em farmácias. A ironia da situação atual é que, devido à necessidade crescente de álcool para limpeza e descontaminação do vírus, o Ministério da Indústria foi obrigado a aumentar as licenças de produção de álcool. Simbolicamente, muitos iranianos interpretam esta declaração como indicador da legalização do álcool (e por consequência, das bebidas alcoólicas) e afirmam que, nessas circunstâncias, transportar álcool não será mais considerado ilegal pelas autoridades. A consequência infeliz da confusão, é o número de mortes e de pessoas em estado de emergência grave, como resultado do consumo de álcool adulterado. Este número disparou a ponto de superar, até o momento, aquele de hospitalizados em função do Covid-19. Rumores circulam de que beber álcool imunizaria contra o vírus.

Mas o Covid-19 não trouxe só infortúnios para os iranianos. Através de um movimento, que mais uma vez se mostrou em conflito com os valores da República Islâmica, os trabalhadores da saúde lançaram um desafio de dança nas redes sociais. Convencidos de que a dança e a música ajudam os pacientes a melhorar sua saúde mental e física, e certamente para tornar o ambiente sombrio de suas vidas diárias mais habitável, enfermeiros e médicos fazem coreografias para canções dançantes e compartilharam os vídeos via redes sociais. O detalhe é a que dança entre homens e mulheres que não sejam parentes é proibida pelas autoridades nacionais, que não deixaram de condenar esse movimento e de identificar o desafio com uma ameaça estrangeira. Como os profissionais de saúde estavam totalmente cobertos com máscaras e aventais, nenhuma identificação foi possível. Além disso, nas atuais circunstâncias, no Irã como em muitos países, eles têm sido considerados heróis nacionais diante da ameaça do Covid-19. Assim, não temem a prisão ou outras retaliações por parte do regime. Mais uma vez, o regime encontra-se desarmado diante do vírus, que o priva de mais um de seus meios de dominação, a proibição da dança ou da música.

3) Para um país que já sofre com sanções norte-americanas e com a queda do preço do petróleo, o confinamento seria um golpe duro. É por isso que o governo se recusa a implementar o confinamento e fechamento completo do comércio no país. Todos devem continuar trabalhando! O regime não assumirá qualquer responsabilidade pelos desempregados e é incapaz de gerenciar as consequências de um colapso econômico. Os trabalhadores informais são os mais diretamente atingidos.

Além de suprimir seus homens e condenar seus lugares sagrados, o coronavírus parece estar lutando contra o regime ao paralisar a economia. O vírus, dizem, está junto com os americanos trabalhando pela famosa “mudança de regime”! Covid-19, inimigo da República Islâmica! Fica mais fácil, assim, entender por que os líderes do Irã acreditam que estão sendo alvo de “bioterrorismo”. Um vírus não surgiria assim “do nada”, catalisando movimentos transgressores, bem nas barbas do regime…

Fontes:

https://foreignpolicy.com/2020/03/30/mahan-air-iranian-airline-spread-coronavirus-and-lied-about-it/_https://www.lopinion.fr/edition/wsj/coronavirus-partenariat-strategique-chine-a-l-origine-l-epidemie-en-214294

https://www.al-monitor.com/pulse/originals/2020/03/bizarre-cures-for-coronavirus-in-iran.html

https://lactualite.com/actualites/absorption-de-methanol-pour-combattre-la-covid-19-en-iran-au-moins-300-morts/

https://www.theguardian.com/world/video/2020/mar/04/coronavirus-doctors-and-nurses-in-iran-filmed-dancing-in-bid-to-boost-morale-video

Fontes das fotos:

farsi.alarabyia.net 

irna.ir