Covid-19: Entre o cepticismo e a esperança

Leonel Matusse Jr
Maputo, 11 de Abril de 2020

I
Já é letra morta dizer que o Covid-19 apanhou Moçambique de surpresa. Quando a notícia sobre um vírus fatal que se proliferava em Wuhan na China foi chegando nos media, o entendimento geral foi de ser algo distante, que não nos afetaria. De primeira, foi-se satirizando a patologia através dos memes, relacionando-a a uma cerveja mexicana que tinha caído nas graças de uma parte da juventude com poder de compra. Na sequência, o vírus foi tomando a Europa, cada dia era mais um país. Aí a sociedade ficou alerta. Estávamos nas primeiras semanas de Março. Igualmente, circularam no Whatsapp áudios de moçambicanos na diáspora, alertando para o que estava por vir; a isso acrescenta-se os amigos estrangeiros a retratar episódios de pânico, depressão, tédio em consequência do isolamento social imposto pelo Estado de modo a conter o mal. Foi igual um pouco em todo mundo. Obviamente que com as suas nuances definidas pelos contextos.

De diferentes formas, os Estados não estavam preparados para a crise sanitária que o coronavírus está a gerar. Era impensável que a Itália, a Espanha, a França, os Estados Unidos assistissem, incapazes, a ruptura dos seus sistemas de saúde. Em Moçambique, o sentimento generalizado é: “estamos perdidos, os nossos hospitais não vão aguentar, não há capacidade nem organização para a isso”.

Na cidade de Maputo, onde moro desde 2012, vindo da cidade de Inhambane, igualmente no sul de Moçambique, aguardava-se, com alguma impaciência, o anúncio do primeiro caso, enquanto rumores circulavam nas redes sociais sobre a já existência de casos não revelados pelo Ministério da Saúde.

No dia 14 de Março, o Presidente da República anunciou as primeiras medidas preventivas, entre as quais a suspensão de todos os eventos com mais de 300 pessoas e viagens de Estado para o estrangeiro. No dia 20, comunicou-se a nação, na hora nobre, o reforço das medidas, reduzindo para 50 o número de pessoas em eventos e a suspensão de aulas em todos os níveis. Nos chapas (autocarros e minibus) que transportam a maioria dos residentes na capital do país do subúrbio para o centro urbano (onde tudo acontece) ouvia-se comentários como “aí tem, só não querem nos dizer”. Estava claro, quanto a mim, uma descrença na comunicação oficial. O cenário agravou-se quando, no dia 21, circulou pelo Whatsapp um screen shot de uma notícia de última hora do Canal de Moçambique (um jornal semanário), revelando que já havia casos confirmados. O Governo apareceu a desmentir e, no dia 22, domingo, o Ministro da Saúde, em conferência de imprensa, fez saber que já havia um caso confirmado: um senhor com mais de 75 anos que, recentemente, havia estado no Reino Unido. A descrição coincidia com a do Presidente do Município de Maputo, mas não houve informação oficial. O burburinho espalhou-se e o jornalista Marcelo Mosse, pelo Facebook, fez a pergunta publicamente. Um comunicado do Município esclareceu que o presidente apenas estava de quarentena. Dias depois, mais casos, um dos quais a esposa do Presidente do Município, que o anunciou publicamente, numa chamada telefónica a um programa de televisão de um canal comercial. Os cépticos logo vieram perguntar: eu não disse que não diziam tudo?

Como jornalista sabia que não podia parar de trabalhar, o que implicava contacto com outras pessoas diariamente. As pessoas que moram comigo, ambas estudantes, como uma medida de precaução, foram para Inhambane, onde vive a minha mãe.
Com uma vizinha, pegamos em recipientes de perfumes que já tinham acabado e misturamos água e javel. Pelo borrifador, desinfectamos a maçaneta das portas e das superfícies que partilhamos no quintal. Levo comigo o borrifador no chapa para aplicar onde vou tocar.

Os autocarros continuam cheios, as pessoas continuam a aglomerar-se, na luta por um lugar nas paragens abarrotadas. O governo até tentou reduzir o número de passageiros, mas, em condições “normais”, uma viatura com capacidade de transportar 15 leva, em média, 21 passageiros. Uma decisão acertada mas fora de contexto, ou talvez tenha faltado o aumento de veículos de transporte público… Enfim, o executivo teve de voltar atrás nessa decisão para evitar que os chapas parassem e, por tabela, evitar a rebelião das pessoas que continuam a trabalhar.

No momento em que concluo este relato, eram 20 os infectados, oficialmente anunciados. Enquanto o número de casos cresce, uma franja da sociedade que vive do comércio e prestação de serviço informal desespera-se, pois tem consciência de que, ainda que a situação se agrave, não poderá ficar em casa. Há neste grupo quem faz o seu pão diariamente (todos dias são incertos), há os que têm um rendimento apertado, o que não possibilita poupar. Tem de escolher: ou morre de fome ou da doença. Entre os mais afectados está o já frágil mercado de artes, que irei aprofundar.

II
Na medida em que tomam consciência do problema, as maiores empresas vão desenvolvendo campanhas de prevenção através de publicidades na media tradicional e nas redes sociais. O Facebook e Whatsapp têm se mostrado veículos incontornáveis para a difusão de informação que compete, como em todos os lados, com as fake news. A dificuldade na gestão de informação torna-se difícil devido ao cepticismo para com a informação oficial. Parece-me pertinente recordar alguns episódios recentes que (talvez) ajudem a entender o quadro:

(i) O governo que antecedeu o actual contraiu ilegalmente uma dívida de 2 mil milhões de dólares, cujo dinheiro foi distribuído por algumas pessoas ligadas ao poder de então. Quando essa informação chegou aos media (primeiro estrangeira), houve uma tentativa de desmentir até ficar evidente que tal tinha ocorrido. A detenção com um mandado de prisão dos EUA do antigo Ministro das Finanças Manuel Chang, em Dezembro de 2018, na África do Sul a caminho de Dubai, obrigaram as autoridades moçambicanas a prender alguns suspeitos;

(ii) No último processo eleitoral, na província de Gaza, uma das mais pobres do país, localizada no sul, o número de recenseados (cidadãos em idade de voto) era incompatível com os registos do Instituto Nacional de Estatística. Esta última instituição, igualmente estatal, apareceu, em conferência de imprensa, a desmentir o número, dizendo que nas suas projeções só em 2040 é que Gaza teria aquele número de votantes. Porém, o processo avançou sem nenhuma alteração;

(iii) Há pelo menos dois anos a província de Cabo Delgado, no norte de Moçambique, é assolada por uma invasão milícias terrorristas. A informação oficial é escassa e houve um jornalista nacional preso a recolher dados sobre a situação. Graças à pressão da opinião pública, foi libertado. Nas últimas semanas, os terroristas assumiram o que já alertavam os especialistas: trata-se de radicais islâmicos que pretendem instalar o Estado Islâmico na região. É nas conversas corriqueiras que um conhecido lamenta a perda de um vizinho militar; por meio das redes sociais, nos chegam fotos e vídeos do que está a acontecer de facto; são pessoas conhecidas que estiveram nas proximidades que garantem que a situação é calamitosa;

(vi) Nas redes sociais e conversas, igualmente, pessoas conhecidas afirmam ter familiares ou conhecidos que testaram positivo ou cujos sintomas batem com a descrição da OMS mas não constam das estatísticas que o Ministério da Saúde, diariamente, apresenta em conferência de imprensa.

É uma constatação pessoal, mas creio que estes episódios minam a comunicação social num momento em que a informação é um elemento central no combate à propagação do vírus. A descrença resulta do acúmulo de situações passadas desastrosas.

III
Moçambique, em especial sua capital, Maputo, tem assistido nos últimos quatro anos um boom de produtos artísticos. Há novos nomes a surgir, novas linguagens estéticas em construção. Até o final do ano passado já havia em média de três eventos culturais relevantes (numa visão jornalística) diariamente. E este crescimento, naturalmente, significou o emprego de mais pessoas.
Este sector sentiu particularmente o impacto do coronavírus logo que o Chefe de Estado anunciou as primeiras medidas de prevenção, ao restringir eventos para menos de 300 pessoas. De imediato, espectáculos de teatro e de música, concertos, exposições, sessões de cinema e afins foram canceladas, muitas delas adiadas por tempo indeterminado. Era já um murro na boca do estômago dos produtores que, sem grande suporte financeiro, haviam investido financeira e emocionalmente na produção de um evento que não viria a acontecer.
Ivan Laranjeira, director do Museu Mafalala, teve de cancelar um espectáculo anunciado desde o ano passado. Foi com desânimo que atendeu-me a cancelar a entrevista com o rapper Kloro. Lamentou: “isto vai afectar-nos as contas”. O museu comunitário localizado no emblemático bairro periférico de Maputo, a Mafalala, possui acomodações e presta serviços de acomodação. Está tudo parado. “As pessoas, voluntariamente, começaram a cancelar os tours”, contou Laranjeira antes da confirmação do primeiro caso.
O Festival Azgo, o maior de música do país, teve de adiar para 2021 a celebração dos seus 10 anos de existência. Na edição de 2017, este mega evento que anualmente acontece em Maio, empregou 370 pessoas directamente, e a previsão deste ano era a de incorporar mais profissionais.
As Indústrias Culturais e Criativas só recentemente entraram para o vocabulário governamental. É um sector em construção, ainda numa situação de extrema fragilidade. Por exemplo, ainda não há uma carteira do artista. Um grupo de profissionais da área que foi ouvido pela Ministra da Cultura e Turismo Etelvina Materrula (professora Kika, como é conhecida nos corredores, devido ao trabalho que desenvolveu na cidade e na concepção e direcção do projecto de inclusão social através da música erudita, o Xiquitsi) perguntou se haveria alguma ajuda financeira que poderia ser, que funcionaria como almofada para os que não podem trabalhar. E a resposta foi a aprovação de uma proposta de mapeamento do impacto para que a posterior pudesse estudar como intervir.
Enquanto a resposta não vem, os centros culturais, museus (poucos), livrarias (menos de 12 para cerca de 2 milhões de habitantes); os músicos, actores, encenadores, técnicos de som e de luz, artistas plásticos…permanecem na incerteza.
Olhando para a arte como um alento em tempos de crise, o beatmaker Nandele, realizou, no dia 22 de Março, seu primeiro espectáculo live pelo Facebook, intitulado “Likumbi Season – man cave seassions”. E continua a fazê-lo. Outros músicos seguiram o barco.
Ainda na música, como já é habitual em situações de emergência, vários artistas fizeram músicas apelando à prevenção. Entre eles, Humberto Luís, Hot Blaze, só para citar alguns. Não vejo esta atitude dissociada do facto de nas cerimônias familiares alguns grupos étnicos improvisarem canções relacionadas à situação; no protocolo dos grandes eventos do Estado, há um grupo coral que compõe para a circunstância, em continuidade com o período de partido único, seguindo o mesmo modelo das canções da Organização dos Continuadores de Moçambique ou de outras tantas organizações.
As artes plásticas seguem o caminho de exposições virtuais. A Associação Kulungwana está a exibir no Facebook a Colecção Crescente, uma mostra de pintura. Posta fotos, vídeos, textos. A galeria está, entretanto, fechada. Este sector poderá ser um dos mais afectados, pois vende basicamente para estrangeiros, turistas. Numa entrevista recente, o artista plástico Gonçalo Mabunda disse que a expectativa é que nestes dias em casa os moçambicanos canalizem as suas atenções para “outras coisas, como as nossas artes plásticas e como o nosso trabalho é apreciado fora”.
Na literatura, a Revista Literatas publicou uma colectânea de prosa intitulada “Crónicas e contos para ler em casa”. Trata-se do contributo gratuito de 15 jovens escritores moçambicanos (integro este grupo e assino o texto “Dívidas Ocultas”), sob coordenação do jovem escritor, poeta e jornalista Eduardo Quive e do ilustrador e designer Mélio Tinga. A plataforma Mbenga Artes e Reflexões (da qual sou co-fundador) está a produzir podcasts dos livros que, na próxima semana, estarão disponíveis. Os livros estão em formato pdf (https://literatasmz.org/download_livro) e é gratuito.
A internet está a mostrar-se uma alternativa para este novo mundo. Entretanto, há consciência de que nem todos os moçambicanos têm acesso ao smartphone e à internet, pelo que continuará a haver excluídos no consumo de arte. É tentando superar ainda que parcialmente esta exclusão que os podcasts serão transmitidos na rádio, justamente por ser este o media mais consumido no país.
Fazemos de tudo um pouco, aprendemos e inventamos o novo. E a esperança ganha o país que começa e acaba no velho rádio de pilha.