Fake News e Corona Vírus, ou Requiem para um milagre econômico

Bruno Franco Medeiros

Nova York, 5 de abril de 2020

I

Em novembro de 1929, em meio ao grande caos social, político e econômico causado pela Grande Depressão iniciada em outubro daquele ano, a canção Happy days are here again foi gravada pela primeira vez nos Estados Unidos. Deixemos a primeira estrofe falar por si mesma:

Happy days are here again
The skies above are clear again
So let’s sing a song of cheer again
Happy days are here again.

A canção foi lançada como uma forma de remediar, emocionalmente, a sensação de fim do mundo que afetou o país e acabou tomando proporções apocalípticas globais. Quando a economia finalmente começava a dar sinais de melhoramento em 1932-33, o desemprego no país atingia aproximadamente 25% da população ativa. Milhares de pessoas passando fome nas ruas. Milhares de pessoas imigrando para lugares distantes em busca de uma situação menos desconfortável. Muitos encontraram conforto tirando suas próprias vidas. Todas essas pessoas ouviam em rádios espalhados no país uma canção que dizia que dias felizes haviam retornado e que era um momento para celebrar a vida novamente. Uma completa negação da realidade. Mas também uma das ferramentas políticas norte-americanas mais eficaz.

É parte da cultura política norte-americana passar por cima de problemas e/ou ignorá-los o mais rápido possível – time is money. Muitas vezes isso significa um desdém pelo passado e presente e uma obsessão pelas promessas do futuro. Nem que isso signifique – mais do que gostaríamos de admitir – varrer a sujeira para debaixo do tapete. Se esta é em última instância a mentalidade da política norte-americana, diferenças podem ser vistas em como determinados líderes reagem em determinados momentos de crise. Enquanto alguns varrem a sujeira para debaixo do tapete, outros utilizam um aspirador de pó.

Franklin Delano Roosevelt, pai do New Deal, foi considerado o salvador da pátria naquele que era considerado até então o momento mais tenebroso na história do país. Eleito presidente dos Estados Unidos com um plano para salvar o país da bancarrota em 1932, Roosevelt encarnou o líder que os norte-americanos precisavam naquele momento. Pelo menos segundo quase 60% do eleitorado. Happy Days Are Here Again foi usado como jingle de sua campanha eleitoral e se tornou uma espécie de hino do Partido Democrata. No seu discurso inaugural em 1933, ao tentar acalmar os ânimos da população, Roosevelt fez um grande apelo nacional de improviso que acabou por transformar-se numa de suas frases mais emblemáticas. Aos norte-americanos que temiam as desastrosas consequências da grande crise econômica, ele disse: “A única coisa que devemos temer é o medo em si”.

II

“A cura do coronavírus não pode ser pior do que vírus em si”: estas foram as palavras proferidas pelo presidente Donald Trump no dia 23 de março de 2020. Naquele fim de semana, o estado de Nova York viu os números de pessoas contaminadas pelo vírus subir assustadoramente pela primeira vez, uma situação que se tornaria cotidiana nos dias e semanas a seguir. Naquele momento o estado estava há uma semana sob ordem de isolamento social. Contudo, as palavras de Trump eram uma tentativa de acalmar o mercado e forçar o retorno imediato à normalidade, com pessoas de volta ao trabalho e a economia de volta ao normal. Ele contrariava, mais uma vez, suas próprias autoridades médicas que recomendavam o isolamento social como um fator fundamental para achatar a curva de transmissão do coronavírus. Mas essa não era a primeira vez que Trump tinha um comportamento irresponsável em relação ao combate ao coronavírus.

Primeiro o coronavírus era um mito, uma criação do Partido Democrata para derrotá-lo. Quando já não era possível negar a existência de uma ameaça real iminente para o povo norte-americano, tentou acalmar o país dizendo que o vírus iria passar sem deixar nenhum rastro com a chegada da primavera e temperaturas mais altas. “Está tudo bem”, ele diria. “Estamos fazendo um bom trabalho”, “a bolsa de valores está excelente”, “a economia nunca esteve melhor”. Ele trocaria deliberadamente o termo coronavírus por “vírus Chinês”, numa tentativa de se eximir de responsabilidade pelo atraso em lidar com a doença em seu próprio país, ao mesmo tempo culpando a China pela epidemia. Desde a confirmação do primeiro caso do coronavírus no estado de Washington em meados de janeiro, Trump tentou dominar a narrativa da pandemia como se estivesse em seus palanques políticos ao redor do país: com malabarismo demagógico e negacionismo da ciência e do bom senso.

Quando os primeiros casos do coronavírus surgiram em Nova York e o rumor de que a população de uma das maiores cidades do mundo iria ser obrigada a ficar em casa – consequentemente paralisando uma das maiores economias do mundo – as trombetas do apocalipse soaram na Bolsa de Valores. Milhares de pequenos negócios foram fechados. O número de pessoas que solicitaram o seguro-desemprego bateu um recorde de quase 8 milhões de pessoas. Isso significa que, em uma semana, 8 milhões de pessoas foram demitidas. Restaurantes, hotéis, lojas e bares fecharam. A maioria dos trabalhadores nesses estabelecimentos recebem em média $15 dólares por hora e contam (e muito) com as gorjetas para sobreviver. No fim de março, e após mais de uma semana de discussões e votações no Senado, o Congresso norte-americano aprovou um pacote econômico para aliviar famílias que perderam seus empregos (bem como pequenas e grandes empresas) no valor total de 2 trilhões de dólares. Neste momento o Congresso discute a criação de um segundo pacote. O fantasma da Grande Depressão está batendo na porta.

Os únicos estabelecimentos que têm autorização para permanecerem abertos são aqueles considerados essenciais: farmácias e supermercados (em alguns estados mais conservadores no sul do país, lojas que vendem armas de fogo e munição são consideradas essenciais). As filas para fazer compras nesses lugares são enormes, principalmente porque todos tiveram que se adaptar às normas de segurança: as pessoas precisam manter uma distância mínima de 2 metros umas das outras. Papel higiênico, papel toalha, produtos de limpeza – principalmente álcool em gel – se transformaram em raridades cujos preços rivalizam com os de artigos de luxo. Uma amiga fez uma compra desses produtos pela Amazon. O que geralmente demoraria no máximo 2 dias para ser entregue agora demora pelo menos 1 mês. Nova York de um mês atrás – capital do comércio, da cultura, do turismo, da economia –, a cidade que nunca dorme, não existe mais. Nova York se transformou em cenário de filmes apocalípticos de Hollywood: uma cidade fantasma. Até agora, o coronavírus matou mais nova-yorkinos do que os atentados terroristas de 11 de setembro. A cidade parou. O estado parou. Aos poucos, outros estados também pararam. Hoje, 86% dos norte-americanos estão em isolamento social em casa por ordem dos governadores dos estados que adotaram as recomendações das autoridades médicas. Gostaria de enfatizar que a ordem é estadual e não federal. Trump nunca se interessou em tomar uma posição mais enérgica no sentido de deter a transmissão descontrolada do vírus.

Os sinais de uma grave crise econômica só aumentam. Mas governadores estão preocupados, primeiro, em salvar vidas; a economia vem depois. Infelizmente, este não é o caso do presidente Donald Trump.

Com a epidemia se espalhando em vários estados do país, a Casa Branca acabou criando uma força-tarefa de combate ao coronavírus, liderada pelo vice-presidente Mike Pence, político conservador para quem a crença religiosa é superior ao conhecimento científico. Surpreendentemente, e na direção contrária à de Trump, Pence passou a adotar um tom mais sério com relação ao vírus. Desde o início do surto no país, Trump e Pence atualizam o país diariamente em coletivas de imprensa. Ao seu lado, a força-tarefa é composta por duas autoridades médicas e científicas: o doutor Anthony Fauci e a doutora Deborah Birx. Ambos têm u papel central no andamento da crise. O primeiro é o de informar a população sobre o estado do coronavírus no país. O segundo – e o mais difícil – corrigir as notícias falsas e as opiniões pessoais que o presidente propaga não só nas coletivas, mas principalmente no Twitter. Trump é um egocêntrico que transformou as coletivas de imprensa diárias em palanque político – ele é candidato à reeleição pelo Partido Republicano em novembro deste ano. Para se reeleger, ele se ampara principalmente no bom desempenho que a economia vinha mostrando desde que assumiu a presidência em 2016. Em seu mundo particular, tudo está sob controle. Ele continua negando o verdadeiro impacto do coronavírus no país. Ele trata a explosão incontrolável do vírus no país da mesma maneira que enfrenta qualquer coisa que ameace seus interesses próprios: para ele, tudo é fake news e conspiração.

Para se ter uma ideia, ele queria impor o fim do isolamento social no país no fim-de-semana da Páscoa (12 de abril), contrariando as recomendações das autoridades médicas e científicas. As mesmas autoridades preveem que o vírus irá atingir os estados norte-americanos em momentos distintos, num cronograma que pode levar de 6 a 18 meses.

Donald Trump não tinha nenhuma vocação ou experiência política antes de assumir a presidência. Em seu currículo: dono de vários negócios (muito deles falidos) e apresentador de reality show. A diferença entre ele e a força-tarefa nacional responsável pelo combate ao coronavírus é gritante. Deborah Birx é especialista em imunologia clínica na área de alergia e diagnósticos desde a década de 1980, atuando na linha de frente do combate ao vírus. Foi nessa época que Birx conheceu Anthony Fauci, que está à frente do Instituto Nacional de Alergia e Doenças Infecciosas desde 1984, e acompanhou a gestão de todos os presidentes norte-americanos desde Ronald Reagan, quando o mundo viu o surto da epidemia de Aids surgir.

Dr. Fauci e a Dra. Birx acabaram por se transformar em fontes valiosas de informações verdadeiras sobre o vírus em meio ao negacionismo, a demagogia e a ética da fake news do presidente Trump. Diante do protagonismo de Dr.Fauci na mídia, Trump tentou excluí-lo das coletivas de imprensa. Enquanto grande parte do país se perguntava o porquê de sua ausência, entusiastas mais dogmáticos de Trump e supremacistas brancos iniciaram um verdadeiro bombardeio digital contra Fauci. Desde do dia 1 de abril ele precisa de segurança particular 24 horas por dia devido ao grande número de ameaças de morte que vem sofrendo.

Trump tem um séquito de seguidores fervorosos que levam o seu lema Make America Great Again muito seriamente. Como sabemos, a América que Trump quer revitalizar exclui negros, imigrantes, gays, ciência e fatos. Não é de se espantar que o número de ataques racistas a sino-americanos aumentou enormemente desde o início de notícias sobre os acontecimentos na China. Restaurantes chineses no Chinatown de Nova York viram o desaparecimento de seus clientes já em janeiro, mesmo quando nenhum caso do vírus havia sido confirmado no país. Em outros bairros, a fila para entrar em restaurantes e bares que não fossem asiáticos ainda era grande, alguns deles com lista de espera de dois meses. Foi ficando claro o impacto junto aos conservadores de que o coronavírus seria um “vírus chinês”, e o New York Times relatou que moradores de um subúrbio rico a cerca de 8 km ao norte de Manhattan estavam encomendando almoço ou jantar de restaurantes asiáticos com a condição de que a comida não fosse tocada por ninguém de origem asiática. Outra notícia do mesmo jornal relatava que uma família sino-americana (pai, mãe e bebê) faziam compras em um supermercado numa cidade do Texas quando foram atacados a facadas por um adolescente norte-americano. Quando indagado pela polícia o motivo da atrocidade, o adolescente afirmou que eles eram responsáveis pela disseminação do vírus no país.

III

Em meio a isso tudo, uma figura política local vem assumindo um papel central na luta contra o coronavírus no âmbito nacional: o governador do estado de Nova York, Andrew Cuomo.

Em seu segundo mandato como governador, o protagonismo de Cuomo como um bom estrategista na luta contra o coronavírus merece ser tomada, como dizem os americanos, com uma pitada de sal. Muitos o acusam de ter sucateado o sistema de saúde, educação e transporte público no Estado nos últimos anos. No entanto, sua liderança e engajamento na luta contra o vírus tem deixado Trump em segundo plano. Nova York conta com o maior número de casos de coronavírus no país: segundo os números de sábado, dia 4 de abril, são mais 115 mil infectados e 3600 mortos – mil mortos foram registrados em um único dia, sexta-feira dia 3 de abril

Para termos noção da gravidade da situação por aqui, o segundo estado com maior número de infectados – New Jersey – conta com 34 mil casos e 840 mortes.

Cuomo exigiu que os dois sistemas de saúde no estado de Nova York – privado e público – passassem a operar como um sistema único de saúde no tratamento das vítimas do coronavírus. Hospitais privados receberão pacientes de hospitais públicos e vice-versa. Essa situação é inusitada porque os Estados Unidos não possuem um sistema público de saúde como o Brasil ou países europeus, por exemplo. A decisão de unificar os dois sistemas é uma forma de salvar vidas. Na semana passada, o país registrou a primeira morte de um paciente adolescente em Los Angeles. Quando ele se sentiu mal, dirigiu-se para o hospital mais próximo para fazer o teste e ser socorrido. Como o hospital era privado e ele não possuía seguro saúde, a administração hospitalar o encaminhou para a emergência pública mais próxima. No meio do caminho ele teve uma parada cardíaca e não resistiu.

Tendas hospitalares estão sendo construídas por todo o estado, incluindo uma unidade hospitalar no meio do Central Park com capacidade para 68 pacientes de Covid-19. Caminhões-baú foram adaptados com ar refrigerado para servirem como necrotérios. Um navio hospital da Marinha americana, com capacidade para 1 mil leitos, atracou no Rio Hudson esta semana.

Um dos grandes desafios em Nova York é o número de respiradores artificiais. O grande produtor desse equipamento é a China. Com o mundo inteiro tentando comprar tais equipamentos, aparentemente o preço dos respiradores subiu de 20 para mais de 50 mil dólares. Várias alternativas vêm sendo testadas, de modo a evitar o colapso do sistema de saúde e o imenso número de mortes quando a doença atingir o seu pico no estado. Uma das mais comentadas é o uso de um único respirador por dois pacientes. Respiradores artificiais serão mais do que necessários durante essa semana, quando se espera que o pico da curva do vírus seja atinja o estado. A governadora do Oregon emprestou para Nova York 140 respiradores. Cuomo prometeu retornar não só os respiradores, mas também emprestar médicos, enfermeiros e outros equipamentos quando a curva do vírus atingir não só o Oregon (cuja previsão atual é maio), mas também os outros estados com mais dificuldades. O fundador do grupo tecnológico chinês Ali Baba, em conjunto com uma série de organizações daquele país, fez uma doação de mil respiradores ao Estado de Nova York. A carga chegou ao aeroporto internacional JFK neste sábado. Hospitais no Queens, sub-prefeitura da cidade, tem pacientes em macas nos corredores e em cadeiras de rodas, atingindo o limite de sua capacidade. Médicos e outros profissionais da saúde estão racionando máscaras, aventais e outras roupas de proteção. Muitos estão contaminados pelo vírus e foram afastados. Os demais, exaustos pelas horas extras. 85 mil profissionais da saúde espalhados pelo país se dispuseram a vir a Nova York para ajudar o estado em seu momento mais crítico.

Uma das perguntas que o governador Cuomo recebe todos os dias de jornalistas é: quando isso vai acabar e quando a vida em Nova York voltará ao normal? Sua resposta: não voltaremos ao normal. Teremos que inventar uma nova normalidade. A nova normalidade defendida pelo governador é de um país que não pode continuar dependente de produtos vitais manufaturados no exterior.

O maior número de desempregados por conta do coronavírus está, por ora, em Nova York. Nas próximas semanas, muitas pessoas terão que escolher entre pagar aluguel, o financiamento escolar ou as compras do mês. Cuomo baixou uma lei que proíbe despejo de moradores que não pagarem aluguel nos próximos 3 meses. Milhares de crianças do ensino fundamental e médio da rede pública não retornarão à escola para terminar o ano letivo, programado inicialmente para o fim de junho. Professores tentam, com recursos mínimos, ensinar à distância. A maioria das crianças da rede pública precisa da escola não só para aprender, mas também para fazer suas refeições básicas. Grande parte das escolas não possui computadores individuais para distribuir para os alunos.

Nova York é, provavelmente, um dos lugares com maior diversidade de pessoas no mundo. Mas é também um dos lugares com maior desigualdade de distribuição de renda entre sua população. Na conjuntura atual, tais diferenças econômicas aumentam de forma abismal.

O país está prestes a assistir a sua segunda expansão do vírus em direção ao Oeste. Como um tsunami, o coronavírus atingirá todo o país. Se seu impacto é assustador na Costa Leste, será desolador ver o seu movimento crescente em direção ao Oeste. Particularmente naqueles estados mais conservadores que negaram as consequências do coronavírus, onde parte de seus habitantes defendia que a gripe normal seria mais perigosa do que o vírus atual, ou que achava que tudo não passava de uma invenção do Partido Democrata.

Neste exato momento, os líderes políticos estaduais tentam acalmar suas comunidades reafirmando a necessidade de focar na luz no fim do túnel, enquanto núcleos familiares inteiros sucumbem ao vírus (uma família em New Jersey assistiu o vírus levar três de seus membros em menos de uma semana).

A grande pergunta global é: quando veremos a luz no fim do túnel? A pergunta que eu me faço é: quando aquela luz começar a aparecer, ela irá brilhar para todos?