A tragédia do COVID-19 no Irã e a reinvenção da existência cotidiana

Ana Maria Raietparvar

5 de Abril de 2020

O Irã foi um dos países mais afetados pelo COVID-19, apresentando um alto índice de infectados já no início da crise em janeiro. Já foram registradas mais de 3000 mortes no país, além da estimativa de que 30.000 pessoas estejam infectadas, num país de 80 milhões de pessoas. Foram atingidos, inclusive, membros do alto escalão do governo, incluindo o Ministro da Saúde, Iraj Harirchi. Assim como a maioria dos países, o Irã enfrenta também um problema de subnotificação, e podemos supor que esses números não representem a totalidade dos casos. O que se sabe é que o sistema de saúde iraniano já atingiu o limite da sua capacidade há algumas semanas e há inúmeros relatos de que os profissionais da saúde estariam atendendo inclusive sem os equipamentos necessários para sua proteção.

Já em estado avançado do alastramento da epidemia pelo país, o cenário, como deve se imaginar, não é muito reconfortante. O governo demorou algumas semanas para restringir as atividades públicas e não chegou a isolar nenhuma área em quarentena oficialmente. Os milhares de mortos estão sendo enterrados em valas comuns, que podem ser vistas por satélite. Entre os mortos, muitos profissionais da saúde. As fronteiras com os países vizinhos estão todas fechadas. Mais de 85 mil presos foram liberados, metade da população carcerária, para evitar que o vírus se alastrasse nas prisões; muitos desses, presos políticos. Junto a tudo isso, as sanções econômicas retomadas por Donald Trump, ao retirar os EUA do Acordo Nuclear assinado por Barack Obama em 2015, que restringem as transações comerciais do seu país e seus aliados com o Irã, dificultando a entrada de suprimentos médicos no país.

O epicentro da crise no Irã se deu na cidade de Qom, ao norte do país. O vírus teria chegado à cidade por um comerciante chinês vindo de Wuhan. Qom é o principal centro religioso iraniano, lar para as principais escolas teológicas xiitas do país. De lá saíram os principais líderes religiosos iranianos, incluindo o Ayatollah Khomeini, sendo o berço da Revolução de 1979 e da República Islâmica instaurada logo depois. Além disso, abriga o santuário de Fatima, figura sagrada na cosmologia xiita, sendo, portanto, centro de peregrinação de religiosos de outros países. O caso de Qom ajuda a levantar o debate acerca do papel de santuários e centros de peregrinação em tempos de Covid-19. As autoridades iranianas demoraram em agir no fechamento desses lugares sagrados, continuando ainda durante semanas atraindo peregrinos de outras partes do Irã e de países vizinhos, potencializando o espalhamento do coronavírus a outras partes do país e a outros países do Oriente Médio. Ainda no fim de fevereiro, os argumentos utilizados por Mohammad Saeedi, clérigo responsável pelo Santuário de Fatima, é de que o local é um centro de cura de doenças físicas e psicológicas e, portanto, não seria fechado. Eventualmente esta e outras cidades sagradas, como Mashhad, principal centro de peregrinação do Irã, onde está localizado o santuário do Imam Reza, também foram postas em quarentena. Não só o Irã mas também outro lugares sagrados do mundo islâmico cancelaram suas peregrinações, incluindo o Hajj para as cidades de Meca e Medina na Arábia Saudita.

No meio desse panorama, os moradores de Teerã, a capital com mais de 8 milhões de habitantes, se reinventam sob o isolamento social que começou no fim de janeiro. A maior cidade do país encontra-se com as ruas esvaziadas enquanto seus moradores dedicam-se a diversas atividades para passar o tempo em casa. A cozinha tem sido uma grande amiga dos iranianos isolados em tempos de quarentena. Jovens acostumados a pedir comida delivery repentinamente estão se reconectando com a cozinha, tendo virado mania a troca de receitas via Telegram (a rede social mais usada no país). As ruas de Teerã são preenchidas pelos aromas das especiarias típicas da sofisticada culinária iraniana. Além da cozinha para se distraírem, os moradores também contam com músicos que passam pelas ruas da capital durante as noites para animar as pessoas em auto-isolamento.

O maior impacto, no entanto, se deu na comemoração do Ano Novo Iraniano, o Noruz, celebrado junto com a chegada da primavera no hemisfério norte, em 21 de março. A principal celebração nacional, que reúne familiares, lota os comércios e movimenta a economia, teve que ser realizada privadamente, sem viagens, sem reuniões entre os vizinhos, sem o tradicional pulo da fogueira. Os fãs de cinema iraniano devem se lembrar do filme O Balão Branco, de Jafar Panahi, em que uma garotinha sonha em poder comprar um peixinho dourado para poder montar a mesa do Nowruz, em que o peixe é um dos elementos da decoração na tradição iraniana, juntamente com mais 6 elementos obrigatórios. Em vez da reunião familiar anual, só se manteve a leitura de poemas da literatura persa, que foram repassados por mensagens de textos entre entes queridos separados.

Fontes: Aljazeera, The Guardian, Tehran Times, Middle East Monitor, BBC, Ajam MC