Kuteweza Makahlidwe – Covid-19, raça e tradição em Tete, Moçambique.

Inácio Dias de Andrade

São Paulo, 09 de Abril de 2020

I – “Estamos à espera da morte”
No dia 31 de março, o presidente da República de Moçambique, Filipe Nyuse, declarou Estado de Emergência no país. Bares, restaurantes, escolas e universidades foram orientados a fechar as portas, eventos foram proibidos, aglomerações superiores a 20 pessoas foram vetadas e os transportes públicos foram obrigados a limitar o número de passageiros por viagem.

Em Tete, província central do país, o decreto presidencial não impediu que as pessoas se aglomerassem nas paradas para disputar as poucas vagas dos carros que partem a todo minuto, nem evitou que a população ocupasse as ruas, feiras e mercados da região.

“É difícil ficar em casa. Nosso país é pobre. Além das pessoas morrerem da doença, vão morrer de fome”, afirmou Celestino, um jovem que em meio à crise foi pego de surpresa na Zambézia onde faz faculdade. Celestino falou comigo por WhatsApp enquanto tentava conseguir dinheiro para retornar para a casa dos pais em Tete.

Se no Brasil a discussão sobre renda básica e ajuda financeira a populações carentes se arrasta com o despreparo e mesquinhez de um presidente paranoico e incapaz, sustentado por uma oligarquia de empresários e rentistas delirantes e calculistas, em Tete, a discussão sobre o papel do estado na condução da crise e no bem-estar geral da população nem ao menos se constitui enquanto problema. Não por que os tetense constituem um feudo anarco-capitalista em meio aos sertões zambezeanos, mas sim por que a Covid-19 não foi a primeira nem a última crise humanitária que os habitantes de Tete enfrentam e eles sabem bem como elas costumam se desenrolar.

Na década de 1980, em um Moçambique tomado pela guerra, as cidades se tornaram um dos últimos locais seguros. O avanço dos confrontos entre Frelimo e Renamo pelas zonas rurais do país, obrigaram grande parte da população a buscar abrigo nas capitais. Superpovoadas, as a Cidade de Tete, capital da província de mesmo nome, se tornou foco de sarampo e cólera. Aqueles que fugiam em direção ao Malawi não encontraram uma situação melhor. Os exilados eram destinados aos campos de refugiados, nos quais a péssimas condições de higiene levaram a novas epidemias. Nos dois casos, nem a intensa mobilização internacional ou a ajuda dos governos moçambicano e estrangeiros impediram a morte de milhares de pessoas. À espera da morte, preocupados pela expectativa do que virá, mas sabendo que nada novo deve ocorrer, Celestino, como tantos outros moçambicanos, espera em frente a paragem dos machimbombos sem saber se ele irá chegar.

II – Wasenzi wana magazi yadauma
Assim como em outros lugares do mundo, em Tete, o Covid-19 deu novo combustível para antigas polêmicas. Como Celestino, muitos moçambicanos desafiam aglomerações em busca de transporte para sua terra natal. Como nos tempos de guerra civil, muitos temem morrer longe de casa. O temor de ser enterrado em um lugar desconhecido – ou mesmo em uma vala comum – onde nenhum parente poderá obedecer às cerimônias funerárias e cumprir os periódicos ritos póstumos em sua sepultura faz com que muitos moçambicanos, especialmente os jovens solteiros que não tiveram tempo de constituir família, imaginem um insuportável destino para seus espíritos.

“Melhor morrer em casa”, afirmou Celestino enquanto buscava algum comprador para seu computador entre os colegas de faculdade. Levantar dinheiro, procurar algum meio de transporte e esperar à morte entre os seus é a melhor maneira de enfrentar a crise.

Outros tetenses, no entanto, não se afligem.

”Wasenzi wana magazi yadauma”, conta-me um jovem morador de Tete.

Para muitos, o Covid-19 apenas repete um duradouro ciclo de desastres, humanos e naturais, que periodicamente atingem os sertões zambezeanos. A seca, a fome, o sarampo, a cólera, a malária, o colonialismo e a guerra constantemente lembram os habitantes de Tete da frágil posição em que habitam o mundo e das frequentes provações que foram (e são) obrigados a passar.

“Wasenzi wana magazi yadauma” – ou “os negros têm sangue duro” – é um lembrete sobre a história recente do país e um argumento usado por aqueles que acreditam que as dificuldades da vida em África produziram algum tipo de imunidade entre os negros. Acostumados ao trabalho forçado, as epidemias e aos conflitos, nessa visão os negros seriam mais resistentes que os brancos. Para alguns, os brancos, que trabalham confortavelmente sentados em escritórios climatizados e são obrigados a usar litros de protetor solar para aguentar alguns minutos do forte sol de Tete, seriam fisicamente mais frágeis e mais suscetíveis ao avanço do vírus.

Para outros, entretanto, os brancos teriam ajuda da tecnologia, da ciência e de seus governos para enfrentar a epidemia, enquanto os tetenses contariam apenas com algumas dúzias de baldes com água e sabão espalhados pelas feiras e mercados da província. A imagem da água suja estagnada após dezenas de pessoas lavarem as mãos seria uma alegoria da condição em que se encontram. Sem ajuda do governo, de organizações internacionais e sem qualquer tipo de material ou insumo, os habitantes de Tete se veem novamente condenados por um agente externo, por sua pobreza e por sua raça.
Alguns dias depois dos primeiros casos serem confirmados em Moçambique e no Malauí, dois tetenses foram linchados em Karonga, distrito do país vizinho, acusados de serem transmissores do Covid-19. Ao regressarem de Dar es Salaam, capital da Tanzânia, os dois homens cruzavam o Malauí em direção à Tete. Entretanto, ao passarem por Karonga foram obrigados a parar em um bloqueio na estrada. Levados a casa do líder comunitário foram acusados de serem homens chupa-sangue e espancados até a morte.

Os homens chupa-sangue são personagens conhecidos nas zonas central e norte de Moçambique, no Malauí e na Tanzânia. Os chupa-sangues, ou Ufuamulopa em cinyungwe, são pessoas acusadas de retirar o sangue dos pobres e entregar para os ricos para que prolonguem sua vida. De acordo com alguns, os Ufuamulopa levariam o sangue dos pobres para os hospitais de onde seriam direcionados para os ricos, em gera, moradores do sul do país, centro das decisões política e econômicas.
Nesse sentido, o vírus aciona diferentes percepções que os tetenses têm deles mesmo, do mundo e das complexas desigualdades sociais a que estão sujeitos. De um lado, ele faz referência a experiência histórica dessas populações com as diferentes epidemias por que passaram. De outro, reafirma a desigualdade racial produzida pelo colonialismo, sendo que para os tetensese é impossível entender a doença sem perceber os modos desiguais com que atinge diferentes populações ao redor do mundo. Do mesmo modo, o Covid-19 reafirma o isolamento político e econômico que as populações do centro de Moçambique estão sujeitas. O vírus, assim como os Ufuamulopa, sangra a camada mais pobre, reforçando sua vulnerabilidade social. Nesse sentido, para muitos o que resta é assegurar um bem-estar espiritual no pós-morte. O retorno frenético à terra natal é um modo de garantir ao menos em morte aquilo que não se tem acesso em vida. Assim, em tempos incertos é necessário kuteweza makahlidwe, ou “é preciso seguir a tradição”.