Panelaços, cafés e o “mundo exterior”

João Pedro Rangel

São Paulo, 8 de Abril de 2020

A cidade de São Paulo é o epicentro da epidemia de Covid-19 no Brasil e os números crescem dia a dia. Desde o início, sentimos uma espécie de aceleração do tempo e, muito rapidamente, fomos imersos numa nova realidade na medida em que éramos soterrados por informações que vinham de todos os lados sobre a disseminação do vírus, sobre a emergência médica, sobre a crise econômica iminente e sobre a necessidade do isolamento social. Neste novo mundo, governos e organizações internacionais anunciam protocolos e novas regras que devemos seguir em nosso dia a dia para evitar o contágio e disseminação do vírus, do mais simples ato de lavar as mãos com frequência ao mais difícil que supõe o isolamento social.

Eventos que aconteceram há não mais do que 1 mês parecem terem ocorrido há meses! Aluno de Ciências Sociais, eu estava em Campinas quando, no dia 12 de março, a Unicamp decidiu suspender as aulas como medida de prevenção. Foi uma surpresa para mim e colegas, pois, naquela altura, ainda não havia casos confirmados na Universidade ou mesmo na cidade de Campinas. Em poucos dias, tudo mudou, as instituições foram suspendendo as atividades e difunde-se a ideia de que qualquer reunião de pessoas deveria ser evitada. E os casos de Covid-19 começam a crescer dia após dia.

Vim para a casa dos meus pais em meio a este cenário marcado pela incerteza. Não sabíamos quando as aulas seriam retomadas e tampouco tínhamos noção real do contágio em São Paulo cuja marca é, até agora, a subnotificação de enfermos e contaminados. Desde então pude compartilhar virtualmente os mesmos receios de amigos e colegas que passam pela mesma situação aqui na cidade.

Qualquer contato com o “mundo exterior” tem sido motivo de ansiedade assim como qualquer saída de casa, rigorosamente calculada. Uma simples ida ao supermercado para as compras do mês transformou-se num grande empreendimento que exige um extenso planejamento. Após 14 dias em casa seguindo as recomendações do isolamento chegou a minha vez de ir ao mercado, de acordo com o revezamento que estabelecemos em minha família sobre os responsáveis que deveriam fazer tarefas que envolvessem contato com o “mundo exterior” e ao mesmo tempo não fossem dos grupos de risco. O uso de aplicativos ou plataformas dos supermercados de São Paulo se mostrou, naquele momento, ineficaz: uns não entregavam nada em menos de 15 dias, e outros não eram compatíveis com nossas formas de pagamento. A decisão exigiu a reflexão sobre uma imensa série de fatores constitutiva de uma tensa aventura ao desconhecido, “o mundo exterior”, embora se tratasse do supostamente familiar supermercado próximo ao bairro onde moramos. Esta experiência foi marcada pela ausência de qualquer sensação de controle, afinal estamos lidando com algo invisível, sendo confrontado a todo momento com esta nova realidade que se impõe e suas novas exigências, luvas, máscaras e álcool em gel. Era como se subitamente nos transformássemos em personagens de um filme.

Logo na entrada do supermercado, duas funcionárias de máscara e luvas mediam as temperaturas de quem chegava, controlando a entrada, enquanto que outra funcionária perguntava se queríamos que limpasse o carrinho antes de utilizá-lo. Todos os funcionários possuíam máscaras, apesar de nem todos utilizarem-nas corretamente a todo momento. Boa parte das demais pessoas que estavam comprando também possuíam máscaras e/ou luvas. Durante todo o momento em que estive fazendo as compras fui permeado por uma inquietação e ansiedade para não esquecer nenhum item da lista e jamais colocar a mão no rosto. Essas sensações não terminaram após realizar o pagamento no caixa, descartar as luvas/máscara e higienizar minhas mãos com álcool em gel, pois ainda havia o percurso de volta para casa e a limpeza dos produtos antes de guardá-los no armário. Trata-se de uma sensação particularmente confusa realizar todos esses novos procedimentos protocolares, para uma simples ida ao supermercado, um deslocamento no que diz respeito a nossa realidade cotidiana.
Mas nossa vida não apenas mudou no que diz respeito a algo tão corriqueiro como ir ao supermercado. A nossa jornada diária, antes entre-cortada pelo ir-e-vir, ou pelas refeições, passou a ser marcada pela hora das panelas. O panelaço diário que passou a fazer parte da vida do paulistano. Todos os dias, saímos às janelas para protestar contra a atuação do presidente na gestão da crise. No meu bairro em especial, zona sul da cidade de São Paulo, longe da densidade do centro, os panelaços não têm tido tanta força, mas ainda assim é possível ouvir as batidas das panelas ecoando de bairros vizinhos.
No primeiro panelaço minha mãe dispôs as formas mais velhas da casa nas quais poderíamos bater à vontade e amassar sem grandes problemas. Éramos só nós na janela e pouco ouvimos os vizinhos. Chegamos inclusive a parar por alguns instantes para confirmar se não havia realmente mais alguém conosco. Mas não desanimamos, e batemos com força por alguns minutos.

Duas coisas me chamaram a atenção neste dia. De um lado, as fotos de panelas e frigideiras totalmente destruídas dos colegas de trabalho da minha irmã, e que foram compartilhadas por meio das redes sociais. A destruição era tamanha, o que traduzia um fenômeno claramente catártico. De outro, um vizinho que aderiu ao panelaço que, supostamente, sucedeu o nosso: “panelaço a favor de Bolsonaro”, sugerido pelo próprio presidente da república nas redes sociais. Nosso vizinho estendeu em sua sacada estendeu a bandeira do Brasil e gritou junto de sua companheira, talvez como resposta a mim e minha mãe que havíamos participado do panelaço minutos antes.

Durante os dias de confinamento a primeira coisa que busquei estabelecer foi uma rotina de trabalho intercalada com exercícios físicos e dosagem de leitura das notícias. Não sou muito otimista com as redes sociais e suas armadilhas supostas na super exposição à tragédia. Entrar e sair do mundo virtual exige um grande esforço e por vezes somos acometidos de uma sensação letárgica e melancólica sobre o que será o futuro e essa nova realidade que se impõe.

Aqui em casa a produção de café se mantém intensa e continua durante todo o dia, o escritório, antes o cômodo mais vazio da casa, é agora disputado por mim, minhas irmãs e minha mãe que continuamos trabalhando remotamente de casa, frequentemente tendo vídeo-chamadas ao mesmo tempo. É curioso: em casa trabalhemos muito mais do que em nossa antiga rotina. Sem a necessidade de se deslocar pela cidade, a expectativa era de que diminuísse o cansaço. No entanto, justamente por estar a todo momento em casa, é difícil por vezes encontrar intervalos para espairecer, os longos períodos sentados em reuniões ou trabalhando em outras tarefas resultam em dores nas costas, na lombar e ciático, manejadas através de exercícios de alongamento, pilates e bolsas de água quente, que têm sido nossos maiores aliados.
Diante do tédio gerado pelos longos dias em isolamento, a saída tem sido a busca de novas formas virtuais de comunicação com amigos/as e familiares. Através de plataformas que permitem fazer coisas banais como jogar “stop” ou “imagem e ação”, procuramos enfrentar o confinamento de forma divertida.

Outra maneira criativa e divertida que foi utilizada por estudantes da Unicamp para enfrentar a crise foi a realização de uma festa online. O evento foi feito através das contas institucionais no google meet, que permitem a participação de centenas de pessoas. A ideia era simples, cada um de sua casa conectava-se ao vídeo chamada e os/as djs cuidavam da playlist. Eu e meus amigos e amigas compartilhamos a sensação de estar realmente numa festa, trocando mensagens pelo celular tal como conversaríamos pessoalmente, inclusive indo ao bar pegar bebidas uns para os outros ficcionalmente. Por ora, temos que evitar o “mundo exterior”