Coronavírus no Haiti: tensões entre o Estado e povo

Frantz Rousseau Déus

Campinas, 06 de Abril de 2020

I
Na quinta-feira, 19 de março de 2020, o governo haitiano anunciou que foram registrados dois casos confirmados de coronavírus no país. Como primeira medida, ele declarou emergência sanitária sobre todo território nacional. Tal anúncio gerou grande inquietação em toda população, que até então, pensava que o coronavírus era algo distante e que, provavelmente, não chegaria no país. Logo depois desse anúncio, e como em todos os países, as redes sociais se transformaram numa verdadeira arena de debate, onde especialistas e não especialistas emitem opiniões diversas e contraditórias. As estações de rádio e televisão nacionais e locais não param de informar o público sobre o perigo da Covid 19 assim como sobre as medidas que devem ser tomadas tanto para evitar a propagação do vírus como para deter a contaminação dos indivíduos. A grande carga de (des)informações suprime/aumenta tensões sociais e, ao mesmo tempo, (des)estabiliza psicologicamente haitianos/as que já lutavam para sobreviver num país onde o Estado sempre se mostra contra o povo.

No dia 19 de março de 2020, no seu anúncio à nação, o atual presidente Jovenel Moïse decretou couvre-feu – toque de recolher – das oito da noite às 5 da manhã, começando no mesmo dia 19 de março e sem prazo definido. Aeroportos, escolas, universidades, locais de culto e áreas industriais foram fechados e encontros com mais de 10 pessoas foram proibidos. Essas decisões inesperadas acabaram por gerar grande pânico no país, pois as pessoas não tiveram tempo para se organizar. Concomitantemente, deixaram muitas dúvidas não somente sobre a capacidade do Estado de lidar com essa pandemia, mas também sobre a predisposição da população para respeitar as medidas tomadas pelo governo e acatar as sugestões dos/as profissionais de saúde.

II
Seguindo os acontecimentos em países fortemente atingidos pelo coronavírus, sinto um profundo desânimo para discorrer sobre o Haiti. Não consigo sequer pensar sobre a capacidade ou a vontade do Estado haitiano para lutar contra o vírus. Ciente da presença do coronavírus nos Estados Unidos e na República Dominicana, dois dos principais países onde os/as haitianos/as fazem ale vini, o governo haitiano, antes de 19 de março, não demonstrava preocupação com o coronavírus. Enquanto muitos países estavam pensando em medidas para contê-lo vírus, o governo estava construindo barracas para realizar carnaval e, assim, desviar a atenção das massas.

Além da despreocupação mostrada pelo governo, há a precariedade do sistema de saúde do país. Enquanto o governo preparava o carnaval, os profissionais de saúde estavam em greve exigindo melhor condições de trabalho, materiais básicos como luvas, cilindros de oxigênio, entre outros itens, para atender a população. Outro elemento que explicita a incapacidade do Estado haitiano para enfrentar a Covid 19, é a existência de apenas 124 leitos em todo o país para atender mais de 10 milhões de pessoas.

Tendo estas informações em mente, fica a pergunta: se os sistemas de saúde dos países ocidentais se desmoronam diante do coronavírus, o que podemos esperar de um país como Haiti, administrado historicamente por um Estado predatório que se contenta apenas em explorar seu povo? Seguindo a reflexão do antropólogo e historiador haitiano Michel Rolph Trouillot, trata-se de um Estado que se constitui em oposição à nação. De certa forma, o coronavírus reforça a ideia de que o Estado haitiano fracassou. Baseado em Noam Chomsky, afirmo tratar-se de um Estado que não tem capacidade para proteger seus/suas concidadãos da violência e até mesmo da destruição.

A reação de certos/as haitianos/as nas redes sociais e nas estações de rádio locais mostra que há uma grande desconfiança com relação a este Estado-predatório-fracassado. São recorrentes expressões como: “teyat k ap jwe” (estão apresentando uma peça de teatro) ; “gouvènman an dèyè fè kòb ak kowonaviris la” (o governo está querendo ganhar dinheiro com o coronavírus). “depi kilè nèg sa a yo te renmen pèp konsa?” (desde quando os governantes amam o povo assim?) Esta reação evidencia ora a falta de legitimidade do Estado sem legitimidade, ora a descrença na existência do coronavírus no país ou pelo menos a falta de compreensão do sua dimensão.

III
As opiniões divergem a respeito do coronavírus no país: enquanto há haitianos/as que acreditam que ele ainda não chegou ao país, outros/as estão seguros que já se propagou. Há ainda aqueles/as que ouviram falar do vírus, mas não sabem do que se trata exatamente.

Logo após à decisão de 19 de março, entrei em contato com meus parentes que moram na cidade de Jérémie, localizada em torno de 290 quilômetros da capital, Porto-Príncipe. Também tentei conversar com alguns antigos colegas de ensino médio que moram em Jérémie. Na ocasião, perguntei-lhes se sabiam sobre a existência do coronavírus no país e se estavam a par das decisões do governo para lutar contra o coronavírus. Eles me responderam que sim. Apesar de sua descrença nas palavras do presidente da República, afirmaram procurar informações e seu cuidado no sentido de implementar as precauções necessárias.

Assim foi meu diálogo no facebook com Marc Henry, ex-colega de ensino médio, atualmente professor: “kijan-w wè leta a ap jere kesyon coronavírus nan vil Jeremi an?” (Como você vê o Estado está lidando com o problema de coronavírus na cidade de Jeremie?), perguntei; ele respondeu: “Y ap mal jere sitiyasyasyon an. Nou sou kont Bondye” (A situação está sendo mal administrada. Estamos na mão de Deus). O que significa que não espera nada das autoridades.

Jean-Jean Roosevelt, artista originário da Grand’Anse, fez uma música intitulada Corona, com intuito de sensibilizar o povo haitiano a respeito do coronavírus. Ele foi aos meios rurais do departamento da Grand’Anse, onde é evidente a total ausência do Estado, sensibilizando os/as peyizan – camponeses/as. No dia 27 de março, na estação Radio Télévision Caraïbe, na emissão Premye Okazyon, o cantor Jean-Jean Roosevelt foi convidado a falar da sua música e sobre sua participação na luta contra o coronavírus. O cantor explicou que durante sua campanha nas regiões do interior do departamento da Grand’Anse percebeu que muitas pessoas começaram a vender as suas coisas para poder comer porque, de acordo com os rumores, todos em breve morreriam como consequência do vírus. Enquanto esperam a chegada da morte, aproveitariam o seu tempo para desfrutar o resto da vida.

O sociólogo haitiano Serge Bernard enfatizou que esse tipo de desinformação terá consequências catastróficas na vida desses/as camponeses/as, na medida em que a colheita será precoce, assim como sua venda na cidade mais próxima para obter boa comida e bebida, e o gado será vendido e/ou abatido. Trata-se de uma projeção pós-coronavírus. Isto é, as consequências futuras do vírus poderão ser nefastas.

Outro fato que chamou a minha atenção em Jérémie é que o prédio do Ministério da Educação está ocupado por alguns professores/as da rede pública que estão reclamando seus salários há mais de dois anos atrasados. Numa entrevista com o jornalista Mackenzy Pierre, os/as professores/as salientam que não têm condição para ficar em casa em confinamento, destacando “rete lakay nou n ap mouri grangou, ebyen nou deside vin rete nan ministè a pou Leta peye nou, ou byen nou mèt mouri isit la” ( se ficarmos em casa, vamos morrer de fome. Então decidimos permanecer no ministério para que o Estado nos pague, ou vamos morrer aqui). De acordo com esses/as professores/as, a decisão desta ocupação foi tomada após o anuncio do governo de que 100.000 professores/as de escolas e universidades particulares do país receberão uma subvenção. Mas não falou nada a respeito daqueles/as professores/as da rede pública que há mais de dois anos não recebem seu salário. Para esses/as professores/as o governo não tem interesse em combater o coronavírus, antes se aproveita dessa situação para que alguns possam se enriquecer. Enriquecer com a pandemia pode parecer uma ideia absurda, mas é comum no Haiti que catástrofes e/ou desastres criem novos ricos, novas oportunidades para que alguns líderes se enriqueçam. Ou seja, é comum, líderes e políticos se aproveitarem de situações desastrosas para seu enriquecimento pessoal, graças a verbas que deveriam ir para os/as mais necessitados/as. Esses novos ricos-pós-catástrofes enriquecem explorando o desastre e a catástrofe. Os novos ricos que emergiram depois do terremoto de 12 de janeiro de 2010 que assolou o Haiti são bons exemplos. Embora o sociólogo haitiano Franck Seguy tenha mostrado que foram membros de ONGs internacionais que mais enriqueceram com a catástrofe, não poucos haitianos próximos ao governo se beneficiaram. Uma pandemia que atinge o mundo como um todo pode oferecer, contudo, outro cenário.

IV
No dia 5 de abril, um grupo de pessoas saíram às ruas cantando uma música que afirmava a não existência do coronavírus no Haiti. Seu refrão era “si te corona, Jovenel tap pran li deja” (se existisse coronavírus, Jovenel já teria sido infectado). Além da desconfiança com relação ao governo, essa manifestação pode revelar uma grande catástrofe que está por vir.
Ao desconfiar das palavras do atual presidente do Haiti, as pessoas tendem a agir na direção contrária do que recomendado pelo governo. O perigo está em que as pessoas não somente banalizam o coronavírus, como também subestimam a sua letalidade. Como diz o ditado popular haitiano, “se Sen Toma nou ye, se lè nou wè, nou kwè” (somos São Tomás, temos de ver para acreditar). Este ditado popular haitiano, que faz referência à personagem bíblica São Tomás que acreditou no Cristo ressuscitado somente após vê-lo, diz muito sobre a atitude de haitianos não somente em relação à pandemia, mas, sobretudo, em relação a tudo que vem do governo. Se os/as haitianos/as esperam ver pessoas mortas para reagir diante do coronavírus, o resultado pode ser catastrófico.

A atitude de muitos/as haitianos/as diante do coronavírus reflete a crise de legitimidade que que sofre o atual governo. Se fosse pelo povo haitiano, o presidente Jovenel Moïse não estaria mais no poder, e não foram poucas vezes que peyi a te lòk (o país foi trancado) para exigir sua renúncia do Jovenel Moïse. Com tantas promessas não cumpridas e com tantas falas vazias, o povo o chamá de Mantè (mentiroso). Ainda hoje, as pessoas continuam a não acreditar na existência do coronavírus no país. No dia 5 de abril, em conversa telefônica com meu pai, Remy Déus, descobri que os mercados públicos continuavam sendo lotados e que “gagè ap fonksyone nan mitan vil la” (os espaços feitos para as brigas-de-galo continuam funcionando) na cidade de Jérémie. Enquanto o mundo se preocupa em prever e diminuir os efeitos letais do coronavírus, governos incentivam pessoas a ficar em casa, evitando aglomerações, no Haiti manifestações com várias centenas de pessoas foram realizadas, particularmente no dia 4 de abril. Uma delas porque o artista Jean-Jean Rousevelt foi preso por estacionar seu carro num lugar supostamente proibido, outra porque o jornalista Luckner Desir (Louko) foi preso por fazer críticas à maneira como o governo está lidando com o coronavírus.

O comportamento das elites políticas do país nos leva às seguintes conclusões: ou não aprenderam nada com as últimas catástrofes (o terremoto de 2010, o cólera trazido pelos soldados da MINUSTAH), ou são incompetentes para cumprir suas funções, ou são tão corruptas que não pensam minimamente no bem-comum. Tudo leva a crer que a Covid-19 que já conta com 24 afetados notificados/as no país se revela já uma catástrofe porvir. A menos que a natureza nos seja clemente.

As informações provêm dos jornais haitianos Le Nouvelliste e Le National e de conversas de facebook com alguns amigos da cidade de Jérémie. Agradeço Dieumettre Jean por seus comentários, ao jornalista Mackenzy Pierre, a meu pai Remy Déus e a Marc Henry pelas informações sobre o coronavírus na cidade de Jérémie.